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Deve sair do seu “círculo de competências”?

O Círculo de Competências foi um conceito popularizado por Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo. E explica-se da seguinte forma: pense em tudo o que sabe e conhece e desenhe uma linha imaginária à volta de todo este conhecimento

O Círculo de Competências foi um conceito popularizado por Warren Buffet, um dos homens mais ricos do mundo e, provavelmente, o melhor investidor de sempre em mercados financeiros. Este conceito explica-se da seguinte forma: pense em tudo o que sabe e conhece e desenhe uma linha imaginária à volta de todo este conhecimento. Dentro desse círculo está o conhecimento que você domina. Como refere Warren Buffett: não interessa o quão grande é o seu círculo de competência, é sim muito mais importante que seja capaz de determinar os limites do círculo, independentemente de ser alargado ou diminuto, porque fora do círculo é onde encontrará o verdadeiro risco.

Poderá então, conscientemente, reduzir o risco, não se aventurando fora do círculo, ou aprendendo mais, o que, na verdade, expandirá o seu círculo. Contudo, a verdade é que muitas pessoas ficam somente dentro do círculo por: i) mais facilmente dominarem os assuntos (pois têm mais informação que a maioria das pessoas); ii) maior foco; iii) cometem-se menos erros (contudo, também se têm menos ganhos exponenciais)

Se é verdade que esta teoria tem por base os interesses de Warren Buffet, ou seja, investimentos financeiros, também é verdade que podemos aplicá-la a muitas das decisões críticas na nossa vida, sobretudo a título profissional.

Como identificar o círculo de competências

Para a maioria das pessoas este tem por base a sua experiência profissional, bem como o conhecimento que adquiriu do sector ou industria em que está/esteve inserido. Outras pessoas complementam o círculo através do conhecimento que adquiriram por serem autodidactas, ou por terem concluído formações complementares, como mestrados ou MBAs. Finalmente, há todo um conhecimento desenvolvido com base nos hobbies que cada um desenvolve de forma consistente e consciente.

Existe ainda uma distinção que deve ser feita de forma muito consciente e até honesta para consigo mesmo e que se reflecte na representação gráfica entre o círculo interior e o círculo exterior. O primeiro incorpora o conhecimento real que possui, o segundo reflecte aquilo que pensa que sabe, mas não sabe (exemplo do nosso quotidiano são as pessoas que leram alguns artigos sobre Bitcoin/criptocurrency e já se consideram experts e aptas a investir). Assim, temos que em três passos tem de ser capaz de: i) identificar o que sabe; ii) identificar o que não sabe; iii) continuar somente focado no que sabe ou adquirir conhecimento para estar preparado.

Como alargar o círculo de competências

É fundamental ter capacidade de aprender constantemente e procurar o conhecimento que lhe falta para atingir os objectivos que definiu. Quanto mais conseguir aprender, maior será o seu "círculo de competências", melhor posicionado estará para aproveitar as oportunidades certas que surgem na vida.

Quando se tem sucesso, muitas vezes entra-se num modo mais altivo, e até de alguma arrogância intelectual, pois pensa-se que se pode dominar todas as matérias e é ai que se perde a capacidade de selecção e de escolha das oportunidades certas, ou seja, aquelas para as quais se tem o skill set necessário para continuar a ter sucesso. O exemplo típico é o do jogador que termina a sua carreira e torna-se treinador, sem qualquer preparação adicional. Mas, na realidade, só muito poucos têm capacidade para liderar uma equipa e possuem os conhecimentos técnicos necessários para serem treinadores.

Quando, por alguma razão, pretender caminhar para fora do círculo de competências deve procurar estudar os assuntos e temas que vai encontrar. Essa preparação pode e deve acontecer antecipadamente, contudo noutras vezes só é mesmo possível efectivá-la já durante a nova experiência que se vai vivendo e adquirindo.

Um exemplo para o acima descrito pode ser o da pessoa que quer efectivar uma mudança de carreira que o/a leve para um novo sector e/ou função. Ou seja, imagine um engenheiro civil ou mecânico que pretende ir para uma função financeira ou mesmo de banca de investimento. Tipicamente o passo intermédio que dá, para alargar as suas competências, é tirar um MBA ou em mestrado em finanças. Assim, já tem algumas ferramentas para poder concretizar esta mudança de carreira. Outro exemplo interessante passa pelos hobbies que muitas pessoas têm e que numa determinada fase da vida deixam de ser hobby e passam a ocupação a 100%. Aqui temos muitas vezes talentos artísticos “escondidos”, como o pintar, cantar, fotografar. Algo que muitos fazem por paixão e por isso passam muito do seu tempo livre a fazê-lo com todo o gosto, e sem perceberem estas passam a ser competências core que lhe permitem então efectuar a tão aspirada mudança de carreira.

Uma outra perspectiva, mais empresarial e não tanto individual, de alargar o círculo de competências está relacionada com a aquisição de conhecimento, ou seja, quando uma empresa pretende entrar num determinado sector ou segmento de mercado, opta, muitas vezes por adquirir uma outra empresa ou por vezes, tão somente, contratar experts nas matérias que estão a estudar e desenvolver.

Capacidade de selecção

Quando se está a analisar investimentos financeiros (ou agora, como está na moda, investimentos imobiliários em Portugal), pode existir a tentação de não deixar “passar nenhuma bola” (comparação de Warren Buffet entre investimentos e um jogador de Baseball que tem de decidir em que bolas acertar com o taco), de forma a que não vão para a concorrência. Mas esse é um dos enormes riscos de não se ter um critério de selecção objectivo e com base nas competências que se tem ou que em tempo útil se conseguem adquirir.

Podemos fazer uma analogia quando as pessoas procuram mudar de emprego ou quando já estão mesmo desempregadas e tentam, inconsequentemente e sem critério, responder a anúncios, sem procurar perceber se de facto têm as competências necessárias. Outras, com receio que não surja mais nenhuma oportunidade aceitam a primeira que aparece, quando na verdade deveriam estar a desenvolver as competências que necessitam para o que pretendem na realidade, em vez de simplesmente responderem a anúncios que não são adequados.

Tendo por base estes exemplos, a ideia a reter não é a de não arriscar e ficar somente na sua zona de conhecimento, a ideia que está subjacente é sair dessa zona, mas de forma esclarecida ou seja, analisando o tema e dedicando algum tempo ao mesmo, procurando em si as respostas que muitas vezes se procuram fora, i.e: tenho as competências necessárias? Se não tenho, consigo adquiri-las em tempo útil? Um outro ponto extremamente válido é o de não fazer somente porque outros o fazem. São exactamente estes comportamentos de “arrasto” ou “moda” que provocam más decisões de carreira e não só.

* (O autor escreveu este texto com base na ortografia antiga)

Ricardo Gonçalves

Ricardo Gonçalves

EMPREGO

Ricardo Gonçalves é hoje Co-founder da Collectiv, onde ajuda empresas a crescer. Esta mudança recente veio ao encontro do seu espírito empreendedor, e permite-lhe levar para outro nível o conhecimento de pessoas e organizações que acumulou ao longo de quinze anos na área de Executive Search. Esteve na Amrop entre 2001 e 2016, onde cresceu pessoalmente e profissionalmente. Para tal muito contribuíram os vários projectos pelos quais foi responsável, sempre ao nível de recrutamento de top e middle management. Participou ainda num programa de desenvolvimento interno que o levou para Amrop Dinamarca. Experiência esta que foi complementada com o término do MBA (iniciado na Universidade Católica) na Copenhagen Business School.