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Paulo Mendes Pinto

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CIÊNCIA E RELIGIÃO

Visita guiada ao Templo Ecuménico Universalista de Miranda do Corvo

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É já no dia 11 de Setembro, quando passam 15 anos sobre os atentados de 2001, que inaugura um equipamento que procura ser uma peça dinâmica e significativa na criação de pontes entre as religiões e na difusão de uma cultura de paz

No dia 11 de Setembro, quando passam 15 anos sobre os atentados de 2001, a Fundação ADFP, de Miranda do Corvo, inaugura um equipamento que procura ser uma peça dinâmica e significativa na criação de pontes entre as religiões e na difusão de uma cultura de paz.

Neste texto, a nossa proposta é dar a conhecer um pouco esse espaço único, não só em Portugal, mas no mundo, um lugar onde todos são acolhidos, tratados como iguais, num ambiente onde o conhecimento e a quebra e abandono de todos os preconceitos é a única regra.

O contexto

O Templo Ecuménico Universalista, em Miranda do Corvo, é uma peça que se integra num conjunto mais vasto de realizações da Fundação ADFP: Parque Biológico da Serra da Lousã | Espaço da Mente | Templo Ecuménico Universalista.

Centrada na dimensão mais completa e integradora da Humanidade, para a ADFP apenas há uma forma de conceber a acção com as comunidades humanas: aliando natureza, cultura e espírito, a marca profunda é a da complementaridade complexa da existência.

É neste sentido que se articulam os três espaços que são, desta forma, não isolados, mas complementares:

- Parque Biológico da Serra da Lousã ………. Natureza

- Espaço da Mente …………………………….. Cultura

- Templo Ecuménico Universalista …………... Espírito

Neste conjunto, o Templo faz parte do Trivium: o Parque Biológico da Serra da Lousã que lembra a Igualdade da Vida, o Ecomuseu Espaço da Mente que exige a Liberdade, e o Templo que apela à Fraternidade.

É nesta visão integradora, complexa e holística, que a ADFP trabalha, não apenas nos seus produtos e equipamentos de usufruto mais turístico e de lazer, mas também os aplica aos seus serviços sociais, médicos e educativo, olhando sempre para quem é cuidado através desse complexo que vai muito além do simplesmente fisiológico.

Assim, o conjunto que agora fica terminado com o Templo Ecuménico Universalista é mais que um projecto de lazer para visitas educativas.

Pretende-se, com este tríplice projecto, dar um forte contributo a uma visão mais ecológica da Humanidade, seja na sua relação com a Natureza, com a Cultura, do específico do local ao genérico do global, seja nas questões e nos contextos e pertenças espirituais.

A Humanidade apenas se completa neste triângulo de sentidos, complementaridades e complexidades.

O(s) significado(s)

A construção de um Templo Ecuménico Universalista parte de uma premissa: nada do que é humano nos é estranho, seguindo a frase de Terêncio (séc. II a.E.C.).

É nesta natureza da natureza Humana que este equipamento é um Templo, que é Ecuménico e é ainda Universalista.

E este espaço começa por ser um Templo porque o queremos como um lugar de profundida e de pensamentos e de sentimentos. Um espaço em que o visitante seja transportado para a profundidade do lado criador da sua espécie e, ao messo tempo, para uma relação com a o Criador ou a Criação, se assim os entender.

Não é oração aquilo a que o espaço remete, mas recolhimento na busca dos valores absolutos para cada um. Não é piedade nem crença, mas emancipação no confronto e no contacto com a diversidade que é, para cada um, a Verdade, colocada ao lado de todas as outras Verdades, uma vez que um imenso leque de religiões e espiritualidades estarão presentes num mesmo espaço, sem hierarquias ou valorações.

O «sagrado» deste Templo é a capacidade de cada um se espantar e de criar, de olhar para a realidade e, sem perder nada da sua concepção de sagrado, se centrar no Homem, no que tem feito de bom e de mau em nome de Deus.

E é por esta razão que o Templo é Ecuménico. No sentido primeiro latino da palavra, este Templo recolhe em si, para o dar aos visitantes, a “ecúmena”, o todo, o orbe terreno. É ecuménico, nunca no sentido de fundir as diferenças e buscar alguma coisa de sincrética, mas no sentido em que neste Templo, que é das espiritualidades da Humanidade, Tudo e Todos têm lugar. Até os não crentes, como é natural.

