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18 dicas para esclarecer 18 mitos sobre gatos

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Célia Palma

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Os gatos, pela sua personalidade, têm sido amados e odiados por povos e civilizações, ao longo da história. O que faz deste pequeno felino um ser tão controverso?

Os gatos, pela sua personalidade, têm sido amados e odiados por povos e civilizações, ao longo da história. Mas a realidade é que não deixam ninguém indiferente. Suscitam sempre os sentimentos mais arrebatadores, desde amores incondicionais a ódios infundados. Mas o que faz deste pequeno felino um ser tão controverso? Será a sua anatomia harmoniosa, ágil e bem adaptada, a sua psicologia misteriosa e discreta ou a sua personalidade “zen”?

Na verdade, o gato é um predador, mas também presa, muito bem adaptado à caça por emboscada. É pródigo em paciência, esperando o tempo que for preciso para efetuar a captura do ratinho ou da pequena ave. No momento certo enceta um “Sprint” certeiro, mas rápido, uma vez que corre com bastante velocidade, mas não aguenta este esforço físico por muito tempo. Sendo também presa, precisa de ser discreto, passar despercebido, estar sempre atento ao mais pequeno sinal de perigo. Os seus olhos estão adaptados à visão na semiobscuridade e focagem rápida; os seus bigodes conseguem detetar alterações na pressão atmosférica e nas vibrações no ar, permitindo que, na mais completa escuridão, evite obstáculos e detete movimentos; a sua anatomia, versátil e eficiente permite trepar, esgueirar-se por zonas estreitas, cair de forma controlada e aterrar (quase) sempre nas quatro patas.

Um ser tão bem adaptado, atinge estatuto de “super-herói”, despertando desconfiança nos mais céticos. Mas quem partilha a sua vida com um gato, quem melhor conhece a sua discreta linguagem, quem lhe identifica traços de personalidade, passa a admirar-lhe a beleza aristocrática, o porte atlético, a altivez com que se desliza, com a mesma facilidade, na nossa sala de visitas ou num escorregadio telhado inclinado. E o seu olhar, profundo e contemplativo, de quem sabe muito mais do que aquilo que revela, de quem nos observa até ao mais profundo da nossa alma, conseguindo rebuscar aquilo que achamos que está a salvo do entendimento dos nossos semelhantes.

Não é por acaso que os maiores pintores, poetas, romancistas, escultores, músicos e outros artistas, partilharam com um gato o seu momento de criação, para além de nele se inspirarem para a beleza das suas obras. Só quem nunca conviveu de perto com um gato, lhe pode atribuir adjetivos pejorativos, tais como interesseiro, mesquinho, falso, egoísta, associal, manipulador, egocêntrico. Tais sentimentos menos nobres, só uma espécie os detém e esta espécie não é, com toda a certeza, a felina.

1 - Os gatos têm sete vidas (nove, em algumas culturas)…

Não, os gatos têm as mesmas vidas que qualquer ser vivo. São seres complexos, bem adaptados à sobrevivência em ambientes hostis, mas também são delicados, com reações adversas muito graves a alguns fármacos corriqueiros, como a aspirina ou o paracetamol. Esta fama de sobrevivente baseia-se na capacidade de resistir a quedas de grande altura. É verdade que as lesões resultantes de um acidente deste género nem sempre são proporcionais à gravidade do mesmo. O gato tem a capacidade de relaxar o seu corpo e de o orientar gravitacionalmente em direção ao solo. Assim, se a queda for de uma altura considerável, haverá espaço aéreo suficiente para rodar o corpo por forma que as patas amorteçam o embate. Se, para além disto, estiver relaxado, os danos serão menores do que se o embate se desse com um corpo tenso e contraído. Mas não nos deixemos enganar. Uma queda é sempre perigosa e os resultados poderão ser desastrosos. E nunca confie que o seu gato, por ser gato, nunca cairá da janela. Um passo em falso, um pássaro que passa, um retrocesso apertado e o acidente acontece… e não é porque caiu uma vez que não voltará a cair. Nunca o deixe preguiçar no parapeito de uma janela aberta, ou de uma varanda. Para o poder fazer deverá colocar uma proteção horizontal ou vertical, que ampare qualquer desequilíbrio. Quem nos dera a nós, veterinários e tutores, que o gatos tivessem mesmo sete vidas. Mas só têm uma, que dura em média 15/16 anos em gatos de interior e 2/4 para os de rua. Infelizmente deparamo-nos todos os dias com doenças graves, mais ou menos comuns, responsáveis pela partida, muitas vezes precoce, do nosso admirável companheiro.

2 - Os gatos caem sempre de pé…

Os gatos caem QUASE sempre de pé. É esta capacidade de se posicionarem adequadamente, para amortecerem a queda, que dá origem ao mito anterior. Mas para que o consigam, a queda tem que acontecer de uma altura superior a 60 cm. Menos que isso, não há tempo suficiente para a rotação e posicionamento do corpo. E se a queda for de uma grande altura, a violência do embate pode causar danos graves ou até a morte. Na maioria dos casos ocorrem fraturas dos membros, uma vez que são eles que amortecem o impacto com o solo.

3 - Os gatos pretos dão azar…

A origem desta superstição remonta à idade média, quando os gatos eram associados a bruxas e se acreditava que estas assumiam a forma felina, sobretudo durante a noite, para se deslocarem sem serem identificadas. Havia uma histeria coletiva por toda a Europa que se espalhou aos Estados Unidos, contra as bruxas, feitiçaria e a prática de magia negra. Por algum motivo se intitula esta época da historia como “a idade das trevas”, exatamente porque as pessoas era receosas, ignorantes, supersticiosas e crentes em seres maléficos, com poderes mágicos. E a cor preta era associada à escuridão, às trevas e aos seres que preferiam viver na clandestinidade para efetivarem a sua maldade. Ainda para mais, uns olhos que brilham no escuro lembram demónios ou seres diabólicos.

No século XV, o papa Inocêncio VIII incluiu os gatos pretos na lista de seres hereges, perseguidos pela inquisição. Este pequeno tigre doméstico, que havia crescido em número, por estar bem alimentado (uma vez que os ratos pululavam nas ruas imundas, sem saneamento básico), viu a sua sobrevivência perigosamente ameaçada devido à perseguição que lhe foi feita. Como resultado, a população humana viu-se a braços com uma das mais mortíferas catástrofes da história: a peste negra, que dizimou cidades, vilas e aldeias. Não por qualquer tipo de maldição lançada à sua espécie, mas por razões completamente biológicas. Mais uma vez os humanos foram vítimas de si próprios, responsáveis pela sua própria provação. Ainda hoje existem seitas de culto que recorrem a este animal, sobretudo se for preto, para ultimarem os seus rituais satânicos.

Não é por acaso que no Halloween e sextas feiras 13, a procura de gatos pretos, para adoção, em associações, gatis e internet, aumenta substancialmente. Infelizmente os humanos continuam a sacrificar outros seres vivos para seu divertimento, umas vezes por ignorância, mas outras por pura maldade. Mas o gato preto nem sempre foi desafortunado. Na civilização egípcia foi adorado como um deus, protegido e honrado em rituais religiosos. Ter um gato era sinal de prosperidade, boa sorte e felicidade. Mas o que é exatamente um gato preto? Segundo a “wikipédia”, é simplesmente um gato doméstico, com melanismo. Pois bem, por mais que se lhe queira atribuir poderes sobrenaturais de manipular a sorte ou azar de cada um, não passa de um pequeno e adorável felino, com uma cor como qualquer outra. Como gato que é, tem comportamento e linguagem de gato. Nem mais, nem menos. E a jeito de conclusão, o gato preto não só não dá azar, como é mesmo um herói sobrevivente a séculos de perseguição.

4 - Os gatos conseguem ver no escuro…

Na escuridão total não veem nada. Mas conseguem ver cerca de 7 vezes mais que os humanos, na semiobscuridade. Ambos, gatos e humanos, possuem células na sua retina responsáveis pela visão: cones e bastonetes. Os primeiros são responsáveis pela visão dos detalhes, enquanto os segundos o são da visão noturna. Enquanto os humanos têm muitos cones e poucos bastonetes, o contrário acontece com os gatos. Por detrás da retina existe uma estrutura, “tapetum lucidum”, que tem a função de aumentar a quantidade de luz que pode ser captada pela retina, funcionando como um espelho. Esta estrutura está presente nos animais que têm hábitos de caça noturnos e é a responsável por aquele brilho que vemos quando fazemos incidir uma luz direta nos seus olhos. As suas pupilas, de forma elíptica, conseguem dilatar-se muito quando há pouca luz (como o diafragma de uma máquina fotográfica), absorvendo-a e maximizando-a, melhorando a visão noturna.

Portanto, os olhos do gato estão perfeitamente adaptados à visão com pouca luz, uma vez que são caçadores noturnos, mas se estiverem no escuro total a capacidade visual é nula. Para se orientarem no escuro têm os bigodes (ou vibrissas), que são pelos tácteis, muito sensíveis ao toque, que transmitem vibrações aos órgãos sensoriais localizados na base. Estas vibrações permitem ao gato identificar e contornar objetos, movimentando-se de forma relativamente segura, quando não consegue ver.

5 - Os gatos são falsos e traiçoeiros

Não podia estar mais errado. Só os humanos são fadados com este tipo de predicados. Os gatos são gatos e comportam-se como tal. A nossa tendência é humanizar os animais, esperando que se comportem em analogia connosco. E é exatamente por ignorância daquilo que é normal para a espécie, que os acidentes acontecem. Um gato, antes de reagir de forma agressiva, emite pré-sinais, que não são reconhecidos. Por exemplo: o abanar de cauda quer dizer que está em conflito psicológico, que não está agradado. Os tutores acham, por analogia com o cão, que está muito satisfeito e a gostar do contacto físico. No entanto este está a pedir para o humano parar o dito contacto, uma vez que se sente incomodado. Não conseguindo ser bem sucedido, emite outros sinais em simultâneo, como por exemplo, colocar orelhas para trás. Continuando a mensagem a não chegar ao recetor e insistindo este no afago, utiliza o último recurso, que será o de dar uma sapatada (ou dentada) e fugir. Portanto, o que o humano pensou, erradamente, foi que o gato lhe disse que estava contente e depois reagiu, contraditoriamente, de forma agressiva. O que aconteceu na realidade foi que o gato disse, com linguagem própria da espécie, que estava desagradado, mas o humano não compreendeu e foi surpreendido por uma atitude que não esperava, mas lógica para o animal.

6 - Os gatos transmitem asma…

Mais um mito, que não corresponde à realidade. Os gatos sofrem, eles próprios, de asma com alguma frequência. Mas esta doença não é contagiosa. Aparece por reação alérgica a algo e não por contágio de algum agente infecioso. O mesmo acontece com os humanos. Podem sofrer de asma por alergia relacionada com o gato, mas não que este a tenha diretamente transmitido. Os alérgenos estão presentes na pele e saliva do felino. Portanto a descamação cutânea pode ser portadora dos mesmos, assim como o gato os pode espalhar no pelo quando executa o “grooming “ natural. Para quem sofre de alergia a gatos (que nem sempre é respiratória), a reação pode ser controlada se outra pessoa não alérgica o escovar frequentemente, no exterior e se passar um pano húmido para remover as escamas produzidas pela renovação da pele. Na maioria dos casos, com o convívio frequente, as reações alérgicas vão diminuindo de intensidade até quase desaparecerem. A exposição contínua ao alérgeno funciona como vacina e a pessoa sensível pode deixar de o ser, àquele animal especificamente ou generalizar a todos os gatos. Estudos feitos comprovam que crianças que convivem proximamente com animais, desde tenra idade, têm menor probabilidade de vir a sofrer de doenças do foro alérgico.

7 - Os gatos não são treináveis…

Errado. Os gatos são treináveis. Como qualquer outro animal, tudo depende da motivação. O segredo está na motivação, que não pode ser a mesma para um cão, um coelho, um cavalo, um porquinho da India ou um gato. Com a motivação certa é possível treiná-lo para sentar, deitar, dar a pata, fazer ursinho, fingir de morto e tudo aquilo que a nossa imaginação pedir. Não para o tornar num animal de circo, mas porque num ambiente pobre em estímulos, como é o interior dos apartamentos citadinos, o treino pode ser importantíssimo para estimular cognitivamente um cérebro complexo, necessitado de treino para permanecer ativo. Para além de que as sessões fortalecem os laços afetivos entre o tutor e o animal. No caso específico do gato, os treinos devem curtos e interessantes, para que não se desmotive. Um prémio comestível, uma carícia ou um brinquedo podem ser utilizados como reforço positivo, para quando o aluno corresponde ao objetivo. Depende da personalidade do gato, o prémio escolhido.

8 - Os gatos apegam-se ao território e não aos donos…

Os gatos são animais territoriais. Dão muita importância ao espaço no qual vivem e patrulham-no de forma rotineira. O reconhecimento deste mesmo território é uma das principais tarefas diárias do pequeno felino, que nela ocupa grande parte do tempo em que está ativo. Portanto, mudanças neste espaço são sempre traumáticas, uma vez que interferem com a rotina, tão importante para a sua estabilidade emocional. Mas as relações sociais têm a sua quota parte de importância no bem estar do gato. Apesar de apelidados de associais, desenvolvem relacionamentos afetivos profundos com os seus tutores, outros gatos, ou mesmo animais de outras espécies. Relatos de pessoas que atestam que determinados gatos entram em depressão após a morte ou desaparecimento de um tutor ou mesmo de um companheiro de quatro patas, são frequentes. São muitas vezes comprovados, na consulta veterinária, uma vez que alguns bichanos parecem simplesmente desistir de se alimentar, sem ser detetada qualquer doença subjacente. Mas sendo um animal muito discreto, as sua manifestações de afeto são difíceis de identificar e passam, muitas vezes, despercebidas. Hoje em dia, com o desenvolvimento em Portugal de uma nova especialidade veterinária, a medicina comportamental, muito se tem aprendido em relação ao comportamento dos gatos e já se lhes atribui uma doença desta área, que até há pouco tempo se pensava exclusiva dos cães: a ansiedade por separação. Esta doença comportamental manifesta-se por uma incapacidade do doente gerir a ausência física do tutor ou de outro animal, ao qual está afetivamente ligado.

9 - Os gatos odeiam água…

É tudo uma questão de adaptação. A origem do gato ocorreu em zona áridas, sem grandes cursos de água. Portanto este elemento não aparece na lembrança genética do gato doméstico. Por ser um animal tão preocupado com a higiene, mantém o seu corpo imaculadamente limpo, sem precisar de banhos. Tradicionalmente os tutores dão banho aos cães, mas raramente o fazem ao gato. Salvo raras exceções, os gatinhos não são sujeitos a esta experiência numa fase em que se encontram aptos a aceitar situações novas. Mas se se habituaram de uma forma positiva, podem aceitar sem dramas e até apreciar o conforto de uma água quentinha e de uma limpeza minuciosa. Existem alguma raças que gostam de nadar em lagos ou águas calmas, como o maine coon ou o turkish van.

10 - Os gatos têm comportamento antissocial…

Os gatos são animais solitários e territoriais. Mas mantém relações sociais discretas com os seus semelhantes, tão discretas que nem sempre são identificadas pelos humanos. As fêmeas aparentadas cuidam dos gatinhos em conjunto e mantém relações sociais com os mesmos enquanto estes precisam. Animais adultos relacionam-se através de posturas corporais e contacto físico, nem sempre evidentes, como um toque de nariz, de flanco ou um enrolar de cauda. Mas a comunicação, que condiciona o relacionamento social, é sobretudo olfativa, com deposição de odores específicos, que transmitem mensagens também elas especificas. Talvez os gatos sejam antissociais no sentido em que nós humanos entendemos a sociedade. Mas a nossa perspetiva não é a única. Precisamos se estar atentos e reconhecer outras formas de comunicar e de relacionar! Para quem tem ou teve gatos, é claro que já testemunhou relacionamentos sociais intensos entre estes e os seus tutores, com outras espécies ou mesmo com seus semelhantes.

11 - Os gatos ronronam porque estão felizes…

Os gatos ronronam mesmo em situações de doença grave, dor, trauma ou stress intenso. Parece que o ronronar é uma espécie de terapia, que acalma, aconchega e conforta. Mesmo em situação de morte iminente, alguns gatos emitem este som, cuja origem é, até hoje, um mistério para os cientistas, que não conseguem estar de acordo em relação a que órgãos estão envolvidos na sua emissão. Mas no contexto mais comum, ronronam quando estão confortáveis, confiantes e relaxados. As mães ronronam para os filhotes e vice-versa, os animais do mesmo grupo social fazem-no quando exercitam o “grooming” mútuo, gatos domésticos ronronam para os seus tutores, quando estão a ser acariciados. Ronronar é a atitude que mais o identifica, uma vez que são os únicos animais que o fazem.

12 - Gatos e cães não se entendem…

É tudo uma questão de linguagem. Em muitos sentidos, ambas as espécies têm linguagem corporal oposta. Por exemplo, o abanar de cauda num cão, quer dizer, na maioria dos casos, que está contente. Já num gato significa conflito. Ora um cão que vê uma gato a abanar a cauda, pensa que este está recetivo à sua presença. Mas este está numa disposição completamente oposta. Se um gato observa um cão a abanar a cauda, fica em alerta defensivo, quando o cão poderá estar simplesmente a desafiar para a brincadeira. Se o gatinho vivenciar experiências positivas com cães, entre as duas e as oito semanas de vida, passará a aceitar esta espécie como amiga. Cães e gatos bem socializados, podem conviver harmoniosamente, sendo, frequentemente, grandes compinchas, dentro do seio familiar.

13 - Os gatos gostam de leite…

Na verdade, a maioria dos gatos adultos são intolerantes à lactose (açúcar presente no leite), porque não produzem lactase, que é a enzima responsável pela sua degradação. Esta enzima está presente nos gatinhos lactentes, mas desaparece depois do desmame. Portanto, o leite pode causar desarranjo gastrintestinal nos animais adultos e não é de todo recomendado que o consumam.

14 - Os gatos preferem peixe…

Os gatos são verdadeiros “gourmets” em relação ao que comem, muito seletivos e verdadeiramente fiéis às suas preferências. Devem contactar desde pequenos com vários sabores, texturas e temperos, para que não venham a desenvolver “neofobia alimentar”. Animais com esta condição habituaram-se a um único tipo de alimento e são incapazes de comer algo diferente. O problema ocorre quando, por doença, precisam de alterar estes hábitos. Mas em relação à sua inata preferência por peixe, esta não é diferente da preferência por carne. Existem as naturais características individuais de personalidade ou de habituação, que levam a que uns gostem mais de um sabor, enquanto outros preferem diferente. Mas nada indica que, em termos percentuais, existam mais gatos a gostar de sabores do mar.

15 - Os gatos são perigosos porque arranham…

É uma certeza que os gatos têm unhas afiadas, das quais cuidam meticulosamente e que utilizam para trepar ou se defenderem de inimigos. São retráteis, o que quer dizer que podem estar escondidas ou serem expostas quando o seu possuidor pretender. Na infância os gatinhos aprendem a utilizar esta arma de forma controlada, quando brincam com os irmãos ou com a mãe. Quando estes se mostram desagradados com a intensidade da brincadeira, o gatinho aprende que utilizou demasiado entusiasmo na mesma e futuramente não repetirá. Quando é retirado demasiado cedo ao convívio com a sua família felina, não faz esta aprendizagem e não saberá controlar-se. Para mais a pele humana é demasiado frágil para estas garras afiadas. Se o gato não for adequadamente manipulado, poderá defender-se ou tentar fugir, ferindo sem intenção. Se os seus companheiros humanos aprenderem a conhecer a natureza do gato e a sua linguagem, dificilmente serão arranhados, uma vez que reconhecerão os sinais de aviso que este emite. Toda a família deve ser ensinada a não utilizar as mãos na brincadeira com o gato. Com a entusiasmo do instinto da caça poderá magoar e ambos os intervenientes sairão prejudicados.

16 - Os gatos não gostam de carinho…

Se corretamente socializados, numa fase precoce da sua vida, os gatos aprenderão a confiar nos humanos, a gostar da sua companhia e do seu toque carinhoso, que lhes lembra os cuidados maternos de higienização. Muitos deles adoram o conforto da proximidade com os tutores, tornando-se completamente dependentes da sua presença física. Mas no geral gostam de estar no controle da sua vontade, não apreciando muito o serem agarrados, sem possibilidade de escapar quando assim o quiserem. Nós humanos somos muito efusivos nas manifestações de carinho, mas os gatos fazem-no de forma mais discreta e polida.

17 - Os gatos são interesseiros…

Sendo predador, mas também presa, o gato tem como prioridade chegar vivo ao final do dia. Portanto, todas as suas atitudes visam a sobrevivência. Apesar de não haver necessidade de ter este tipo de preocupação, vivendo na dependência dos humanos responsáveis, está no seu código genético zelar pelos seus interesses. Isto é ser interesseiro? Não me parece! Pelo menos no sentido pejorativo. Trata-se de um animal a atender as suas necessidades básicas.

18 - Os gatos são perigosos para as grávidas…

A Toxoplasmose é uma doença causada por um parasita microscópico (Toxoplasma gondii). Como pode afetar fetos humanos é natural que mulheres grávidas, familiares e profissionais de saúde se preocupem com a possibilidade desta infeção no bebé por nascer. De tal forma, que a sua prevenção se tornou uma obsessão para todos os que estão direta ou indiretamente ligados à saúde pré-Natal, sendo os gatos as grandes vítimas deste pânico global. O desconhecimento do ciclo de vida do parasita e da sua forma de transmissão levam a que muitos gatos sejam afastados temporária ou permanentemente do contacto com a mulher grávida. Sem duvida os gatos fazem parte do ciclo de vida do parasita.

No entanto, estudos recentes mostram que o contacto com estes animais não aumenta o risco de infeção. Então como se efetiva a transmissão do parasita? Os gatos infetam-se ingerindo carne contendo os quistos do T. gondii (incluindo pequenos roedores ou carne mal cozinhada). Depois da ingestão, começa e eliminar partículas (ooquistos) nas fezes. O sistema imunitário do gato rapidamente responde a esta infeção e impede o parasita de se reproduzir. Assim, a eliminação de ooquistos termina entre o 10° e o 14° dia de infeção. Voltar a eliminar tais partículas, depois deste tempo, é extremamente raro e mesmo que ocorra só um pequeno número de ooquistos conseguirá passar.

Após a eliminação, os ooquistos não são imediatamente infetantes. São precisos entre 1 a 5 dias para se transformarem em esporos. Ooquistos esporulados podem sobreviver mais de 18 meses e podem ser espalhados no ambiente por objetos ou até pelas fezes de cão, se os ooquistos forem acidentalmente engolidos por estes. O risco do gato se infetar com T. gondii depende do seu estilo de vida. Aqueles que se passeiam pelo exterior e são caçadores bem sucedidos, são os que apresentam um maior risco. Os de apartamento e que se alimentam de comida processada, própria para gatos, apresentam um risco nulo, exceto se comerem carne fresca ou pouco cozinhada.

E os humanos? Como se infetam? Logicamente da mesma forma: comendo carne pouco cozinhada. Também carnes curadas, não cozinhadas, tais como os enchidos, representam um risco considerável. Mas uma das mais importantes fontes de contaminação são os solos, e os produtos por ele produzidos, tais como legumes e frutos. Ingerir estes produtos frescos, mal lavados ou tocar na boca com as mãos, enquanto se pratica jardinagem, pode ser um risco, assim como beber leite não pasteurizado ou queijo feito a partir deste mesmo. Assim sendo, o risco de contágio pelo gato é quase nulo, já para não dizer nulo, no caso de gatos de interior alimentados com comida processada. E mesmo que estes estejam infetados, continua a ser pouco provável, com as comuns e adequadas medidas de higiene. Este só poderá ocorrer se houver contacto com as fezes do gato, 1 a 5 dias depois de serem eliminadas. Uma frequente limpeza do tabuleiro, de preferência feito por outra pessoa que não a grávida, elimina este pequeno risco.

Tantas vezes ouço tutores de gatos, que o são pela primeira vez, dizerem que não gostavam deste animal até o terem tido. É verdade. Sendo um animal muito discreto, subtil nas suas manifestações de carinho, só depois de reconhecermos os seus sinais é que passamos a compreender o que nos querem dizer. Não é por acaso que tantos humanos são apaixonados por gatos. E os que não são, muito provavelmente nunca conviveram com nenhum, de uma forma mais íntima. Fica aqui o convite para que se ultrapassem todos os preconceitos e quem ainda não o fez, adote um gato e inicie uma experiência plena de surpresas e completamente gratificante.

Até ao próximo artigo…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.