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Uma praga chamada violência psicológica

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A violência psicológica pode ser tão sub-reptícia como uma cobra e fazer adoecer tão gravemente quanto o seu veneno. Saiba quais são os seus sinais!

Chocante, dilacerante, marcante… tão ou mais que a violência física!

A violência psicológica parece estar cada vez mais presente nas relações, quaisquer que elas sejam. No namoro, nas relações conjugais, familiares, de amizade e de trabalho. Deparamo-nos com ela quando menos esperamos, ou somos nós próprios os seus agentes, sem sequer nos apercebemos do que está na realidade a acontecer.

Estaremos a ficar cada vez mais imperfeitos, mais desumanos, mais insensíveis, mais permissivos a esta espécie de “praga” que inunda o nosso presente e as nossas relações, não de algumas, mas de muitos milhões de pessoas, muitas delas sem sequer compreenderem o que realmente está a acontecer, com o outro, consigo, com a sua alegria, com a sua vida?

Direta ou indireta, clara ou subtil, leve ou grave, incisiva ou superficial, brutal ou menos expressiva, recorrente ou esporádica… provoca confusão, dor, sofrimento e pode deixar marcas para toda uma vida.

Estamos naquela que eu designo como a “Era do falso Poder”, isto é, em que muitas pessoas precisam exercer poder como precisam de respirar e de comer! Necessitam, sobretudo, de demonstrar aos outros que o têm, porque lhes falta autoestima, autoconfiança, segurança, capacidades, mérito, talentos, empatia, educação, afeto na relação primária, passaram por experiências mais ou menos marcantes, desconhecem o significado da palavra Amor e respeito pelo outro, tem os mais variados transtornos de personalidade, ou simplesmente porque se sentem mesmo medíocres e só conseguem sentir-se suficientes quando recorrem a uma série de estratégias, entre as quais a violência psicológica, a qual pode revestir as mais variadas formas, envolver premeditação e, sobretudo, muita perversão.

Mas que formas são essas?

Seria impossível contemplar todas elas neste artigo, mas ao longo dos anos ouvindo muitos casais e pessoas, conhecidas e desconhecidas, fui-me apercebendo que a violência psicológica é um Mundo, as formas que reveste são incalculáveis, mas que cada um de nós pode/deve fazer um trabalho de identificação da mesma nas mais variadas experiências por que passam no dia a dia. Mas não só! Podemos também “olhar para dentro” e tentar identificar até que ponto nós próprios somos violentos emocional e psicologicamente com os outros e com nós próprios. Este será um outro artigo que escreverei um destes dias.

Aqui ficam algumas perguntas para que você mesmo possa responder, da forma mais espontânea e sincera possível, e descobrir se está a ser vitima de violência psicológica.

A resposta poderá significar “a ponte” para sair do “denso nevoeiro” e começar a ver com alguma nitidez a estrada por onde tem andado e saber se as pessoas que escolheu para ter na sua vida são, não as certas, mas aquelas que o conseguem Ver, Respeitar, Aceitar e Amar.

Claro que não pode escolher nem a família, nem os chefes! Quando chegou eles já lá estavam, mas sempre pode aprender a identificar quem está muito zangado consigo próprio e com a vida, quem vive em permanente conflito, e especialmente quem quer abusar da sua generosidade, bondade, lealdade, paciência… usá-lo para proveito próprio, descarregar as suas frustrações, mágoas e ressentimentos e fazer de si uma espécie de depósito do seu egoísmo e egocentrismo que podem revelar grave doença mental.