E, por fim, este Templo Ecuménico é Universalista porque nos pretende remeter para um olhar de respeito e de tomada de consciência. Todos os conteúdos, os textos, os signos e os símbolos, todos correspondem a uma dimensão universalista da Humanidade, a uma procura e a um desejo de explicar o Todo, integrando-o.

Naturalmente, e como falamos do ponto de vista da nossa cultura, com o que isso tem de positivo, mas também de castrante, olharemos para o que a “ecúmena” nos trás de experiência de vida em grupos humanos, e teremos pontos dos quais não abdicamos.

Os Direitos Humanos, como ponto de chegada de um caminho em comum de milhares de anos é aquilo que de mais fino, subtil e superior a nossa sociedade criou. É o que nos interessa, na narrativa aqui apresentada, valorizar.

É esta a realidade que é superior às guerras, ás matanças, a tudo o que temos feito em nome de Deus. Não é apenas de belas criações e melhores realizações a que nos referimos neste Templo. Ao longo dos milénios temos matado primorosamente como nenhuma outra espécie.

Na frase de Luther King: “Aprendemos a voar como os pássaros e a nadar como os peixes, mas não aprendemos a conviver como irmãos”. Que este templo seja uma ajuda nesta tomada de consciência.

Descrição e localização

Fisicamente, o espaço ocupado pelo complexo do Templo Ecuménico Universalista organiza-se em três espaços diferentes mas complementares:

- um caminho que ascende desde a entrada do Parque Biológico, e que permite ao visitante percorrer um longo trajecto, ponteado por bancos com frases existencialistas, até ao topo onde se encontra a estrutura do Templo propriamente dito;

- dois trilhos que, desde a entrada, no topo desse caminho ascensional, circundam o edifício piramidal do Templo, levando o visitante a descobrir e a contemplar vária simbologia religiosa de todo o Globo, terminando num grupo concêntrico de sete círculos que representam o aperfeiçoamento e mostram os conceitos religiosos cristãos que representam as maiores dificuldades nesse caminho;

- por fim, o Templo propriamente dito, uma construção piramidal.

O centro do conjunto, o Templo, tem como base um quadrilátero do qual se projecta no zénite uma pirâmide, a construção principal. O Templo localiza-se no meio da floresta, no topo da colina do Parque Biológico da Serra da Lousã, em Miranda do Corvo, com acesso pedonal ou por estradas florestais.

Mas pretende-se que, para quem tenha algum tempo e predisposição introspectiva, a aproximação ao Templo seja gradual, mediante a subida de um percurso pedonal, de reflexão espiritual e filosófic​a, que liga o Parque Biológico da Serra da Lousã ao Templo, a base da colina ao seu topo.

Seja através desta longo caminho pedonal onde o caminhante vai sendo confrontado com frases de filósofos e pensadores, ou de carro, directamente ao Templo, no topo da colina, este é um local onde vamos propositadamente, num gesto de vontade pessoal, na busca da espiritualidade e da Verdade interior de cada um.

A Pirâmide

O edifício central do complexo o Templo, tem uma altura de 13,4 metros, invocando a altura do Templo de Salomão, construído no séc. IX a.E.C., em Jerusalém, por ordem de Salomão. Os cantos estão orientados para os quatro pontos cardinais: norte, sul, este e oeste.

As fachadas têm impresso, em baixo-relêvo, três palavras e três letras maiúsculas: Bondade (M), Moral (R) e Verdade (J), para além do símbolo de um dos monoteísmos abraâmicos, quer em baixo-relevo, quer gravados nos óculos de vidro que transmitem luz ao interior do Templo.

Assim, na face à direita, orientada a SE, existe o “crescente”, símbolo do Islão, lado onde também temos incrustada uma pedra negra definindo a direcção de Meca e lembrando-nos do significado da Caaba nessa religião. Na fachada orientada a SW, no vidro e no betão, vê-se o símbolo judaico, a estrela de David. Na parede virada a NW, observa-se a cruz, símbolo dos cristãos.

A entrada da pirâmide faz-se por uma porta ladeada por uma pequena corrente de água, um deslizamento suave que pretende desafiar quem entra ao gesto de tocar, numa confirmação da sua existência, e implicando a consequente secagem através do ato de esfregar das duas mãos. Constitui um gesto simbólico de limpeza e purificação antes da entrada, simbolismo comum a várias religiões.

Transposta a entrada surge uma nova porta encimada por um triângulo em pedra, com um olho no centro. Esta imagem sugere a figura do Grande Arquitecto do Universo existente nos templos maçónicos. Invoca igualmente a imagem de muitas igrejas católicas dos séculos XVIII e XIX, especialmente a Santíssima Trindade, onde eram frequentes estas representações de Deus - a vizinha Igreja de Condeixa-a-velha é um exemplo em que podemos encontrar o triângulo com o olho, instalado no altar principal.

No interior temos um espaço circular, invocando uma das possíveis formas de reunião das comunidades, tenham sido religiosas, ou não. Trata-se de um espaço cilíndrico rematado, no seu topo, por uma abobada de calote esférica. No topo zenital, uma estrela de nove pontas, o maior algarismo (usado como símbolo do babismo), e que nos remete para a Fé Bahá’í, de onde cai, como se de um fio-de-prumo se tratasse, um candeeiro com luz. Toda a abóbada em cor azul sugere o céu com pequenas estrelas a deixarem passar a luz.

Na direcção Sul, um rasgo permite que, diariamente, ao meio-dia solar, o Sol crie um ponteiro de luz a iluminar/indicar o centro do Templo. É uma referência aos antigos adoradores do Sol, provavelmente uma das mais primitivas formas de religiosidade, mantida, mesmo que sem dar por ela, em quase todas as religiões actuais.

No pavimento está desenhado um quadrado com um labirinto em calçada portuguesa, a preto e branco. Este quadrado tem de lado 5m, remetendo-nos para a dimensão do Santo dos Santos do Templo de Salomão. O labirinto, esse, como que plagia representações dos Templários, nomeadamente nas Catedrais de Chartes e Amiens, sugerindo uma reflexão sobre a nossa vida e a procura da Verdade. É também o tópico da mitologia grega representado no mais famoso mosaico da vizinha Conimbriga.

No centro, um paralelepípedo de pedra de granito polido serve de suporte a uma rocha bruta em estado natural, invocando a principal metáfora da maçonaria e que nos remete para a imagem de construção que é cada um: o trabalho da pedra bruta que somos até se conseguir a pedra polida e geometricamente perfeita que desejamos ser. Simbolicamente, o paralelepípedo tem as dimensões de 1,11m x 0,666m a possível medida da Arca da Santa Aliança, peça que faz parte do nosso imaginário colectivo.

As referências ao Templo de Salomão devem-se ao facto de esta construção ter ficado no nosso património comum como uma das marcas mais vincadas da afirmação do monoteísmo, com a construção de um templo dedicado a uma única divindade.

A escolha da forma piramidal é uma homenagem arquitectónica ao Egipto Antigo, á sua sabedoria e conhecimento, a todo o património que cultural e religiosamente o Mundo Clássico lá foi buscar, e do qual somos herdeiros. Tal como nas pirâmides do Planalto de Guiza, especialmente a mais conhecida, a de Keops, o Templo tem várias relações entre medidas que assentam no Φ (fi), a proporção áurea.

Esta sala espiritual não é espaço de imposição de uma Verdade, muito menos de uma Religião. É um local de liberdade e libertação através do livre exame e livre interpretação dos símbolos e alusões. Tal como a pedra bruta sugere a necessidade de um aperfeiçoamento pessoal, também aqui, pela oposição desta á pedra polida, somos levados ao binómio, à tensão de uma humanidade imperfeita dividida nas diferenças e intolerância, cada vez mais radicalizada.

O que se deseja é que cada visitante se transforme num leitor único do espaço, fazendo a sua invocação, oração, ou simplesmente marcando o tempo com o seu silêncio. Sobretudo, que reflita sobre si e sobre a humanidade. Neste Templo a mensagem é não-mensagem, é apelo à individualidade no que ela tem de comum com o Humanismo. Isto é, tudo simples pista para que cada indivíduo encontre o seu Caminho, como sugere o labirinto ou as irregularidades das voltas da espiral.

E é nesse sentido que, ainda na pirâmide, mas no espaço entre as paredes exteriores e o espaço central, cilíndrico, devemos fazer um percurso que designamos de Observatório de Religiões. Seguindo um misto cronológico e geográfico, apresentamos um vasto grupo de posicionamentos, de tradições de relação com o transcendente. São, mais que religiões ou filosofias e espiritualidades, cosmovisões, pois colocam o Homem no mundo através de uma relação.

O objectivo é o de colocar estas cosmovisões ao cesso de todos os visitantes, de forma neutral, imparcial, despida de preconceitos. Cada “religião” é apresentada nas suas principais características, quer através de um esquema simplificado que num olhar transmite algumas informações sumárias, quer através de um texto mais longo que detalha e informa o visitante mais interessado.

Ao mesmo tempo, na parede exterior do cilindro central, está exposta uma cronologia comparada da história mundial das religiões.

Depois desta apresentação, que constitui um minicurso intensivo sobre religiões, mostramos um conjunto de acontecimentos, guerras e conflitos, que mostram a barbárie que pode ser criada pela intolerância assente em preconceitos culturais e religiosos. Terminamos o caminho pelas “religiões” com as barbáries que em nome de Deus ou de um qualquer ente divino e superior se têm cometido ao longo dos séculos.

Numa sociedade de medo e onde o terrorismo tomou conta de muitos dos nossos receios, este percurso de conhecimento sobre “religiões” também é o mote para nos inquietar e nos levar, nos obrigar, a uma posição mais activa pela Paz e pelo Diálogo.

Não se pretende originar um sincretismo religioso ou promover um cocktail de religiões. Desejamos que as religiões existentes actuem de acordo com a sua Verdade promovendo um mundo melhor, assente no diálogo inter-religioso e no primado dos valores humanistas.

Desejamos que cada religião contribua com a sua orientação moral, para a paz da humanidade, sem esquecer o meio ambiente e a natureza.

O Exterior

O exterior do Templo apresenta duas características e funções. Por um lado, pretende-se mostrar aos visitantes elementos caracterizadores de algumas religiões e tradições, sejam símbolos ou imagens, ou sejam frases significativas. Por outro lado, queremos fazer tudo isto, não apenas como forma de transmitir conhecimento, mas como meio de criar uma vivenciação própria. Percorrer os trilhos, escadarias e pátios exteriores é realizar um “caminho”. E é um Caminho porque nos interpela, nos questiona, nos leva a interrogar.

E esta noção de caminho começa na ligação pedonal entre o Parque Biológico e o Templo. Trata-se de um percurso difícil pela inclinação, com uma significativa extensão, ponteada por bancos onde teremos frases de célebres pensadores. Frases que nos questionam, que nos obrigam, no meio de um caminho solitário, a reflectir e a criar intensidades interiores.

O exterior do Templo, se bem que dentro do recinto, é marcado por vários espaços e caminhos, todos com a função de levarem o visitante a um percurso em torno de tradições religiosas e de princípios e valores que despertem o sentido humanista.

A entrada no recinto é feita por um portão entre duas colunas de pedra, delimitando a entrada como se de um espaço sagrado fosse. De cada lado uma parede com uma frase:

A Paz é a nossa aspiração, o amor a nossa revelação.

É no teu coração que descobres o caminho para a sabedoria e a compaixão.

Transposto o portão sobressai uma escadaria orientada para a entrada da pirâmide e dois percursos pedonais, um pela esquerda e outro pela direita, permitindo acessibilidade a pessoas com limitações motoras. O visitante escolhe qual dos três caminhos fazer, ou qual a ordem pela qual os fará.

Seguindo o caminho central, a escadaria, facilmente o visitante vai perceber que ela se organiza em lances de 3, 5 e 7 e 9 degraus, usando os números mais simbólicos nas tradições espirituais e místicas ocidentais.

Próximo, à direita de quem sobe, um cubo em pedra com uma bola, também ela em pedra, a girar sobre água. No cubo lê-se: contudo ela move-se; a célebre frase atribuída a Galileu no final do seu julgamento na Inquisição - em 1616, precisamente há 400 anos, Galileu Galilei foi proibido pela Inquisição de defender que a Terra se movia em redor do Sol. Em 1633 foi condenado a prisão perpétua, tendo escapado à morte por ter negociado e aceite, perante esse tribunal religioso, que estava errado. Á saída do tribunal do Santo Ofício terá exclamado: Eppur si muove.

A presença de Galileu tem como objectivo recordar o positivismo científico e afirmar simbolicamente que nenhuma crença, nenhuma fé, incluindo as certezas científicas, pode silenciar ou travar a permanente busca da verdade pela ciência.

A escadaria desagua num espaço rectangular, remetendo-nos novamente para as proporções atribuídas ao Templo de Salomão. O pavimento é em calçada, numa xadrez branco e negro, remetendo-nos para o típico chão dos Templos maçónicos que representam a luz e as trevas sobre as quais constantemente nos movemos. Lateralmente tem 15 bancos, sete a poente e oito a nascente, como que desafiando que a complexidade de “religiões” presentes no interior do templo aqui se pudessem sentar, a discutir fraternalmente.

