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24 dicas para esclarecer 24 mitos sobre cães

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

Há mitos que permanecem, uns sem importância para o relacionamento do cão com o seu tutor, mas outros que podem prejudicar a convivência de ambos. É hora de os desmistificar

Já todos ouvimos a expressão “o cão é o melhor amigo do Homem”. E não é por acaso, uma vez que este, talvez pelas suas características sociais, foi o primeiro animal a ser domesticado pelos humanos, no período da era glaciar, há cerca de 500 mil anos, a partir do lobo selvagem. A motivação inicial terá sido a de conseguir algum tipo de beneficio, muito provavelmente parceria na caça, uma vez que os lobos tinham um olfato mais apurado e conseguiam vantagem na busca das presas. Para que a domesticação fosse um sucesso, era necessário que o animal visado possuísse um marcante comportamento social e gregário, capaz de estabelecer vínculos afetivos e interagir socialmente. O lobo reunia todas estas premissas e é o antepassado de todos os cães que conhecemos, desde o pequeno Chihuahua ao gigante São Bernardo. Mas teve que haver uma adaptação evolutiva em termos anatómicos e comportamentais. Logicamente, alguns (muito poucos) dos comportamentos do nosso companheiro canino ainda se mantêm muito próximos dos evidenciados pelo lobo. Mas a maioria está completamente divergente do original. Ao longo dos séculos, os cães foram adaptando, evolutivamente, as suas atitudes e aspeto físico, de uma forma natural, porque vantajosa. Mas estas foram, também, intencionalmente manipuladas pelo Homem, quando escolhia os reprodutores segundo o seu aspeto ou temperamento.

Hoje em dia, o cão tornou-se membro de uma família multi-espécie, companheiro inseparável, tantas vezes substituto de relacionamentos afetivos, em pessoas socialmente isoladas. Mas, apesar de tantos séculos de convivência, ainda há mitos que permanecem, uns sem importância para o relacionamento do cão com o seu tutor, mas outros que podem prejudicar a convivência de ambos, sendo importante a sua desmistificação para que se otimize ao máximo todas as vantagens que advêm deste relacionamento.

1 - Quando o cão abana a cauda é porque está contente…

Os especialistas supõem que, com o abanar de cauda, o cão espalha o odor das suas feromonas, produzidas na região anal e que servem para comunicação olfativa. Nalguns casos, as feromonas libertadas são de aproximação, transmitindo a mensagem de que aquele ser (humano, outro cão, ou outro animal) é bem aceite. Esta postura amigável é feita com movimentos amplos da cauda, que baloiça à altura das ancas. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, o abanar de cauda pode não ser uma saudação ou manifestação de alegria. Se esta estiver bem erguida, dobrada em direção ao dorso e com movimentos curtos e rápidos revela tensão, desconfiança e ansiedade. Se a mantiver entre as pernas é porque está submisso, com medo ou numa postura apaziguadora. Neste caso o objetivo é exatamente o oposto: ocultar os odores que referi anteriormente. Estudos recentes comprovam que o cão reconhece e responde de maneira diferente perante uma cauda que abana para a direita ou para a esquerda. Tal como os humanos, os cães têm o cérebro dividido em lado direito e esquerdo, sendo que cada parte tem funções especificas. Quando um cão vê uma cauda que abana para a direita, ativa o hemisfério esquerdo, ligado a experiencias positivas e descontraídas. Ao contrário, quando abana para a esquerda, ativa o direito, relacionado com ansiedade e tensão. Mas independentemente dos pormenores relacionados com este comportamento, o movimento da cauda faz parte integrante e indispensável da linguagem corporal canina, representando um papel importantíssimo e insubstituível na comunicação entre indivíduos da mesma espécie. Portanto a sua amputação irá comprometer esta mesma comunicação, dificultando o entendimento entre cães. Logicamente, perante esta constatação, a amputação de cauda, tão defendida por alguns, puramente por razões estéticas, é completamente contra-indicada.

2 - Os cães veem a preto e branco…

Não percecionam as cores como nós, mas não veem a preto e branco. A capacidade para ver cores está determinada por células da retina, os cones, que são estimulados por luz de diferentes comprimentos de onda. Enquanto os humanos possuem cones sensíveis a três cores (vermelho, azul e verde), os cães só têm cones sensíveis a duas (azul e amarelo). Têm visão dicromática e capacidade para distinguir tons básicos de cores: amarelo, azul e cinza. Todas as outras ficam esbatidas e tendem para assumir um destes tons. Conseguem diferenciar vários tons de azul e roxo, mas o que para nós é vermelho, para o cão é algo escuro e o verde é, para ele, branco. Em compensação, evolutivamente, os seus olhos foram-se adaptando ao facto de serem caçadores noturnos. Por baixo da retina possuem uma estrutura (“tapete lucidum”), que funciona como camada refletora, melhorando a capacidade visual em ambientes deficitários em luz. É esta estrutura que dá aquele aspeto brilhante aos olhos, quando lhes fazemos incidir uma luz forte, ou quando são fotografados com flash. Também não conseguem distinguir detalhes a curta distância. Mas se o objeto que está perto estiver em movimento, torna-se facilmente detetável. Em resumo, o Homem tem uma maior capacidade de visão tridimensional, captando a profundidade dos objetos, de distinguir cores e captar detalhes. O cão vê melhor com pouca luz e deteta muito melhor os movimentos, por muito discretos que sejam.

3 - “Baba de cão come-se com pão”

Dizer popular que idolatra o cão, reconhecendo-o completamente inócuo, e seguro para o convívio com Humanos. Os cães exploram e apreendem o mundo com a boca. Mordiscam tudo o que encontram, para sentir texturas e sabores. Este comportamento contribui para que se desenvolva um ambiente oral propício a uma grande variedade de bactérias, mais ou menos nocivas. Portanto, apesar do seu cão estar vacinado, desparasitado e ser o animal mas adorável e limpo do universo, a sua boca conterá, sem dúvida, milhentas bactérias que serão espalhadas pela saliva. Sem alarmismos desnecessários, deverão ser evitadas as saudações impulsivas com a língua, treinando o animal a oferecer um comportamento mais calmo para que esta mesma saudação possa ser executada com um afagar de cabeça, pescoço, orelhas ou mesmo barriga.

4 - Cães são racistas…

Não existem cães racistas. Ou seja, não há nada na cor da pele que faça com que o animal tenha aversão a determinada pessoa. A explicação é muito mais simples e nada tem de depreciativa. Geralmente o que ocorre é uma falha de socialização precoce com etnias diferentes. Teme-se o que se desconhece e da mesma forma que um cão reage de forma cautelosa a algo novo, também o fará com pessoas de cor, aspeto e cheiro diferentes daquilo a que está habituado. Pode reagir de forma agressiva com o intuito de afastar a potencial ameaça, ou dar sinais de medo para que aquilo que o gera se afaste para uma distância de segurança. Uma socialização precoce e adequada a todo o tipo de estímulos que vão estar presentes no dia a dia do cão, é muito importante para que cresçam confiantes, afáveis e corretamente adaptados ao envolvimento social em que se inserem.

5 - Nariz quente e seco é sinal de doença…

Nem sempre. Habitualmente o nariz do cão é húmido devido ao escoamento das lágrimas, que lubrificam o movimento ocular. Normalmente são produzidas mais lágrimas do que as necessárias. Este excesso é drenado pelo ducto nasolacrimal e saem na base do nariz. O próprio cão as espalha, quando se lambe frequentemente, deixando-o mais fresco. Se forem produzidas menos lágrimas, o nariz ficará mais seco. Também o ficará se houver maior e mais rápida evaporação, num dia quente ou seco. Portanto humidade e temperatura do nariz, são variáveis ao longo do dia, dependendo da temperatura e humidade do ar. Algumas raças tem tendência para sofrer de obstrução crónica do canal lacrimal e consequentemente o nariz ficará menos húmido. Mas também a febre, desidratação, constipação nasal, problemas dermatológicos e alergias podem causar secura deste órgão. O bom senso impera e se o animal estiver perfeitamente saudável, não será para valorizar. Se for acompanhado de qualquer sinal de desconforto, deverá ser avaliado por um profissional de saúde.

6 - Cães comem erva porque estão nauseados…

Muitos cães comem ervas simplesmente porque gostam. Sobretudo se estiverem frescas, viçosas e orvalhadas pela manhã. No entanto podem haver outras razões para que o façam. Se se sentirem nauseados ou tiverem ingerido algo nocivo por acidente, recorrem a esta prática para limpar e purificar o estômago, por forma a se sentirem melhor, uma vez que a erva, sendo irritante, faz com que este órgão esvazie o seu conteúdo de forma compulsiva. Mas pode também ter o objetivo instintivo de adicionar vitaminas, minerais e fibra à dieta carnívora. Com a alimentação equilibrada que fornecemos, hoje em dia, aos nossos cães, não haveria necessidade de o fazerem. Mas há certas atitudes que estão na memória genética e que o animal mantém, mesmo sem ser necessário. Portanto, o hábito de ingerir ervas, mesmo que vomitem em seguida, não precisa de ser contrariado. Mas deve ser vigiado, para que, se se tornar um comportamento obsessivo, ou existir em simultâneo com sinais de doença, deve ser avaliado pelo veterinário.

7 - 1 ano no cão equivale a 7 nos humanos…

Este mito cairá logo por terra se pensarmos que, segundo ele, um cão com 1 ano corresponde a um humano de 7 anos. Uma cadela com esta idade já atingiu a puberdade e muitas delas, se lhes foi permitido, já foram mães. Em contrapartida, uma menina com 7 anos ainda se mantém e manterá, por mais alguns anos, impúbere. Portanto esta comparação não é possível. Ainda para mais, existem diferenças determinantes entre raças e suas características fisiológicas. Em termos muito gerais, os cães de grande porte tendem a viver menos que os mais pequenos. Um pinscher pode viver, em média, 16 anos, enquanto um dogue alemão dificilmente ultrapassa os 12. Mas, ao contrário do que seria de esperar, um cão de pequeno porte tem um período curto de juventude e uma longa vida adulta, enquanto que os de grande porte têm um longo período juvenil e uma curta vida adulta. Quando tentamos fazer uma analogia da idade dos cães em relação aos humanos, temos que ter em consideração todos estes fatores. A título meramente indicativo, sem qualquer base científica e em termos muito gerais, podemos dizer que nos dois primeiros anos de vida e para cachorros de porte pequeno (até 9 kg), multiplicamos cada ano por 12,5; nos de porte médio (10 a 23 kg), multiplicamos por 10,5; para os de grande porte (mais de 24 kg), multiplicamos por 9. A partir dos 3 anos de vida, esta multiplicação será, respetivamente, por 5, 6 e 8. Mas não podemos esquecer que cada caso é um caso e que cada animal terá o seu próprio ritmo de crescimento, maturação e envelhecimento e que não é possível saber, antecipadamente, quanto tempo irá viver.

8 - As cadelas precisam de ter pelo menos uma ninhada antes de serem esterilizadas…

Este mito baseia-se na premissa de que uma cadela deve ser mãe pelo menos uma vez, para diminuir probabilidade de vir a desenvolver cancro de mama. Pois os estudos dizem exatamente o contrário. A esterilização antes do primeiro cio, (por volta dos 6 meses de idade nas cadelas de pequeno porte e dos 9 meses, nas maiores), elimina, quase na totalidade, a probabilidade de ocorrência desta doença. Depois deste primeiro estro, a probabilidade será tanto maior, quanto mais cios ocorrerem. A medicina é uma ciência dinâmica, em constante evolução e aquilo que é hoje uma certeza, pode deixar de o ser no futuro. Mas enquanto os conhecimentos médicos estiverem ao nível que estão hoje, a esterilização precoce previne o cancro de mama, infelizmente bastante comum em cadelas inteiras. Para além de que somos responsáveis pelo controle de animais errantes. Com tantos cães abandonados ou alojados em canis, o ideal seria que estes fossem prioridade na adoção, por forma a conseguirmos a proeza (utópica?) de reduzir o seu número a zero e este passar a ser uma problema do passado. Não conseguiremos atingir este ambicioso objetivo se não controlamos eficazmente os nascimentos indesejados.

9 - Cão de pequeno porte adapta-se melhor a um apartamento…

Pois não é uma questão de tamanho. Qualquer cão, seja qual for o porte, tem o direito inalienável de ser cognitivamente estimulado, de forma correta, prazenteira e regular. É dever do tutor promover o exercício físico e mental adequado ao seu tamanho, idade e estado físico. Partindo desta premissa é fácil compreender que mesmo um cão muito grande pode viver em apartamento, desde que vá passear ao exterior todos os dias e por períodos longos, para que volte a casa suficientemente exercitado, disfrutando, em seguida, de igualmente longos períodos de repouso ou de menor atividade. Mas o mesmo acontece com os mais pequenos. Aliás, muitas vezes são estes os mais enérgicos e que requererem tempos de atividade mais longos e frequentes, quando comparados com os seus parentes de maior tamanho. Não interessa a nenhum cão ter vários hectares para se movimentar, quando todo esse espaço é desprovido de qualquer interesse, onde nada acontece. É muito importante que lhe seja proporcionada a possibilidade de expressarem os comportamento naturais, se possível promovendo o relacionamento com seus semelhantes, para além de convívio saudável com a sua família humana, estreitando laços afetivos e de confiança mútuos.

10 - Cão velho não aprende…

Em qualquer idade se pode aprender. Um cérebro jovem, ávido de experiências, aprende com mais facilidade. Os seus neurónios estão prontos para absorver e processar informação e as sua conexões nervosas são rápidas a transportá-la. Portanto será mais fácil atingir objetivos com o treino. Mas, por serem jovens, são também mais impacientes e distraídos. Tem que haver a motivação adequada e a forma de ensino correta, prazerosa e estimulante, com sessões intensas mas curtas. Os mais idosos possuem sentidos desgastados e consequentemente menos apurados, a mobilidade está, em muitos casos, diminuída, podendo até ser dolorosa, existem hábitos de anos, que podem ficar esquecidos. Mas com a motivação certa, a paciência indispensável e objetivos adequados ás limitações do idoso, podemos ensinar algo novo ou relembrar ensinamentos antigos. É, aliás, muito importante que continue a haver treino dos velhotes, não só para os exercitar e retardar o seu inevitável envelhecimento, como para ir relembrando hábitos, em cérebros com natural tendência para o esquecimento. Para além de que as sessões de treino, se forem agradáveis, estreitam laços afetivos entre tutores, numa fase tão emotiva do relacionamento, uma vez que o cão começa a ter alguma tendência para se desconectar do que o rodeia, e o tutor desanima com as fragilidades progressivas do seu protegido.

11 - Os cães curam feridas quando as lambem…

A saliva de cão contém lisozima, que é uma enzima com propriedades regeneradoras, coagulantes e bactericidas, com ação especifica contra Escherichia coli e Streptococcus canis. Portanto o cão lambe as suas próprias feridas, não só para acalmar a dor, mas também para acelerar a sua cicatrização. Quando as lacerações se encontram em locais inacessíveis, outros indivíduos do mesmo grupo podem praticar a sua lambedura, como rito social. Este procedimento promove também a limpeza da zona envolvente e da própria ferida, livrando-a de impurezas. No entanto, como vimos no mito 3, a saliva encontra-se ela própria conspurcada com agentes contaminantes. Se a lesão for superficial, a lambedura poderá dar alguma ajuda. Mas em lesões mais complicadas poderá ser prejudicial, uma vez que pode contaminar tecidos e atrasar a sua cicatrização por abrasão constante da língua. Para além do risco de transmissão de raiva, se as feridas lambidas não forem as do próprio, uma vez que esta ocorre através da saliva. Felizmente Portugal é um país indemne de raiva e portanto, na nossa feliz realidade nacional, não precisamos de nos preocupar muito com esta tão perigosa questão.

12 - Devemos dar alho aos cães para os desparasitar…

O alho contêm uma substância, tiossulfato, que pode causar uma anemia hemolítica em cães, quando consumida em excesso. No entanto, o seu efeito tóxico tem sido controverso. Na verdade há teorias que defendem os benefícios do consumo de alho, mesmo em cães, benefícios estes que passam, inclusivamente, pela repelência de parasitas externos, ou pelo seu efeito nefasto em parasitas internos. Segundo parece, é tudo uma questão de dose… Em pequenas doses, não ocorrerá a toxicidade que se verificará em doses mais altas. Mas como definir qual a dose apropriada para um cão, sobretudo havendo tão grande disparidade de tamanhos, entre indivíduos da mesma espécie? Será que vale a pena correr riscos, quando temos disponíveis no mercado produtos de eficácia garantida para a eliminação destes mesmos parasitas? Não me parece. O melhor será jogar pelo seguro e enquanto não houver consenso, evite este alimento na dieta do seu cão.

13 - Os cães devem comer ossos...

É um facto que os cães adoram roer ossos. E se lhes for permitido, conseguem horas de diversão com um único e suculento pedaço de esqueleto de qualquer animal, sobretudo se estiver ainda coberto de restos de carne. Antes da domesticação, os cães caçavam e comiam toda a presa, ossos incluídos. Depois da domesticação, passaram a ser alimentados com os restos da mesa… E o que sobrava não era, com toda a certeza, a carne. Ficavam os ossos e eram estes que os alimentavam de forma completamente deficitária. Os tempos mudaram, as mentalidades evoluíram e os animais de companhia passaram a fazer parte da família. A indústria da alimentação animal sofreu um crescimento exponencial, ao ponto de ser considerado um dos setores mais produtivos dos mercados internacionais. Veio facilitar muito a vida aos tutores, uma vez que não mais precisaram de se preocupar com a nutrição dos seus amigos de quatro patas. Hoje em dia já se questiona se, efetivamente, esta é a melhor forma de os alimentar, ou se se deveria optar por uma forma mais natural, com produtos frescos. Mas especificamente em relação aos ossos, os prejuízos que estes podem causar a um aparelho digestivo que se modificou ao longo de séculos de domesticação, são muito superiores aos benefícios de umas horas de prazer. Sobretudo os de aves são completamente contra-indicados, havendo o risco de causarem perfuração do intestino. Os de outros animais podem causar obstrução intestinal, devido á dificuldade na digestão dos mesmos, sobretudo em cães mais idosos, com um trânsito intestinal mais lento. Os ossos seriam mais facilmente digeridos se fossem oferecidos crus. Mas o risco de ingestão de parasitas que possam estar presentes nos músculos que revestem os ossos, invalidam esta possibilidade. Pode manter o seu cão ocupado de outras formas, igualmente estimulantes, sem ter que correr riscos desnecessários.

14 - Cães e gatos nunca serão amigos…

As diferenças na linguagem corporal de cães e gatos ditam alguns desentendimentos entre estas duas espécies. Para além de que o cão é um predador, com instintos naturais de caça e o gato, apesar de ser ele também um predador, é outras vezes presa, com comportamentos de fuga vitais para quem é por vezes caçado. É frequente observarmos cães a perseguirem gatos, simplesmente por desporto, pois se este parar e o enfrentar, a atitude predatória cessa e o cão não mais o persegue. Logicamente poucos gatos arriscam e muito provavelmente só aqueles que conhecem um pouco da personalidade canina o fazem. Mas é possível que ambos se entendam. Aliás, não só se entendam, mas também que sejam grandes amigos, compinchas, companheiros das horas de solidão em que os tutores estão fora. É, mais uma vez, tudo uma questão de socialização. Se ambas as espécies conviverem com representantes da espécie rival, numa fase precoce da vida, muito provavelmente irão saber comunicar, compreender e confiar, ao ponto de se aceitarem como pertencendo ao mesmo grupo familiar. Os relatos de histórias de amizade verdadeira, entre cães e gatos, são inúmeras e reais e possíveis de comprovar por quem já foi tutor de ambos em simultâneo.

15 - Cães de determinadas raças são perigosos…

O racismo dos humanos em relação aos cães existe. Basta que o animal se assemelhe, morfologicamente, a um representante de determinada raça para que seja temido, evitado e até marginalizado. A comunicação social não ajuda, mediatizando situações de suposta agressividade mal explicada, de determinados cães, pertencentes sobretudo às raças Pit bull e Rottweiler, em relação a humanos. Nunca ninguém tenta compreender porque é que um animal terá reagido de determinada forma. Atribui-se-lhe imediatamente uma culpa de agressividade gratuita e maldosa, sem hipótese de defesa. As dentadas de Yorkshire terrier, Pinscher ou Chihuahua raramente são documentadas, apesar de existirem. Lógico que a gravidade de uma lesão causada por um destes pequenos, nunca será a mesma que quando efetivada por um cão de maior porte. É tudo uma questão de força de mandíbula e não uma questão de raça. Qualquer cão pode morder, independentemente da raça, tamanho ou idade. Normalmente só o fará quando esgotou todas as hipóteses disponíveis para mediar o conflito, sem recurso à agressão física. Simplesmente os sinais de aviso que emitiu não foram bem interpretados pelo destinatário da mensagem. A grande maioria das dentadas são destinadas a crianças, que pela sua imaturidade e desconhecimento das posturas corporais do cão, são muito invasivas e não respeitam o espaço se segurança. É muito importante apostar na educação dos mais pequenos, desde a idade pré-escolar e socializar adequadamente TODOS os cães, de todas as raças, desde tenra idade.

16 - Dar banho ao cão elimina o cheiro característico…

Os banhos eliminam a gordura natural e protetora da pele do cães, deixando o animal mais suscetível a problemas alérgicos e infeciosos. Como reação natural à remoção deste revestimento protetor, a pele começa imediatamente a produzir nova camada de gordura, responsável pelo cheiro característico “a cão”. Portanto, uns dias depois do banho, o dito odor intensifica-se e cai por terra a teoria de que o banho é indispensável para o amenizar. Um banho mensal é mais que suficiente para manter a higiene da pele e do pelo, seguido de escovagens diárias, que ajudam a arejar a superfície, espalham a gordura natural que protege e confere um brilho saudável, para além de remover a descamação da pele e o pelo morto.

17 - Os cães gostam de ser abraçados…

O abraço é um gesto de ternura, característico dos humanos, mas que não faz parte do reportório natural da linguagem canina. E a verdade é que os cães não gostam. Mais uma vez, podem tolerar, se habituados, mas nunca se sentirão confortáveis quando envolvidos num abraço apertado. A restrição de movimentos que o gesto condiciona, deixa o animal ansioso, por não se sentir livre para se afastar, se assim o quiser. Quem compreende um pouco dos sinais de stress emitidos pela linguagem corporal canina, compreende facilmente que, mesmo que este aceite passivamente o gesto de ternura humano, não está relaxado e muito menos a apreciar tão íntimo contacto. E da mesma forma que não abraçamos um desconhecido porque não sabemos como poderá reagir, também não o devemos fazer com um cão, simplesmente porque é importante para nós. Há outras formas de cumprimento bastante mais agradáveis para o animal, como uma carícia nas orelhas, dar um snack ou sair para passear. Devemos respeitar o animal na sua essência e não tentar a todo o custo que se molde à nossa imagem.

18 - Devemos cortar a “lombriga” debaixo da língua...

Este mito, largamente difundido entre detentores pouco informados, levou à mutilação de muitos cães. Hoje em dia, sobretudo nos grandes centros urbanos, o mito caiu no esquecimento, mas nas zonas mais isoladas ainda se pratica tão ignóbil ato. Mais uma vez, nada há de científico neste procedimento. Real é o sofrimento causado pelo mesmo. Consiste em cortar o freio lingual, que existe de face inferior da língua e que pode ser confundido com algum tipo de parasita. Era praticado por qualquer pessoa, não profissional de saúde, com instrumentos rudimentares e sem qualquer tipo de anestesia. Felizmente é uma prática com tendência a desaparecer completamente, muito provavelmente devido ao crescente nível de educação da população em geral.

19 - Para secar o leite de uma cadela que já não tem os cachorros, devemos colocar um saquinho com sal ao pescoço...

Nada há de científico neste pressuposto. Muito provavelmente, quando a sabedoria popular constatou que o leite secava gradualmente quando penduravam um saquinho poroso, com sal no pescoço da cadela, concluiu-se que este seria o remédio milagroso para a involução mamária. Mas inevitavelmente esta secagem aconteceria naturalmente, com ou sem adorno salino. O facto de deixar de haver estimulação da glândula mamária, pela sucção das boquinhas dos bebés, faz com que esta deixe de produzir leite, de forma gradual, se gradual for também o desmame. Se, de um momento para o outro, todos os bebés deixarem de mamar em simultâneo, muito provavelmente ocorrerão mastites, devido à retenção do leite não consumido. E não haverá saquinho de sal que salve a mãe de uma situação dolorosa.

20 - As cadelas parem na mudança da lua…

Que o ciclo lunar influencia vários aspetos terrestres, todos concordam e constatam no dia a dia. As marés são, talvez, o facto mais conhecido, diretamente relacionado com a atração magnética entre a terra e a lua. Ao longo deste ciclo ocorrem variações na quantidade de luz solar refletida pela lua, que afetam a fisiologia de vegetais e animais. Mas são escassas as informações científicas sobre esta mesma influência na biologia animal. Muito se especula sobre os efeitos do ciclo lunar na reprodução e no momento do parto. Existem estudos na espécie humana, mas são contraditórios e não comprovam nada. Portanto e até provas em contrário, este efeito não passa de um mito.