Assim, coloque-se as seguintes perguntas, e responda da forma mais espontânea e natural que conseguir:

  1. Alguém lhe induz constantemente um sentimento de culpa e o responsabiliza por tudo o que acontece de menos bom?
  2. Alguém o desvaloriza e critica repetidamente?
  3. Alguém controla constantemente tudo o que faz?
  4. Sente que alguém o tenta isolar de amigos e familiares?
  5. Alguém tenta bloquear o seu desenvolvimento pessoal?
  6. É ameaçado ainda que ironicamente ou sofre represálias?
  7. Alguém tenta aceder ao seu computador, telemóvel e contas pessoais?
  8. Sente que alguém quer controlar o tempo em que podia decidir fazer o que lhe apetece, deixando de o fazer por receio da reação do outro?
  9. Alguém lhe exige que responda a SMS, telefonemas ou que faça algo mesmo sabendo que não estava disponível?
  10. É contactado constantemente por alguém para saber o que está a fazer e com quem está?
  11. Pressionam-no para saber o seu passado e/ou que bens tem?
  12. Criticam-no e culpam pelas suas experiências de vida e relações que teve?
  13. Desvalorizam o seu mérito, competências e sucesso?
  14. Sente que existe total indiferença quanto ao seu esforço, compreensão, tolerância, dedicação, ajuda, apoio, dádiva, lealdade… e que existe uma espécie de “perseguição” para encontrar pequenos defeitos, “crucificando-o” mesmo que estes sejam insignificantes?
  15. Sente que alguém abusa constantemente da sua boa-fé e confiança para atingir objetivos próprios?
  16. Alguém próximo de si parece ser completamente indiferente à sua dor e problemas?
  17. Alguém das suas relações mais próximas usa o silêncio como arma de arremesso e a ausência como forma de punição?
  18. Alguém lhe diz que ficará sozinho no mundo?
  19. Alguém afirma que nunca vai encontrar outra pessoa que goste de si?
  20. Alguém usa o afeto/sexo como recompensa da satisfação dos seus interesses sejam eles quais forem?
  21. É vitima de Assédio sexual, com conversas que não quer ter e pressão para ter sexo?
  22. Escuta afirmações no sentido que você não vale nada e não seria ninguém sem essa pessoa?
  23. Sente medo de dizer o que pensa e sente por causa das consequências?
  24. Sente-se manipulado e vítima de chantagem emocional?
  25. Coloca sempre em último lugar tudo o que deseja fazer?
  26. Alguém próximo manifesta constante desinteresse por si, pelas suas dificuldades e por aquilo que acontece consigo?
  27. Organiza a sua vida em função daquilo que o outro pensa com medo das consequências?
  28. Se alguém na rua olha para si, diz-lhe que era você que estava a provocar e que a culpa é sua?
  29. A mesma tarefa feita por outra pessoa é valorizada e a sua não?
  30. Alguém fala consigo com desprezo, com gritos, com linguagem ofensiva?
  31. Alguém se comporta consigo como um ditador e castigador?
  32. Alguém faz questão de o tratar como uma criança, comportando-se como se fosse sua mãe ou pai?
  33. Alguém lhe induz cada vez mais dependência, fazendo-o depender cada vez mais dele/dela?
  34. Alguém coloca repetidamente as suas capacidades em causa?
  35. Alguém faz ironia constante acerca do seu não saber e dificuldades?
  36. Alguém faz questão de apontar as suas fragilidades e quando confrontado dá o dito pelo não dito ou diz que estava a brincar?
  37. Alguém faz questão de saber tudo acerca de si e depois quando lhe dá jeito usa essa mesma informação?
  38. Alguém o responsabiliza pelo sua insatisfação e infelicidade?
  39. Na presença dessa pessoa sente o chão fugir-lhe, a sua capacidade de raciocínio e defesa desaparecem e a ansiedade é mais que muita?
  40. Sente que essa pessoa tem grande influência na sua autoestima, autoconfiança, segurança, capacidade de decisão, organização da sua vida, no seu sono, energia, trabalho, ânimo, alegria e vida em geral, bastando proferir algumas palavras para “chover” no seu dia?

Apenas tomando plena consciência do que está realmente a acontecer, será possível tomar a decisão de sair do ciclo da violência psicológica que muitas vezes conduz, inevitavelmente, à violência física e violência doméstica.

