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Novo parceiro sexual: atribulações da “primeira vez”

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O primeiro tango nunca é o melhor. Só começa a ser bom ao quarto ou ao quinto, às vezes mais. É preciso tempo. Os corpos precisam de tempo.

Lembras-te da primeira vez?” É uma ocasião mais ou menos memorável eu diria para a maioria das pessoas, aquela que foi a primeira experiência sexual, ou melhor, o primeiro coito. A “primeira relação sexual” é vulgarmente entendida como a primeira vez que é consumado um coito vaginal. Tudo o que se faz antes disso, não é considerado sexo. Mas, então e a mão por baixo do vestido? E aquele toque intencional da outra mão que tão bem sabe ao que vai? E os beijos de olhos fechados como se aquela boca fosse o corpo todo? Isto e muito mais, não é sexo…? Pois claro que é, basta considerar os níveis de excitação que daí vêm.

Mas não é sobre esta primeiríssima vez que estou a pensar. O que pretendo é apontar as vicissitudes da primeira vez com alguém, com um novo e potencial parceiro. A proposta que faço é a de abrir aquele ficheiro erótico chamado “As minhas primeiras vezes”. Alguns lembrar-se-ão de todas, outros apenas de algumas, talvez só das melhores, ou das piores. Se imaginarmos esse ficheiro na forma de álbum de fotografias com legendas e o folhearmos, o que é que encontramos? Pode ser um exercício divertido, ou nem por isso.

Foi bom para ti?

Antes de mais, faço notar que não estou a falar de encontros sexuais isolados, daquela one night stand sem qualquer intenção de se repetir. Estou antes a referir-me àquela “primeira-vez” em que existe a ideia de continuidade. Mas as coisas não são nada lineares, e não raras vezes a relação que se pensava ter continuidade não resiste ao primeiro encontro erótico e uma one night stand resulta numa relação de compromisso. Felizes casualidades e tristes expectativas, há de tudo. A permanente dificuldade com que me deparo todas as vezes que escrevo sobre sexo é que sempre que falamos sobre comportamentos sexuais entramos no Reino da Diversidade, e este mundo é magnífico mas muito difícil escrever sobre ele.

A primeira-vez com alguém, independentemente do tipo de continuidade que se deseja, tem umas componentes que podem fazer dela um momento inesquecível, ou uma ocorrência desastrosa (às vezes, inesquecível de desastrosa que foi). Alguns dizem que foi “mais ou menos”, ou seja, má. Aqui não há “mais ou menos”, ou se gostou ou não se gostou, as razões para se gostar ou não gostar é que podem ser muito diversas. “Foi bom” porque deu prazer, ou “porque EU lhe dei prazer”, porque permitiu conexão emocional, porque foi uma expressão de amor, porque me entreguei, porque ele fez exactamente o que eu gosto, porque ela tem umas mamas e um rabo do outro mundo, porque senti que ele me ama, porque foi espontâneo, porque consegui levá-la para a cama (um troféu), enfim, são alguns exemplos de expressões que tenho ouvido sobre as razões que podemos agrupar em emocionais, relacionais, físicas, ou maquiavélicas, eu diria.

As razões para não se ter gostado da primeira-vez podem ser ainda mais, atrevo-me a dizer. E é assim pelo facto de poderem existir imensos turn off, ou seja, coisas que instantaneamente matam a excitação sexual e o erotismo. “Não foi bom” porque não gostei do cheiro dele, porque ele ejaculou demasiado depressa, porque os preliminares foram insuficientes, porque ela foi muito passiva, porque falava demais, porque falava à bébé, porque não tivemos privacidade, porque o sexo oral foi mau, porque a coisa não fluiu, não houve química, enfim.

Enumerar as razões de gostar ou não gostar, seria como descrever as impressões digitais. A única coisa que há a dizer é que a experiência é única, e cada um tem a sua. E mais, o que é um turn off para uns, pode ser um turn on para outros, por exemplo, falar durante o sexo ou fazer sexo em lugares públicos. Aquilo que é excitante para uns, pode ser inibidor para outros.

O que é que pode estragar tudo?

Poderão intervir algumas variáveis perturbadores que fazem agitar as águas, e vou generalizar para o contexto heterossexual. No caso dos homens, é o receio de não ter uma boa performance sexual, por vezes mesmo um medo de falhar, e o receio de não satisfazer a parceira. No caso delas, o gigante Adamastor é o medo de não ser suficientemente atraente e de não agradar ao parceiro. “Ele gosta do meu corpo?” Enquanto eles se inquietam em silêncio com a pergunta “Ela gostou de estar comigo?”

Outra variável predadora do prazer no primeiro encontro é a expectativa que, pode ser demasiado elevada, ou irreal. Tecem-se fantasias e idealizações alimentadas pelo fogo do desejo e da excitação e depois… catrapuz. Nunca é como se imaginou. Este cenário é mais provável quando se é pouco experiente, e no caso das mulheres mais devotas ao amor romântico (em que ele vem com as flores e as velas e a lareira, etc).

Podemos ainda apontar outra variável que pode atribular essa primeira-vez. O preservativo, esse artificialismo de latex que, apesar de imperativo na primeira vez, pode atrapalhar por duas razões. Uma, porque “corta o momento” como se costuma dizer, obriga a uma paragem que, não só é uma interrupção indesejável, como também pode fazer perigar a função eréctil para os mais ansiosos (e mais idosos). Outra, porque não deixa sentir completamente o corpo do outro, perturba a sensação real da textura e da temperatura do pénis e da vagina.

O que é verdade, é que apesar de ser condição sine qua non na primeira-vez, ainda é elevada a percentagem de comportamentos de risco. Estas razões podem ajudar a explicar o não uso do preservativo, mas há outras. O discurso do prazer não é compatível com o discurso da saúde e do medo. Ou seja, naquele momento impera o discurso do prazer, os protagonistas estão em modo prazer e não querem activar o discurso interno do medo das infeções e das doenças.

Pode ser difícil lidar com uma má primeira-vez. Algumas deixam a promessa intuitiva de poder ser melhor, outras nem por isso. Na maioria das vezes fica tudo envolto num nevoeiro de silêncio, porque não se percebeu bem o que aconteceu, porque não se consegue falar sobre isso. Fica tudo à mercê do não dito e cada um fica entregue a si próprio e faz as interpretações que entender. É difícil falar sobre o que aconteceu, porque o encontro sexual é sempre um encontro íntimo (mesmo quando não se tem intimidade). Os corpos desnudam-se, ficam expostos, trocam-se cheiros, movimentam-se em posturas que expõem. Estão envolvidas altas instâncias do nosso mundo mais privado. Coisas sérias vão a jogo, como a auto-confiança, a masculinidade, a auto-imagem, a auto-estima. Por tudo isto é difícil falar um com o outro sobre o sexo que acabaram de fazer.

Eu diria que o grande factor protector da primeira-vez é a imprevisibilidade, ou seja, é quando não é esperado, quando não era suposto acontecer mas acontece. Não é ser espontâneo, é ser inesperado. Não é a espontaneidade, é a imprevisibilidade. O que é previsível é anti-erótico. O erotismo faz-se da surpresa e do imprevisto.

E não haja ilusões. Não é no nosso álbum das primeiras vezes que encontramos as melhores experiências. Essas vêm depois, com a prática. O primeiro tango nunca é o melhor. Só começa a ser bom ao quarto ou ao quinto, às vezes mais. É preciso tempo. Os corpos precisam de tempo.

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, professora e investigadora no ISPA. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997 como psicoterapeuta. É membro da International Academy of Sex Research, foi presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta, é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar.