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Como combater a obesidade felina

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Célia Palma

Oito dicas para controlar o peso do seu gato

O gato, primeiramente silvestre, vivendo por sua conta e risco, iniciou o processo de domesticação em seu próprio benefício. Por essa altura, os humanos haviam passado a viver de forma sedentária, cultivando campos, colhendo os cereais, que armazenavam em áreas cobertas, para consumo próprio ou comércio. Oportunistas, os ratos começaram a viver perto destes celeiros, que lhes forneciam alimento e proteção. Como consequência passaram a reproduzir-se mais, conseguindo um maior número de crias por ninhada e uma maior taxa de sobrevivência das mesmas. Esta proliferação descontrolada tornou-se devastadora para as colheitas.

Logicamente, os gatos descobriram que viver perto das habitações humanas lhes facilitava imenso a difícil tarefa de encontrar o alimento necessário à sua sobrevivência. Os celeiros proporcionavam territórios de caça abundantes e de fácil acesso. Os roedores constituíam a principal fonte alimentar, mas as pequenas aves, atraídas pelos grãos de sementes, também faziam parte da dieta dos primeiros gatos domésticos. Assim sendo, criou-se uma relação de interesse mútuo entre humanos e gatos. Estes mantinham os celeiros livres das pragas de ratos e em troca encontravam conforto e alimento em abundância. Viviam em liberdade, dormitavam grande parte do dia, mas tinham que trabalhar para comer, ou seja, caçar para se alimentar. E quando tinham sucesso, o próprio ato de rasgar a presa, mastigar e triturar os ossos ocupava algum tempo, para além de necessitar de energia para o fazer. Mantinham uma condição corporal adequada, com períodos de abundância , contrabalançados por períodos de escassez.

Aos poucos, os humanos foram-se rendendo aos encantos felinos, permitindo-lhes o acesso ao interior das habitações, oferecendo alimento e conforto. Mas mesmo assim continuavam a vaguear pelo exterior, para caçar e explorar, voltando ao interior para repousar.

Com a evolução da sociedade humana, a expansão das cidades e o alojamento em edifícios altos e sem jardim, a maior parte dos gatos passou a viver confinado a pequenos apartamentos, sem possibilidade de sair para caçar ou simplesmente vaguear pelo exterior. Um animal predador por natureza, habituado a percorrer longas distâncias em busca se alimento, capaz de organizar emboscadas, com paciência infinita para aguardar o melhor momento de ataque, passou a ter alimento adequado às suas necessidades, sem limite de quantidade e conseguido sem o menor esforço. Para além de que, num ambiente pobre em estímulos, a única distração será a de comer… Portanto, sem estimulo físico ou psíquico e comida à descrição, o resultado mais provável será a obesidade. A esterilização e as alterações hormonais que lhe sucedem, também favorecem o aumento de peso. Mas não estou com esta afirmação a defender a não esterilização. Esta deve acontecer, por razões várias, mas a alimentação e o exercício deverão ser adaptados a esta nova condição.

Os tutores de gatos devem apostar na prevenção. É, sem dúvida, mais fácil manter do que perder peso. Assim, o melhor será não o deixar engordar, porque depois de isto acontecer, terá a árdua tarefa de o fazer perder os quilos a mais. Ainda para mais, por razões fisiológicas, o gato deve ter sempre comida à disposição, uma vez que deve ingerir muito pequenas quantidades de comida, várias vezes por dia. Se o tutor está todo o dia fora, impossível será disponibilizar pequenas porções a intervalos regulares. Mas felizmente que existem alguns truques a que poderemos recorrer para ultrapassar a dificuldade que é manter um gato sedentário, no peso ideal:

1. O ideal será adotar dois irmãos da mesma ninhada, independentemente do sexo. Sendo o gato um animal territorial, não gosta de partilhar o seu espaço, tantas vezes exíguo, com outros animais. Mas se forem irmãos, adotados em simultâneo, que se adaptem em parceria ao novo espaço, que partilhem descanso, brincadeiras e higiene, muito provavelmente serão grandes amigos. Havendo companhia, há mais distração e ocupação, assumindo a comida um papel secundário na rotina diária. Adotar um segundo gato, com outro já em casa poderá ser outra opção, mas neste caso a habituação de ambos terá que ser feita de forma gradual e cuidadosa, para não deitar por terra a possibilidade de virem a ser companheiros inseparáveis. O convívio forçado entre animais que não se entendem pode ser um problema gerador de stress e muitas vezes a forma de lidar com a ansiedade passa pela bulimia, com o inevitável aumento de peso.

2. Obrigue o seu gato a trabalhar para comer, colocando a alimentação seca dentro de um dispensador de comida. Estes objetos estão disponíveis nas lojas da especialidade e possibilitam o armazenamento de pequenas quantidades de ração, que irão sendo colocados à disposição do animal, grão a grão, conforme este movimente o dispensador. Existem sob muitas formas e feitios, desde cubos a cilindros, alguns com aromas apelativos, outros com acessórios acoplados que estimulam a brincadeira e a descoberta, outros, ainda, que necessitam da resolução de um problema de dificuldade controlada, para que disponibilizem um pequeno premio alimentício. Mas também podem ser improvisados com objetos que normalmente temos em casa. Garrafas de água, na qual são feitos furos de tamanho suficiente para os grãos da ração, são uma boa alternativa. É retirado o rótulo e introduzida uma porção de ração, pelo gargalo, que se fecha com a tampa. Depois o gato terá que a fazer rebolar, para que os grãos vão saindo, um a um. A água de cozedura de carne ou peixe, desde que não seja condimentada, pode ser congelada em cubos e colocados à disposição do gato, que conseguirá momentos de diversão, perseguindo o saboroso, mas escorregadio, brinquedo, pela casa. O mesmo pode ser feito com comida húmida, resultando num interessante gelado para gato, apresentado sob a mesma forma de cubos ou colocada dentro de um destes dispensadores, próprios para esta textura alimentar. Em alternativa, podemos colocar a comida, todos os dias em sítios diferentes, ou mesmo espalhar pequenas porções por várias zonas da casa. Isto obriga o animal a ter que procurar, utilizando capacidades olfativas que lhe são inatas, resultando num maior dispêndio de energia, para além da estimulação cognitiva e do enriquecimento ambiental que este pequeno e simples truque proporciona.

3. Tal como para o ser humano, o exercício físico é de extrema importância para manter o gato com a condição corporal ideal, para além de tonificar músculos e articulações. Um corpo exercitado é um corpo mais saudável a todos os níveis, tanto física como psicologicamente. Animais mais equilibrados e ocupados, recorrem menos há comida como passatempo ou distração. É verdade que a maior parte dos tutores passam grande parte do dia fora. Mas podem apetrechar a casa com algumas peças de mobiliário pensadas e adaptadas à natureza e curiosidade naturais destes pequenos felinos, que adoram explorar, trepar e observar o mundo de cima. No comércio há “ginásios” para todos os gostos, de tamanhos, cores, texturas e preços variáveis. São objetos que exploram o espaço tridimensional, com plataformas e esconderijos elevados. Muitos têm brinquedos acoplados, coberturas macias e uma área abrasiva para afiar as unhas. Com toda a certeza, com tanta oferta, encontrará a estrutura que melhor se adapta à decoração e às características de cada gato. No entanto, se tiver alguma facilidade para a bricolage e alguma criatividade, poderá desenhar e construir em altura, rampas, prateleiras, esconderijos, plataformas, passagens, observatórios, locais de descanso, zonas de brincadeira ativa e um sem número de possibilidades, que podem ser fruto da imaginação do tutor ou, se este não for muito hábil na criação, pode retirar ideias na internet. Mas mesmo para os que têm pouco tempo, pouco dinheiro, pouca imaginação e pouca paciência para trabalhos manuais, há alternativas. As caixas de cartão são excelentes para proporcionar momentos de brincadeira desenfreada, descanso ou esconderijo. E quando estiverem estragadas… deitam-se fora e arranjam-se novas. Podem ser forradas com mantas macias ou tecidos decorativos, mas uma simples caixa, só por si, é suficientemente interessante para provocar acessos de euforia exploratória e destrutiva, havendo aparas de cartão a voar por todo o lado e a serem freneticamente caçadas.

4. Sempre que possível incentive o gato a brincar. Reserve períodos curtos, ao longo do dia, para interagir com ele, estimulando aquilo que tem de mais felino, que é o instinto da caça. Atire brinquedos com som, papeis de rebuçado, bolinhas feitas com papel metalizado, agite uma “cana de pesca” com penas na ponta, esconda pequenas fantasias de presas e faça-as aparecer e desaparecer subitamente. Mas nunca permita que o gato brinque com as suas mãos. A pele humana é sensível e fica facilmente ferida com os dentes aguçados de um carnívoro. Sempre que as tente mordiscar, pare imediatamente a brincadeira ou ofereça um brinquedo, em alternativa. Também não adianta estar uma semana sem brincar com o gato e depois aproveitar o fim de semana para brincar, durante uma hora ou mais. Este perde rapidamente o interesse e a interação deixa de ser produtiva. O ideal são períodos pequenos, várias vezes por dia. O tempo de duração de cada período é variável e depende da personalidade do gato e do tipo de brinquedo. Este dirá que está farto, não correspondendo ao estimulo ou abandonando, simplesmente, o local. Também a novidade é estimulante. Assim, deverá ter três ou quatro conjuntos de brinquedos, em rotação. Numa base regular, que poderá ser de três em três dias, ou semanalmente, um conjunto guardado troca de lugar com o disponível. Neste momento já existem aplicações para tablets ou telemóveis, que são jogos para gatos. No entanto este tipo de jogo, assim como o lazer, utilizados para a estimular a perseguição da luz, podem ser frustrantes, uma vez que o objeto perseguido nunca é fisicamente alcançado. Há que, de vez em quando, disponibilizar um prémio comestível, quando o gato finaliza o desafio, para que se sinta estimulado a continuar.

5. Dê ao seu gato uma alimentação de qualidade, adaptada ao estilo de vida e condição física. Existem, no mercado, muitas marcas e sabores, de composição e preços variáveis. Deverá escolher a que corresponde às necessidade calóricas e proteicas do animal que tem em casa e com a maior qualidade possível, dentro das suas possibilidades económicas. Um gatinho bebé deverá comer ração com um maior teor calórico, proteico, de cálcio e vitaminas. Se estiver esterilizado, deverá ser-lhe disponibilizada alimentação menos calórica. Animais que não saem à rua, obviamente, despendem menos energia do que aqueles que se passeiam pelas redondezas. Seniores precisam de alimentação com fonte proteica de qualidade, uma vez que o seu teor deve ser reduzido, para além de suplementada com proteção articular e estimulação cognitiva. Se já estiver com excesso de peso, terá que recorrer às variedades Light, ou mesmo dietas especificas para perda de peso, sendo a quantidade disponibilizada rigorosamente controlada e repartida em pequenas refeições, oferecidas várias vezes por dia. Para quem trabalha e passa o dia fora, há a hipótese de deixar a dose diária repartida por pequenas porções, escondidas em locais diferentes todos os dias, ou disponibilizada nos dispensadores de comida que referi anteriormente. Cuidado com os extras! Muitas vezes são estes os responsáveis pelo aumento indesejado de peso. Se os utilizar em treino ou simplesmente para premiar um comportamento desejado, a porção de ração deverá ser proporcionalmente reduzida.

6. Se viver em vivenda, anexo ou andar térreo e se a zona em que habita não for muito movimentada em termos de tráfego, poderá questionar-se se não seria preferível deixar o gato sair à rua. Na sua maioria, ficariam extremamente contentes com essa possibilidade, apesar de haver alguns casos em que o receio do desconhecido poderá condicionar a exploração do exterior. Um gato que caça, trepa árvores, inspeciona, marca e delimita o seu território, comunica com outros seres vivos, é feliz, na sua verdadeira essência felina. Sem dúvida que corre mais riscos, mas se estes forem razoáveis, o valor da liberdade de expressar a sua natureza, é inestimável. E, com toda a certeza, compensa o risco que possa correr. Logicamente se vive ao lado de uma autoestrada ou se o seu vizinho tem um cão que não aceita gatos e as saídas de casa passam inevitavelmente pela invasão do seu espaço, os riscos são demasiados e deixar o gato sair será condená-lo a uma morte certa e prematura. Mas se essa possibilidade for efetivamente viável, então o seu pequeno felino terá uma vida preenchida e será muito menos provável tornar-se obeso. Não adianta tentar compensar esta impossibilidade levando-o a passear à trela. Trelas não são para gatos. Gosta, sem dúvida, de explorar o exterior, mas por sua conta e risco e no seu próprio ritmo. Força-lo a estar completamente exposto, sem possibilidade de fuga, não dá bom resultado. Entrará facilmente em pânico e poderá magoar alguém ou sair seriamente magoado.

7. Treine o seu gato… sim é possível. É um animal inteligente, cognitivamente complexo, e que precisa de ser estimulado para viver feliz. Por ser muito discreto nas suas manifestações de sentimentos, simplificamos erradamente, as sua necessidades, resumindo-as à alimentação, eliminação e conforto. Mas um gato é muito mais que isso. Possui uma estrutura neurológica complexa que faz parte de um todo, desde uma anatomia formidável que lhe permite sobreviver em situações extremas (não é por acaso que se diz que o gato tem 7 vidas), a uma cognição elaborada e que precisa de ser corretamente estimulada. Só uma mente ativa pode resultar num animal saudável. Portanto, se o gato vive confinado a um espaço onde pouco ou nada acontece, o marasmo cerebral transforma-o num potencial depressivo que recorre ao que tem à sua disposição para combater o tédio. Assim, ou dormem em demasia, ou se dedicam a um “grooming” excessivo, ou comem mais do que precisam. O treino, mais do que uma forma de o tornar num “animal de circo”, torna-se num ginásio mental, em que exercita as suas capacidades cognitivas por forma a torná-las mais hábeis. Como resultado, tem uma vida mais ativa e a alimentação assume um papel menos importante. Pode fazer um treino básico de obediência, como o “senta”, “deita”, “dá a pata”, “ursinho”, “rebola”, “morto” Mas quando estes comandos estiverem aprendidos pode aventurar-se por um treino mais elaborado, como ensinar o gato a abrir portas, apagar/acender a luz, ir buscar objetos e muito mais. Dê largas à imaginação e adapte o tipo de treino às características individuais do seu gato. Este tipo de atividade, não só melhora a qualidade de vida do animal, mas ainda estreita laços afetivos entre este e o seu tutor. No geral, as sessões devem ser curtas e com a motivação adequada, que pode variar de aluno para aluno. Para uns, o ideal será um prémio comestível, para outros um carinho e para outros, ainda, uma brincadeira. Mas os benefícios do treino são muitos e são um recurso importantíssimo no enriquecimento ambiental dos nossos gatos urbanos.

8. Reduza o stress ao mínimo possível. Está provado que os gatos sofrem de stress, podendo esta condição afetar várias funções e órgãos. E “stress” nem sempre quer dizer: “dia completamente ocupado, com minutos contados, brigas com o chefe, crianças barulhentas e pouco tempo para descansar”. Quer dizer também: “ absolutamente nada de interessante para fazer, ninguém me dá atenção, dias vazios e sempre iguais”. As suas principais consequências são, sem dúvida, os distúrbios alimentares. A anorexia é uma delas, mas a principal é a bulimia. Excesso de alimentação e pouco exercício resultam em aumento de peso. Existem alguns truques para o reduzir, que passam pela estimulação cognitiva e enriquecimento ambiental, já referidos, mas também pela utilização de feromonas sintéticas, que aumentam a sensação de prazer e bem estar e que podem ser adquiridas no veterinário. A gestão dos recursos básico, como alimentação, local para beber e eliminar também são importantes. O tabuleiro do areão, sem desodorizante, deve estar longe do local onde come e ambos, comida e água, devem estar separados. Deve ter comedouros e bebedouros em mais do que um local, assim como caixas de areia. Se tiver mais do que um gato, o seu número deverá ser igual ao dos mesmos, acrescido de um. No geral, preferem caixas de areia abertas, mas podem habituar-se às fechadas. Dê a possibilidade de escolha.

Estilo de vida moderno, alojamento em pequenos apartamentos, dias inteiros fora de casa, em trabalho, ou atividades lúdicas, levam os humanos a ponderar seriamente antes de adquirirem um animal de estimação. Um gato torna-se, muitas vezes a opção ideal, uma vez que pode satisfazer todas as suas necessidade básicas no interior, sem necessidade de passeios de madrugada ou pela noite dentro, em dias frios ou chuvosos, quando só apetece relaxar e não voltar a sair. E, sem dúvida, revela-se uma excelente companhia, afetuoso, discreto, silencioso, “zen”, pouco exigente, algo independente. Mas não nos podemos deixar enganar pela sua descrição. A partir do momento em que tomamos a decisão de adotar um gato, tornam-nos responsáveis pelo seu bem estar físico e mental. É absoluta responsabilidade do tutor tudo fazer para que este viva de acordo com a sua natureza e para que possa expressar todos os comportamentos que lhe são característicos, acrescentado algumas novidades que ajudem a colmatar as falhas que não podem ser preenchidas neste estilo de vida citadino.

Até ao próximo mês…

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.