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Tu não fingiste o orgasmo, pois não?

Quando ela finge para assegurar e garantir o prazer dele

O contexto é uma relação heterossexual e a pergunta é obviamente feita por um homem, um homem consciente e atrevido. Mas é uma pergunta pouco comum. Por um lado, porque os homens não pensam que as mulheres podem fingir o orgasmo, ou melhor, eles sabem que elas chegam a fingir o orgasmo mas não a sua mulher, não a sua parceira, “não comigo”. As outras sim, com outros homens, “a minha não”. Por outro lado, a pergunta implica o confronto directo com uma possível dificuldade. Se ela fingiu, pode continuar a mentir e dizer “Claro que não!”, ou pode simplesmente rir e pensar que foi suficientemente expressiva e que ele percebeu a sua escalada no prazer. Por conseguinte, é uma pergunta arriscada e por isso, pouco frequente. A pergunta mais comum é aquele cliché do “Foi bom para ti?” que pressiona e obriga a um “Sim, claro” como resposta na maioria das vezes, e fim de conversa. Mas o que interessa mesmo é o que está por trás da pergunta dele e da resposta dela. O que deve ler-se na pergunta dele é, “Eu quero saber se fui suficientemente bom e se tu gostas de estar comigo”. É isto que inquieta o homem, é esta a informação que ele procura para poder sossegar a sua masculinidade. É mais um sinal da sexualidade masculina altamente focada na performance. Saber que fez bem o que era suposto fazer. É importante para o homem sentir que tem a competência de dar prazer sexual à parceira. Bom, não estou aqui a considerar aquelas situações em que o homem está preocupado e centrado apenas no seu próprio prazer.

E o que está por trás da resposta dela? “Eu sei que o meu orgasmo te excita”. No consultório ouvi um dia um homem na segunda metade da vida dizer o seguinte sobre isto com uma metáfora extraordinária. “O que mais me excita não é o orgasmo dela. É o momento antes do orgasmo dela. É quando eu sinto que ela está finalmente a perder o controlo como se estivesse a entrar num transe. E eu sou o Xamã que lidera a procissão. É aí que o meu prazer atinge o pico”. Perguntei-lhe se isso o fazia sentir poderoso, disse-me que não, que era mais sobre “ajudar a mulher a descarregar todas as tensões”. Não resisto à interpretação deste papel de curandeiro que representa o desejo de salvar e libertar as mulheres.

Mas neste processo é relevante saber que o orgasmo dela não depende só da competência dele. Sim, é fundamental a mulher receber os estímulos de que precisa mas há outras variáveis na equação que estão do lado dela. Por exemplo, não haver inibições mentais e emocionais como o medo de perder no controlo, o medo da entrega, o não ser capaz de se deixar ir, a desconexão com o corpo e com o prazer físico, ou simplesmente a dificuldade em se concentrar nos estímulos e a cabeça cheia de preocupações. Recordo-me de uma mulher me ter dito um dia que só consegue chegar ao orgasmo se “tiver a cabeça vazia”. O que convenhamos é um estado mental difícil de conseguir, a menos que conte com uma rigorosa prática de meditação prévia ao encontro sexual.

O homem pode ir ainda mais longe e querer saber “E como foi o teu orgasmo?”. E os orgasmos são todos diferentes em intensidade e qualidade. Há deles mais longos e arrebatadores, de tirar a respiração, intensos, vibrantes, e outros mais tímidos e parcos, envergonhados, com pouco esplendor, e alguns até que fazem chorar, mas um choro bom, uma descarga de qualquer coisa, que pode até não se saber bem o que é.

Uma troca mútua paradoxal

Não pretendo dissertar sobre as razões que levam as mulheres a fingir o orgasmo que, podem ser de vária ordem. Uma delas é querer terminar a relação sexual o mais depressa possível, ou porque não está excitada, não lhe apetece, tem desconforto, ou está a cumprir uma obrigação, mas também pode ser porque não quer sentir-se incompetente sexualmente. A razão que estou a focar neste texto é quando ela finge para assegurar e garantir o prazer dele.

Portanto, a mulher quer dar-lhe prazer, e o homem quer dar-lhe prazer ela. Perfeita harmonia de intenções, mas que esconde um paradoxo. Ela quer assegurar o prazer dele e vice-versa, numa troca mútua e justa. Mas se ambos estão genuinamente interessados e preocupados com o prazer do outro, parece-me paradoxal que tenham que fingir em vez de falar abertamente sobre o assunto. E a pergunta difícil de enfrentar é “O que é que podemos fazer para ser melhor?”, e do lado ela, “O que é que eu preciso para o meu prazer sexual?”.

No início da relação os corpos precisam de tempo um com o outro, o tempo e a prática ajudam imenso, é como tocar piano. Mas haver uma partitura com notas musicais, sinais e compassos também ajuda muito a conhecer os ritmos e as preferências um do outro. Diz-me o que tu gostas, deixa-me perceber melhor, dá-me a tua expressão, podem ser alguns tópicos que ajudam a resolver o paradoxo.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.