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1, 2, 3, discussão outra vez!

DR

Quando não se tem medo de ser infeliz, discutir na forma “destruir” é a solução!

É assim que muitos casais discutem:

Ela: “Ele deixa sempre a roupa espalhada pela casa e já lhe disse mil vezes que detesto isso…”,

Ele: “Sempre a falar do mesmo. Já chateia. Sempre que chego a casa ouço isto… vejo a cara dela e só tenho vontade de sair…”,

Ela: “Nunca ouve nada do que digo!”,

Ele: “Está sempre insatisfeita por mais que faça…sempre a queixar-se!”,

Ela: “Nunca me respeita! Fala sempre aos gritos!”,

Ele: “Só pensa nela e tem que ser como ela quer”!

Ela: “Eu? Exatamente o contrário! É como se eu não existisse! Não aguento mais! Parecemos dois estranhos. Quase não falamos e quando falamos a maior parte das vezes é para discutir, cada um faz a sua vida…eu já nem falo para evitar discussões…e agora anda com outra!”

Ele: “Sempre a falar do mesmo! Já lhe disse um milhão de vezes que não ando com ninguém!”

Ela: “Mentiroso! Só dizes mentiras! Andas, andas, porque eu sei que andas!”

Ele: “Sempre a inventar! Já não aguento mais! É sempre o mesmo”

Ela: “Nega, nega…Eu vi no teu telemóvel!”

Ele: “O quêêê? Tu andaste a ver o meu telemóvel?” Tu não sabes o que é privacidade. Invadiste a minha privacidade! Eu não te admito…”

Ela: “Tu andas a trair-me e eu sei! Eu li as mensagens…tu todo querido… e comigo estás “de burro” todo o tempo. Achas que sou estúpida ohhh quê?

Ele: “Muito esperta! Aquilo que viste não era nada…era só uma colega de trabalho que precisava de uma informação sobre um projeto de equipa… e se estou de “burro” a culpada és tu! Só criticas, criticas, criticas…nada do que faço está bem, estou farto!”

Ela: “E, por acaso, os colegas escrevem muitos beijinhos com saudades?”

Ele: “Onde leste tu isso, mulher? Mas, se fosse verdade a culpada eras tu. Ninguém aguenta! Já que está a falar disso, conta lá com quem andas a falar no FB? Conta! Ahhhh, pois, agora estás a rir!

Ela: “Com a minha irmã parvo! Querias que fosse com quem?”

Ele: “E que grande conversa com a tua irmã ontem na casa de banho! Sim, julgas que sou estúpido e que não te vejo levar o telemóvel para a casa de banho?”

Ela: “Se me desses mais atenção, talvez não levasse… e tinhas ouvido o que te disse ontem… a minha irmã vai separar-se porque, tal como eu, não aguenta mais!”

Ele: “E porque não aproveitamos a boleia?”

Ela: “Um destes dias vais ver, vais…”

Ele: “Tu és mesmo… achas que tenho medo de ti?

Ela: “Não quero medo, quero respeito, coisa que tu nunca soubeste o que é! Aliás, nem respeito, nem educação, nem afeto, nem nada…!”

Ele: “E tu só sabes controlar, controlar, controlar… e ver tudo a preto! Vê às cores mulher! Estou farto, farto, farto…sempre o mesmo!

Ela: “Às cores já eu ando há muito tempo, e um destes dias passo-me a sério, e vais ver um arco-íris!

Ele: “Vou ver o quê, diz lá? Tens a mania tens, mas eu também não tenho medo de ti. Faço as malas e vamos ver como te sustentas!”

Chegou o momento de intervir!

Eu: “Muito bem! Então, não têm medo um do outro, verdade? (pausa) Olharam para mim surpresos! Não responderam!

E de serem felizes têm? Porque me parece que de serem infelizes não têm, e até sabem muito bem como o ser!

Querem explicar-me porque sentem necessidade de se fazer tanto mal? Fá-los sentir bem? O que estão a sentir?

Muitas vezes o meu dia começa assim. Todos os casais e famílias são diferentes, mas é possível identificar demasiadas semelhanças e pontos em comum. Uma das semelhanças que mais se destaca talvez seja a de se terem deixado de ver enquanto seres humanos imperfeitos, com vulnerabilidades, fragilidades e dificuldades e passarem a ver-se como inimigos e beligerantes num campo de guerra onde cada um coleciona “armas”, “bombas” e uma vasta “artilharia pesada”.

E pergunto-me: como é que duas pessoas que há tanto ou pouco tempo atrás se apaixonaram e escolheram partilhar os seus pensamentos, o seu amor, a sua vida, fizeram amor e disseram que se amavam inúmeras vezes, escolhem agora fazer tanto mal a si e ao outro, quando não também aos seus filhos?

O que endurece tão vertiginosa ou lentamente o seu coração a ponto de não conseguirem olhar-se mais olhos os olhos, conversar, sentir o que o outro está a sentir, perceber o verdadeiro sentido da palavra Amor e do que é amar e sentir-se amado?

Quando entram no “registro automático” do “campo de guerra”, estas pessoas parece esquecerem tudo o que viveram e procuram incessantemente descobrir como se sentir mais poderosas, como arranjar armamento mais sofisticado e de longo alcance para magoar, para ferir, para fazer com que o outro “acorde”. No entanto, ao contrário do esperado, o outro e, também eles próprios, parecem estar cada vez mais adormecidos numa espécie de coma prolongado de onde dificilmente conseguem sair.

O que os faz assim permanecer? As experiências marcantes, a mágoa, os ressentimentos, os seus egos grandiosos e inflamados e mais, muito mais…precisam sabê-lo para sair do “teatro de guerra” e conseguir olhar do lado fora para ele.

Tantas horas, dias, meses, anos de dor e sofrimento se evitariam se simplesmente os casais gravassem e visualizassem as suas discussões do lado de fora, como se de um outro casal se tratasse e procurassem ajudá-lo a encontrarem estratégias para gerir as suas emoções e encontrar novamente o caminho dos dois, a dois.

Para conseguir perceber o que realmente está a acontecer nas suas vidas, os casais que discutem dia sim, dia sim, hora sim, hora sim, precisam em primeiro lugar decidir sair desse cenário de guerra. Precisam, os dois, hastear a bandeira branca e retirarem-se do sitio onde por vezes sobrevivem há longo tempo, encontrarem-se na frente da batalha, e aceitar o enorme desafio que é perceber porque insistem em fazer tanto mal ao outro e a si mesmos, identificando as emoções que estão a sentir, reconhecendo as emoções do outro, e compreendendo que não é em guerra, mas em paz, que se descobre porque precisamos estar em guerra, quando o que mais queremos é ter paz.

Que não é em guerra que se reencontra o Amor, a ternura, o respeito, a confiança, a valorização, a empatia, a bondade, a compaixão, o perdão, porque em cenário de guerra apenas afloram sentimentos e emoções negativos e, por isso mesmo, não existe qualquer possibilidade de descobrir os positivos e o que os faz sentir bem.

Críticas, ofensas, desvalorização, humilhação, generalizações, culpa, cobrança, necessidade de controlo, defesas exacerbadas, emoções ao rubro, podem tornar-se um registro viciante do qual é muito difícil sair. É, pois, muito importante que saibam qua a continuar, apenas os conduzirá a sentirem-se ainda mais angustiados, ansiosos, com mais raiva, revolta, tristeza, desespero, vivendo numa espécie de deserto emocional. Os dois! Porque aquele que ganha o “jogo”, também é perdedor.

Uma relação amorosa não é um campo de tortura. Quanto mais tempo aí permanecerem mais difícil será encontrarem a saída. Não é aí que vão encontrar o Amor perdido ou sentirem-se amados, é do lado de fora. Sim, é um risco. Dentro do campo de guerra não é também? E cá fora pode perceber o verdadeiro sentido de permanecer ou partir, enquanto que lá dentro só tem tempo para disparar e defender-se! Nada mais! A sua vida fica em cima de um trapézio e a sua saúde mental e física também!

Já imaginou como se sentiria se as discussões a toda a hora terminassem?

A maioria dos casais que acompanhei que decidiu observar e interpretar a dois aquilo que se pode assemelhar a um filme de terror, surpreenderam-se com o outro, e também consigo próprios, quando finalmente perceberam que o outro sentia emoções muito semelhantes e que por detrás delas existiam dores também elas semelhantes.

Medo, raiva, ira, tristeza, rejeição, angustia, frustração, ansiedade, desespero… É sobre estas emoções que é preciso falar, não no registo “Tu, tu, tu…” mas no registo “Eu sinto, eu sinto, eu sinto”, sem culpabilizações, generalizações, ofensas, desvalorizações.

É óbvio que a escuta ativa tem de estar presente, assim como o interesse e a empatia. Sim, existem pessoas que têm uma enorme dificuldade em sintonizar-se com o outro, em colocar-se no lugar do outro, em sentir o que o outro está a sentir. Existe muita gente assim? Sim, mas a maioria tem empatia. Outros nasceram em campos de guerra e sentem dificuldade em acreditar que existam campos de flores.

Expressar as suas emoções permite-lhe entrar em contacto com elas, descobrir a verdadeira razão da dor que sente, olhar para ela e perceber de onde ela vem, se existe realmente motivo para continuar a senti-la, perdoar e perdoar-se. Permitir-lhe-á ainda descobrir os motivos que o levam a estar nessa relação, e os que o levam a partir, abrindo-se a possibilidade de os identificar e quem sabe trabalhar.

Já viu a quantidade de coisas que pode fazer do lado de fora dessa guerra? E mesmo que decida que são mais as razões para partir do que para ficar, quando encontrar um novo Amor, poderá fazer-lhe um desenho do que é um campo de guerra e do que é um campo de Amor e ensinar-lhe a como permanecer no segundo, evitando o primeiro.

Uma discussão pode ser tudo o que quiser. O problema não é a discussão, é a forma como discutem e o que a discussão os faz sentir. Pode significar construção, estagnação ou destruição. Se for construção e conciliação de diferenças, sentir-se-ão bem, se for estagnação, sentir-se-ão menos bem e a andar em círculos, se for destruição, há que parar e perceber porque se estão os dois a destruir, ainda que silenciosamente.

Quer mesmo gastar o seu tempo de vida a destruir o outro e a permitir que o destruam?

Será que não existem experiências que gostaria de viver que o fariam sentir melhor consigo mesmo e em paz?

Quem o impede de ter paz? O outro ou você mesmo?

Escolha fazer o bem e fazer-se bem!

www.margaridavieitez.com

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .