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O prazer sexual na segunda metade da vida

O envelhecimento é uma jornada ao longo do tempo. A sexualidade faz parte dessa jornada, e lá mais para o fim traz uns desafios mais sérios

Há uns tempos recebi no meu consultório uma mulher de 72 anos que veio pedir-me ajuda para perceber um aspecto da sua vida sexual que atravessava naquele momento. Vamos chamar-lhe Maria. A Maria disse-me de entrada que estava casada há 52 anos e “separada de cama” há 16. Vivia com o marido, mas tinha um namorado com quem estava feliz, apaixonada e com uma vida amorosa e sexual intensa. Disse-me que tinha tudo com ele, dançavam ao fim de semana, onde se conheceram, conversavam muito e tinham relações sexuais com regularidade mas, faltava “uma pequena coisa”, que ela não percebia porque é que faltava. A questão que a assolava e que a trouxe até mim, foi formulada por ela da seguinte forma: “Agora que tenho tudo, estou apaixonada, sou correspondida, estou feliz e tenho um parceiro atencioso que me adora, porque é que eu não consigo ter um orgasmo?”. Perguntei-lhe se apesar de não ter orgasmos tinha prazer sexual. Disse-me que sim, como nunca tinha tido até então, e que esta relação era muito importante para ela porque lhe dava felicidade e realização amorosa e sexual. Contou-me a história da sua vida conjugal, uma história triste, de desamor e alguma violência, onde ela se sentiu negligenciada a todos os níveis e onde o sexo era para ela uma “uma obrigação”. Até que se cansou e mudou de quarto. A sua socialização sexual na década de 50, uma relação de longa duração insatisfatória, e um parceiro conjugal negligente, foram obviamente inibidores do seu prazer sexual. Nunca teve um orgasmo na sua vida.

Conto esta história porque ilustra bem questões relevantes sobre a sexualidade no envelhecimento. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o sexo não acaba com a menopausa nem com a idade, seja ela qual for, nem para os homens nem para as mulheres. Esta história mostra que o prazer sexual é possível lá para o fim da vida, e pode mesmo ser mais intenso do que alguma vez já foi, assim a pessoa queira e se permita. Depende da saúde física e mental e dos fármacos que se tomam, sim, é certo, mas há outras coisas fundamentais. Depende do bem-estar geral, da qualidade de vida e, sobretudo, depende do envolvimento com a vida e da qualidade do parceiro. E este é o segundo aspecto que a história ilustra. Ter um bom parceiro é determinante e pode fazer toda a diferença. Falo de parceiro e parceira, tanto para o homem como para a mulher, e seja um casal heterossexual ou homossexual. E o que é um bom parceiro podemos nós perguntar? É aquilo que for bom para cada um, e para além disso, é um parceiro envolvido, interessado, activo e cuidador do erotismo do casal. Tenho observado na prática clínica algumas mulheres rendidas e a abdicar da sua sexualidade porque a menopausa lhes roubou os estrogénios, o desejo e o interesse sexual. Como se tudo tivesse acabado “por culpa das hormonas” e “da idade”. Mas eis senão quando, a vida dá uma reviravolta, traz um novo parceiro (novo de novidade e não de jovem), e Voilá o desejo sexual a disparar por aí acima. E tudo se transforma numa coisa afinal muito boa. E assim este “factor parceiro” sobrepõe-se ao “factor hormonas”.

A história da Maria mostra ainda outra coisa extraordinária, que é a capacidade de nos recriarmos na última parte da vida. A Maria teve a coragem de se deixar apaixonar, de se entregar ao amor e de querer e reclamar o prazer sexual a que tem direito, com orgasmo incluído. É como diz Gabriel García Marquez no Amor nos Tempos da Cólera, o amor pode ser tanto mais intenso quanto mais próximo da morte.

O envelhecimento é uma jornada ao longo do tempo. A sexualidade faz parte dessa jornada, e lá mais para o fim traz uns desafios mais sérios. O maior de todos, talvez seja o investimento erótico na relação. Este acto de cuidar do erotismo do casal depende em grande medida de como foi esse erotismo ao longo da vida. É um acto de vontade, um investimento de inteligência e do querer. Implica conhecer o outro, ir ao encontro do que ele ou ela gosta. Envolve uma série de elementos e componentes como a surpresa, a novidade, a imaginação, a fantasia, a expressão, o jogo, só para citar alguns exemplos. Abrir o baú erótico e desencantar o que lá houver. Partilhar com o outro, criar e recriar o que pode funcionar como estímulo erótico. Até porque os estímulos que funcionavam há 20 ou 40 anos, já não servem agora.

Outros desafios sérios da sexualidade no envelhecimento passam pelo reconhecimento da inevitabilidade da mudança, sobretudo a mudança do corpo. O potencial atractivo e sedutor desse corpo já não é o mesmo, mas isso não significa que deva ser negligenciado. Cuidar desse corpo onde habitamos e onde vivemos o sexo é uma tarefa importante, tanto para mulheres como para homens. Algumas funções podem estar mais comprometidas e por isso, pode ser preciso dar menos relevância ao coito vaginal. A actividade sexual não se esgota no coito. Outras formas de vivência da sexualidade são possíveis, assim as pessoas permitam e queiram.

O sexo que se reduz exclusivamente à penetração vaginal é um sexo pobrezinho.

A jeito de conclusão, os factores essenciais para manter a resposta sexual na idade avançada são uma boa saúde física e mental, um investimento erótico na relação e regularidade na expressão sexual, ou seja, use it or lose it. E ter tido uma vida sexual activa ajuda muito.

O Professor Félix López, meu mentor de doutoramento, dizia que a sexualidade no envelhecimento é uma sexualidade livre. Livre das preocupações e esforço da actividade profissional, livre do stress do trabalho, livre do cuidar dos filhos, livre da reprodução e livre do coito privilegiado. Liberdades que permitem a diversidade de vivências eróticas. A menos valia relativamente às performances sexuais, obriga à reinvenção do erotismo, que é a energética do desejo, à descoberta de novas formas de prazer. É a intimidade erótica aliada à maturidade e às vantagens da experiência.

Mas nada disto é obrigatório, não queremos nem devemos impor a ninguém uma sexualidade activa. Cada um tem a sua história e é livre de viver ou não a sua sexualidade e como bem entender. Mas eu cá defendo a ideia do envelhecimento como um período de desenvolvimento como outro qualquer da jornada da vida, em que nos podemos recriar e onde a sexualidade pode ser uma fonte de prazer.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.