21 - Quando os cães se montam é porque são homossexuais…

A monta é um comportamento normal e social entre cães, que se encontram num parque ou mesmo entre aqueles que convivem diariamente. Nada tem a ver com sexualidade, apesar de ser uma postura também utilizada durante a cópula. Corresponde a um ritual de ensaio da organização social, em que o animal que se deixa montar se “submete” ao que monta. Mas a postura pode mudar em tempos diferentes e o cão que monta poderá ser montado noutra altura e vice-versa, mesmo tratando-se dos mesmos indivíduos. É um comportamento normal que faz parte do reportório linguístico canino e que deve ser respeitado.

22 - Os cães sentem culpa quando fazem algo errado…

Existem poucas evidências de que os cães possam sentir emoções secundárias, como o ciúme ou a culpa. Quando mostra aquela expressão de cachorrinho arrependido que tão bem conhecemos, não está a tentar redimir-se de nada, uma vez que não tem consciência de ter feito algo errado. Simplesmente os tutores já deram sinais de fúria, mesmo sem se terem apercebido disso. Sinais tão subtis como uma simples dilatação de pupila, um elevar de sobrancelhas, um esgar de lábios ou um enrugar de testa, serão facilmente percebidos pelo animal, ótimo leitor de expressões faciais. Portanto, já adotou postura de apaziguamento, muito antes de o admoestarem verbalmente, uma vez que já compreendeu que pode dali advir algum castigo, mesmo não o relacionando com o motivo efetivo. Havendo uma reação postural do animal, antes de ter sido advertido, leva a que os tutores interpretem como se este tivesse consciência da asneira praticada e mostrasse arrependimento ou culpa.

23 - Mito da dominância...

Assistimos a programas de televisão, lemos revistas e ouvimos conhecidos falarem sobre a tentativa constante de todos os cães ascenderem a líderes. Ser o alfa da matilha seria o objetivo constante destes animais, concentrando toda a sua energia nesta luta de dominância sobre os seus companheiros. A teoria da dominância surgiu há décadas atrás, baseando-se na observação de lobos em cativeiro e é definida como uma relação entre indivíduos conquistada através da agressão de um e submissão de outro. O vencedor tem acesso prioritário a todos os recursos desejados, como alimentação, reprodução e descanso. No entanto, estudos recentes têm demostrado, que esta hierarquia não é tão linear e rígida como se pensava. Observando lobos em liberdade, verificou-se que a sua estrutura social é muito mais igualitária do que seria de esperar, sendo sobretudo balizada pelos laços familiares entre os diferentes membros da alcateia. E não podemos extrapolar para os cães, aquilo que aprendemos nos lobos. Apesar de possuírem uma enorme proximidade genética, muitos anos evolutivos e adaptativos os separam em termos comportamentais. Sem dúvida a dominância existe entre cães, mas é usada, irresponsavelmente, como explicação para todos os tipos de agressividade que o animal possa evidenciar. Na esmagadora maioria das vezes em que se verificam situações de dentada, o motivo é o medo e esta só ocorre depois do cão já ter recorrido a todas as suas possibilidades linguísticas para evitar o conflito. Simplesmente o tutor não o compreendeu a mensagem e ignorou todos os avisos.

24 - Os cães devem comer só uma vez por dia…

Enquanto cachorros, devem comer três ou quatro vezes por dia. Depois de adultos podem diminuir o número de refeições, mas o ideal será um mínimo de duas. O sistema digestivo dos cães consegue digerir os alimentos em 12 horas. Se o alimentarmos 1 vez por dia, ficam com o estômago vazio por cerca de mais 12. Embora não seja um problema grave, é opinião de alguns especialistas que este facto pode originar distúrbios gastrointestinais, como, por exemplo, a gastrite. Mas o cão não deve comer duas vezes a dose diária, mas sim essa mesma dose dividida por duas vezes. No caso de cães de raças grandes, acresce o facto de que uma única e consequentemente volumosa refeição diária, seguida de passeio e brincadeira, poder originar a torção do estômago, acidente este de prognóstico grave, que se não for diagnosticado e corrigido em poucas horas, levará inevitavelmente á morte. Em resumo, um animal adulto poderá viver sendo alimentado unicamente uma vez por dia, mas será mais saudável e menos arriscado se comer a dose diária, dividida por duas refeições.

Mais um ano a terminar, resta-me desejar a todos umas boas festas e um novo ano cheio de bons momentos, com toda a família, de quatro patas incluída.

Até ao próximo ano…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.