Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Pulgas: 9 Dicas para prevenir a infestação no cão e gato

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

O controle das pulgas continua a ser uma das mais árduas tarefas, para quem é tutor de um animal de estimação

Um parasita é um organismo que vive e se alimenta noutro, do qual retira tudo aquilo que precisa para sobreviver, normalmente prejudicando-o, num processo que se chama parasitismo. Ao individuo parasitado chamamos hospedeiro. Aquele que mais frequentemente parasita a pele do cão e do gato é a pulga. Os adultos vivem permanentemente no hospedeiro e as fêmeas produzem cerca de 50 ovos por dia. Estes caiem do animal e transformam-se em larvas em 16 dias. Passam, em seguida, ao estado de pupa, que vive dentro de um casulo, até ao estado adulto, onde esperam sinais da presença de um gato ou cão, tais como calor, vibração ou dióxido de carbono. Na presença destes sinais, emergirá da sua clausura e atacará o hospedeiro, em segundos. Pode aguardar dentro do casulo por mais de dois anos, até que surjam a oportunidade e as condições ideais. Em condições favoráveis, todo o ciclo de vida ficará, muito rapidamente, completo. Casas quentes, com carpetes confortáveis, fornecem condições ideais de temperatura e humidade para que as pulgas completem o seu ciclo, ao longo de todo o ano. A espécie mais comum é a Ctenocephalides felis, mais vulgarmente conhecida por pulga do gato. A pulga do cão, Ctenocephalides canis, é a segunda espécie mais frequente. Ambas parasitam indiscriminadamente as duas espécies, podendo também picar o homem, mas com pouca frequência, uma vez que não conseguem completar o seu ciclo de vida alimentando-se só de sangue humano.

1 - Quais são os sinais de infeção por pulgas?

Um animal infetado pode ser assintomático. Se não for alérgico às picadas, a presença destes parasitas pode passar despercebida até ao momento em que a infestação se torna considerável. São muito rápidos, esquivando-se com facilidade, tornando difícil a sua observação. Para testar a presença de tais seres indesejáveis, coloque o animal numa zona clara ou sobre uma folha de papel branco. Utilize um pente metálico (do género dos utilizados para encontrar piolhos nas cabeças das crianças) e escove no sentido do crescimento do pelo, em direção à superfície clara. Podem aparecer pulgas aprisionadas nos dentes do pente, ou pequenos ponteados escuros, que correspondem a sangue coagulado. Se estes pontinhos forem colocados em contacto com a água, espalham-se em manchas vermelhas de sangue. Uma observação cuidadosa da pele, assim como dos locais onde dorme ou passa mais tempo, podem revelar os mesmos pontilhados. A zona por cima da cauda é, habitualmente, a mais atingida, e se passar os dedos nesse local poderá sentir algo semelhante a “areia”. O animal poderá reagir, olhando o flanco e iniciando uma tentativa de mordiscar ou coçar a zona.

2 - Como é que os animais apanham pulgas?

É fácil apanhar pulgas no exterior ou através de outros animais de estimação. O próprio tutor pode transportar ovos, na sola dos sapatos. A partir do momento em que entram dentro de casa, passa a ser difícil livrar-se delas, uma vez que a temperatura e humidade do interior das habitações é muito favorável. Depois de beberem sangue, põem ovos, que caem no chão e iniciam o desenvolvimento, em tapetes, carpetes ou sofás. A partir daqui ocorre a infestação da casa e completa-se o ciclo. Se encontrar pulgas no seu animal, muito provavelmente também existirão no ambiente. O animal reinfectar-se-á, a partir deste mesmo ambiente doméstico em que habita.

3 - As pulgas causam alergias?

Muitos gatos e cães são alérgicos, não ao parasita em si, mas à sua saliva, que é injetada aquando da picada, com o objetivo de permitir a alimentação com sangue, uma vez que tem propriedades anticoagulantes. O grau de sensibilidade a esta mesma saliva pode variar de animal para animal, por fatores externos, como por exemplo grau de infestação, ou internos, relacionados com características individuais de cada um dos indivíduos afetados. Os principais sinais de alergia são: prurido intenso e frequente; pele inflamada, com zonas avermelhadas, descamação, crostas e escamas; perda de pelo, devido ao traumatismo causado pelo excesso de “grooming”, numa tentativa de acalmar a comichão; lesões localizadas sobretudo por cima da cauda, no caso dos cães e pescoço e cabeça, no caso dos gatos. O tratamento passa pela erradicação das pulgas e dos seus ovos, no animal e no ambiente , mas precisa de ajuda veterinária para travar a reação orgânica. Uma única pulga pode desencadear todo o processo, em animais alérgicos.

4 - Como erradicar as pulgas?

Para um controlo efetivo, as pulgas adultas têm que ser mortas no hospedeiro, mas a reinfeção a partir do ambiente deve ser prevenida. CUIDADO com os produtos antiparasitários que adquire. Aqueles que são adequados para cães, podem intoxicar gravemente gatos, deixando sequelas permanentes ou mesmo causando a morte. Quando adquirir um destes produtos, leia cuidadosamente as instruções e certifique-se de que é seguro para o animal em questão. Não se distraia, nem arrisque, sob pena de causar danos irremediáveis ao seu companheiro de quatro patas. O mais seguro será aconselhar-se com o médico veterinário ou mesmo o enfermeiro veterinário, sobre qual o produto mais eficaz e adequado ao seu animal, assim como a forma mais segura de desinfestar o ambiente. Deve sempre informar o profissional de saúde, sobre qualquer produto que tenha previamente utilizado, antes que este inicie um procedimento médico. Devido a completarem rapidamente o seu ciclo de vida, as pulgas tornam-se frequentemente resistentes a produtos eficazes, deixando estes de o ser, em relativamente pouco tempo. A utilização em doses erradas e tratamentos sem continuidade ou mal aplicados, são também responsáveis por estas resistências. As novidades mais eficazes estão, normalmente, disponíveis nas clínicas veterinárias, local onde conseguirá o melhor aconselhamento possível.

5 - Como matar pulgas adultas?

É enorme a quantidade de produtos antiparasitários disponíveis no mercado. A maior parte deles destinam-se a matar pulgas adultas. Em menor número, os que as esterilizam ou que matam também os seus ovos. Existem sob a forma de champôs, coleiras, sprays, comprimidos, pós, injeções e soluções “spot-on” que são aplicadas diretamente na pele, abrindo o pelo para a expor. Havendo tanta escolha, é normal que se sinta confuso e indeciso. Encontrar o produto certo para o seu animal, pode não ser tarefa fácil. Os champôs e os pós, são, normalmente, de curta duração, não deixando efeito residual, ou seja, atuam no momento mas não a longo prazo. Algumas coleiras podem provocar alergias de contacto, de maior ou menor gravidade, em animais sensíveis. Os comprimidos nem sempre são fáceis de administrar. As injeções exigem a aplicação profissional. Os sprays podem ser muito irritantes, devido ao seu cheiro intenso. Os “spot-on” podem ser ingeridos acidentalmente. Com tantos opções e cuidados, será mesmo melhor aconselhar-se antes de decidir.

6 - Como remover as pulgas do ambiente?

Existem vários produtos para aplicar no ambiente. Uns podem ser utilizados, sem prejuízo para animais ou humanos, outros precisam de vazio durante algum tempo. A aspiração, só por si, não é suficiente para as erradicar. Muitas vezes é o próprio saco de aspiração que alberga um grande número de indivíduos, em várias fases de desenvolvimento. O melhor será adquirir um inseticida em pó e colocar todo o conteúdo da embalagem dentro do saco, se o seu aspirador for deste género, antes da sua utilização. As mantas e as caminhas onde dormem devem ser lavadas a altas temperaturas e se a infestação for muito grande, o melhor será deitar fora e comprar novas. Nunca utilize os produtos do ambiente, no próprio animal. Se estiver com problemas graves de infestação por pulgas, o melhor será chamar uma empresa especializada. Antes de tomar decisões, aconselhe-se com um profissional de saúde sobre qual o melhor produto para o seu caso especifico.

