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Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Ensina um robô e ganha dinheiro com ele

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Carla Isidoro

A revolução digital já terminou. A era pós-digital, na qual já vivemos há alguns anos, representa a entrada num novo ciclo que é holístico e mais humano, embora possa parecer o oposto

Fui convidada por uma empresa brasileira que trabalha em inteligência artificial para visitá-la numa apresentação que vinha fazer em Lisboa. Entusiasmei-me quando percebi que trabalhavam em robótica e inteligência artificial, mas fiquei dececionada ao ler o seu posicionamento. As mensagens no site deixaram-me surpreendida e até confusa, e depois de alguns momentos de perplexidade dei por mim a responder-lhes mentalmente “não é por aí, o caminho não pode ser esse.”

Estamos a viver uma clara fase de transição para um novo paradigma humano, económico e social. A revolução digital veio transformar a forma como trabalhamos, comunicamos, interagimos e nos deslocamos, e pelo facto de ser uma revolução ela imprimiu alterações estruturais nas sociedades e consequentemente nos comportamentos das pessoas. Quando surge a internet, as relações começam lentamente a funcionar em modo inter-relacional alargado e cruzado entre hemisférios e à distância de um clique, e é quando começa também a fragmentação das relações humanas e sociais, e surge então o ego-individualismo. A robótica e inteligência artificial ganham espaço de atuação e a substituição de pessoas por máquinas incansáveis começa a ser uma realidade próxima dos cidadãos. O ser humano ganha medo aos robôs e antevê um futuro de desemprego massivo catapultado por máquinas inteligentes que substituem pessoas nas suas profissões. O robô virou um inimigo real. Alguns dos argumentos em defesa da entrada de robôs na indústria são de que eles, ao contrário das pessoas, não se cansam, não precisam ir ao wc, não exigem aumentos salariais, nem entram em stress. Este tipo de argumentação já nasceu obsoleta, mas a verdade é que continua a ser aplicada ainda hoje. Aquela empresa brasileira que veio a Lisboa mostrar os seus feitos em robótica posiciona-se no mercado dentro deste quadro de argumentação. Creio que quando alguém enaltece o poder do robô em detrimento de especificidades e necessidades elementares humanas como seja reclamar direitos laborais, ter picos de menor produtividade ou fazer necessidades fisiológicas durante o tempo de trabalho, esse alguém entrou num mundo abissal de anulação pessoal e desrespeito, e provavelmente não deu por isso tal é a cegueira em que vive.

A revolução digital já terminou. A era pós-digital, na qual já vivemos há alguns anos, representa a entrada num novo ciclo que é holístico e mais humano, embora possa parecer o oposto. Mas não é. Felizmente não é. O pós digital preocupa-se mais com o humano e menos com o digital, e é por isso mesmo que se chama pós digital. O ser humano já entendeu e aplicou o digital, deixou-se fascinar por ele, mas como se diz no Brasil “já voltou a cair na real”. Se repararmos bem à nossa volta, nos acontecimentos que povoam os noticiários e sites noticiosos, são as situações de injustiça aquelas que mais nos chamam a atenção. É o desrespeito e a insensibilidade para com a fragilidade humana que mais nos choca. E, olhando para tudo isto em perspetiva e com distanciamento, deverá haver uma lição geral que lá está pronta a ser absorvida, subtil mas evidente, que na minha opinião é: somos melhores que isto e temos que continuar a fazer melhor. Na era pós digital é o humano que faz a diferença. São as qualidades humanas que importam na sua relação direta e de interdependência com os outros, respeito pelo meio ambiente, pelo recursos naturais, pelo uso da tecnologia, e é exigida uma tomada de consciência sobre o poder de cada indivíduo enquanto agente transformador para um mundo melhor. Exige-se agenciamento de cada ser humano.

Adotem simbolicamente um robô e olhem para ele como um animal amestrado que foi ensinado, em toda a harmonia entre pessoa e máquina, por vós. A título de exemplo, deixo-vos este vídeo de um trabalho fascinante que Nigel Stanford acabou de partilhar com o mundo e que demorou três anos a completar. O pós-digital é isto. A máquina, na sua inteligência amestrada, serve a grandeza humana.

Resta-me rematar dizendo que a empresa brasileira de IA que me convidou não teve o prazer de me conhecer pessoalmente. O meu caminho é outro.

Carla Isidoro

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TENDÊNCIAS DE CONSUMO

Comecei a trabalhar em 1995 na revista do jornal A Bola enquanto tirava a licenciatura. Tive um ótimo editor que me pôs a entrevistar figuras de destaque da cultura portuguesa e a escrever sobre assuntos diversos, e esta experiência foi de extrema importância porque me deu confiança para escrever sobre (quase) qualquer coisa. Colaborei para diferentes media sobre viagens, música, cultura contemporânea, culturas africanas, comportamento, tendências de consumo, etc. Hoje sou gestora de comunicação independente para negócios, marcas e projetos artísticos. Defendo a importância de uma boa história na comunicação de qualquer marca e de conteúdos alinhados com os valores da cultura onde ela se insere. O antropólogo Igor Kopytoff diz que os objetos têm histórias de vida apesar de serem coisas. E eu concordo com ele. Se as histórias alimentaram o nosso imaginário em criança, na vida adulta elas continuam a inspirar-nos, a tocar-nos e a dinamizar o mercado. Quem não gosta delas? Sou licenciada em Ciências da Comunicação e pós graduada em Antropologia na vertente Cultura Material e Consumo.