Na maioria dos casos, a violência psicológica faz com que as pessoas se sintam presas numa verdadeira “teia de aranha” de onde não conseguem sair, se sintam muito confusas, especialmente quando já deixaram de confiar no seu próprio juízo de valor e passaram a dar credibilidade total ao agressor, correndo o enorme risco de se tornarem igualmente tão ou mais violentas que os próprios agressores com as pessoas que as rodeiam.

Muitas situações existem em que essas mesmas pessoas que em casa são vítimas de agressão psicológica, no trabalho são eles os agressores dos seus colaboradores, tornando o ambiente de trabalho completamente caótico. Apenas uma tentativa desesperada de tornarem suportável a dor que teima em dilacerá-los por dentro.

Se desconfia estar a experienciar uma situação de abuso e/ou violência psicológica, não se isole. Converse com uma pessoa da sua confiança ou peça ajuda especializada. Não negue, não silencie a sua dor. Isso apenas fará com que se agrave ainda mais. Precisa agir rapidamente, compreender o que está a acontecer e descobrir como gerir essa situação, protegendo-se de consequências mais graves.

Se conhece alguém que está a passar por uma situação de violência psicológica, escute-a, converse com ela e se perceber que está a ser muito difícil para ela sair desse “labirinto”, aconselhe-a a pedir ajuda.

Errado é o comportamento do agressor psicológico.

Errada é a ideia de permissividade à violência psicológica veiculada pelos filmes e telenovelas em que berrar, chamar nomes, mandar para os mais variados sítios, dar bofetadas, empurrões, fazer umas nódoas negras ao outro, ridicularizar, rebaixar, denegrir a imagem do outro, entre muitas outras atitudes e comportamentos… é apenas expressão de um grande Amor a ser vivido como prémio, como presente… no fim…se ainda estiverem vivos!

Quero continuar a acreditar que não estamos a tornar-nos mais imperfeitos, mais insensíveis, desumanos ou selvagens.

Quero continuar a acreditar que é possível com informação e apoio institucional, diminuir o dramático numero de mortes por violência doméstica. Porque esta é uma responsabilidade do Estado que não pode continuar a fazer de conta que nada se passa pois tem a obrigação de proteger os mais fragilizados, concedendo-lhes o apoio merecido.

A violência psicológica é o começo da subida de uma “escada” que não se sabe quantos degraus tem, mas que se sabe que quanto mais se sobe menos se sente e se é… até ao dia em que se começa a deixar de ver os degraus, e em que cair é um risco cada vez maior!

Não faça de conta, não negue, não tenha vergonha…existem milhões de pessoas no mundo, de todas as idades, formações, capacidade financeira… que já passaram pelo mesmo e conseguiram libertar-se!

Qualquer forma de violência psicológica é um comportamento errado e inaceitável. Sempre o foi, sempre o será. Quem o agride é que está errado, não você.

Não está sozinho! Somos muitos os que sabemos como se sente e o quão difícil é falar sobre…

Mas guardar para si, nada resolve, apenas agrava!

O Mundo está cheio de pessoas com doença mental, umas mais graves outras menos. Você não tem a obrigação de as curar, nem deve tentar fazê-lo, sob pena de ficar tão ou mais doente que elas. Deve sim, proteger-se do seu “veneno” e compreender o que está acontecer consigo e com a sua vida!

Sim, a violência psicológica é uma “Praga”, mas é possível libertar-se dela!

Margarida Vieitez

Margarida Vieitez

RELAÇÕES

Margarida Vieitez é especialista em mediação familiar, de conflitos e aconselhamento conjugal, e dedica-se há mais de 20 anos ao estudo e acompanhamento de conflitos de diversa ordem, nomeadamente, familiares, conjugais e divórcio. Detentora de seis pós graduações, entre as quais, em Mediação Familiar pela Universidade de Sevilha, em Mediação de Conflitos e, em Saúde Mental, ministrou vários cursos de Mediação Familiar no Instituto de Psicologia Aplicada, estando frequentemente presente em conferências e seminários. Autora de vários livros, dentro os quais, "O melhor da vida começa aos 40", "Sos Manipuladores" e "Pessoas que nos fazem Felizes" .