Em três dos cantos, temos outras tantas colunas de pedra, cada uma de seu estilo arquitetónico clássico: ordem jónica, coríntia e dórica. Este espaço tem uma composição que lembra os templos maçónicos, representando as três colunas: a Força, a Beleza e a Sabedoria, padrões do debate e dos trabalhos tidos nesse espaço.

De facto, é a ideia de debate que trazemos a este pátio quadriculado. Este espaço representa o apelo do Papa Bento XVI (ainda vivo, e que é aqui homenageado) ao diálogo inter-religioso aberto a ateus e agnósticos. Inicialmente o diálogo ecuménico foi circunscrito aos cristãos e às suas diferentes denominações. O Papa Bento XVI veio posteriormente dar a designação de Pátio dos gentios, recuperando o nome do pátio que no Templo de Jerusalém era aberto a todos.

Este espaço é, também, uma herança da agora das cidades gregas, onde todos tinham o dever de dialogar, de defender ideias, de imaginar utopias, sempre com respeito pelas diferentes visões dos outros.

No percurso pedonal da esquerda encontramos, gravado no solo, um espaço com os símbolos tauistas. Pouco à frente, temos uma imagem de Buda. Antes de chegar ao topo, um pequeno roseiral lembra-nos os ideias do rosacrucianismo. Mias à frente, já lateralmente em relação ao Templo, surge um queimador velas, peça construída em betão, e cuja estrutura simula duas mãos erguidas em prece.

No percurso à direita encontramos três rochas com uma escultura que lembra o deus Endovélico dos Lusitanos, remetendo-nos para o mundo politeísta, mas também para os fenómenos indígenas no seu confronto com as hegemonias religiosas, neste caso, a latina. Segue-se um altar hindu com três divindades, Brahma, Vishnu e Shiva. A seguir, teremos a Mesa da Igualdade dos Shiks, mas que também é a Távola Redonda das tradições da Bretanha e, ainda, a mesa com os 13 lugares onde Jesus fez a sua Última Ceia. É a imagem da partilha, a refeição onde todos são iguais e se é indiferente às classes sociais.

No ponto de cruzamento dos dois caminhos com a escadaria, acima do Páteo dos Gentios, um largo degrau tem gravada a palavra PAZ escrita em 13 línguas.

Por fim, já à cota do Templo, em frente à fachada principal, orientada a Este, uma cruz templária, de braços iguais, recortada em negativo/vazio, abrindo uma janela na parede branca. Esta cruz simboliza a necessidade de abrir passagens nos muros que separam os homens ou fronteiras. O que aqui interessa é o negativo do símbolo que, longe de definir, é uma abertura.

Esta cruz recorda, também, que estamos num território de maioria e de grande tradição cristã que, graças ao laicismo, tolera a liberdade de se construir um Templo aberto a todas as formas de espiritualidade ou sagrado pessoal. A cor da parede lembra-nos cruz branca do hino dos Hospitalários: Avé Cruz Branca.

Assumindo plenamente as heranças heterodoxas, orientada a norte, temos a bandeira de Portugal num mastro com 15,24 m, a altura da Caaba, homenagem à religião que foi maioritária neste mesmo território por quase meio milénio.

Ao redor da pirâmide temos um caminho delineado no chão. Pretendendo-se que o visitante não entre directamente no Templo, mas sim que o faça através da espiral que neste desenho circunda o Templo por 7 vezes, exactamente o mesmo número de voltas que o crente faz na Peregrinação a Meca em torno da Caaba.

O piso desta espiral vai tornando-se mais regular em cada volta, partindo do grosso calhau rolado até ao paralelepípedo em calcário branco. Sugere-se que, em cada percurso que fazemos na vida, e dificuldade que enfrentamos, ficamos mais fortes e com um caminho mais facilitado para a perfeição pessoal.

Neste percurso, inscrito em pedras no pavimento, aparecem os sete Pecados Mortais, que aqui representam as dificuldades, as armadilhas, mesmo, que nos afastam da inatingível perfeição pessoal.

Paulo Mendes Pinto

Paulo Mendes Pinto

CIÊNCIA E RELIGIÃO

Coordenador da área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona; Director do Instituto Al-Muhaidib de Estudos Islâmicos