7 - Como prevenir uma nova infestação?

A reinfestação pode ser evitada usando produtos que matem pulgas adultas no animal, ou que interrompam o seu ciclo de vida. O tratamento deve ser feito a intervalos regulares, dentro do prazo de eficácia do produto. Todos os animais da casa devem ser tratados em simultâneo, não esquecendo cães, gatos e coelhos, mas com produtos apropriados para cada uma das espécies.

8 - Porque devemos controlar as pulgas?

Apesar de muitos animais viverem com pulgas, sem evidenciarem sinais de desconforto, estas não são completamente inofensivas. Podem ser responsáveis por doenças, de maior ou menor gravidade, que seriam evitáveis se se efetuasse um controle eficaz, para além do desconforto, mesmo que discreto, originado pela picada em si e pela movimentação do parasita na superfície da pele, repleta de terminações nervosas de grande sensibilidade. Para além de o próprio ser humano poder ser afetado (apesar de não ser uma situação muito frequente, uma vez que a nossa temperatura corporal é cerca de 2 graus centígrados mais baixa que a dos nossos animais de companhia). É muito mais difícil tratar uma infestação por pulgas, que pode demorar semanas ou meses a estar controlada, do que prevenir o seu aparecimento.

9 - Quais são as doenças transmitidas pelas pulgas?

A alergia cutânea é a afeção mais frequente, causada pela presença de pulgas adultas. As lesões resultantes da picada em si e do traumatismo autoinfligido, devido ao prurido intenso, fragilizam a pele ao ponto de a tornar porta de entrada para algumas infeções oportunistas. No entanto, outras doenças encontram nestes parasitas a causa mais provável. Alimentam-se de sangue e como tal podem causar anemia a animais jovens e debilitados, quando o parasitismo é intenso. Para além de que alguns agentes infeciosos podem ser inoculados, aquando da injeção da saliva anticoagulante. Um dos mais comuns é a Haemobartonella felis (atualmente com denominação cientifica de mycoplasma), responsável pela hemobartolenose, nos gatos. É uma bactéria que infeta os glóbulos vermelhos, destruindo-os. Pode ser transmitida pela saliva da pulga e causa anemia, febre, perda de apetite, apatia, icterícia, entre outros sintomas. É, sobretudo, grave em animais imunodeprimidos, como acontece com os que são portadores do vírus da imunodeficiência ou leucemia felinas. Sem tratamento, cerca de um terço dos gatos infetado acaba por morrer. Também alguns parasitas intestinais, como o Dipylidium caninum, podem ser transmitidos pelas pulgas, sendo esta o hospedeiro intermediário, afetando cães e gatos. Ocorre quando os animais as ingerem acidentalmente, por se mordiscarem ou lamberem, numa tentativa de acalmar a comichão. É uma ténia, que se fragmenta em pequenos segmentos, semelhantes a bagos de arroz. Muitas vezes, estes segmentos, já secos, são encontrados nos locais de descanso e confundidos com sementes. Contêm os ovos da ténia. O Homem também se pode infetar através do contacto com as fezes de animais portadores. Os sintomas desta doença são a diarreia, perda de peso e prurido anal. É sempre aconselhável fazer a desparasitação interna e externa, em simultâneo, uma vez que, se não eliminarmos as pulgas, não conseguiremos evitar e reinfeção.

O controle das pulgas continua a ser uma das mais árduas tarefas, para quem é tutor de um animal de estimação. As industrias farmacêuticas investem muito dinheiro na investigação de estratégias e produtos que as consigam eliminar eficazmente. Mas estas, rapidamente, fintam qualquer estratega, levando a melhor ao produto mais inovador. A velocidade com que se reproduzem e o facto de o seu ciclo de vida se completar em pouco tempo, faz com que apareçam gerações resistentes aos inseticidas mais eficazes e que transmitam esse seu segredo às gerações seguintes. Portanto, um produto eficaz deixa de o ser rapidamente e o grande desafio destas mesmas farmacêuticas será o de apresentar, regularmente, produtos inovadores, na sua forma de atuação, na composição e na facilidade de administração.

Até ao próximo mês

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.