Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

21 dicas para perceber se o seu animal está a precisar de cuidados do veterinário

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

Como saber se o seu animal está doente

Como tutores responsáveis perguntamo-nos muitas vezes se seremos capazes de reconhecer os sinais de doença no nosso animal de estimação. Sobretudo se somos novos tutores e não estamos muito familiarizados com aquilo que é normal, poderá ser difícil reconhecer que o cão ou gato está efetivamente a precisar de ajuda médica. Como veterinária o meu conselhos será: na dúvida, mais vale pecar por excesso. Quantas vezes me aparecem, na consulta, tutores um pouco atrapalhados, pedindo desculpa pelo excesso de zelo e na dúvida se realmente seria necessária aquela vista. Tento sempre mostrar a minha compreensão e solidariedade com a sua preocupação, referindo que é preferível vir à consulta e não ser nada de grave, do que vir demasiado tarde. Outras vezes (infelizmente demasiadas), os animais são trazidos à clinica num estado de doença grave, tornando muito mais difícil uma intervenção médica com sucesso. Dou por mim a pensar como tudo seria mais simples se o doente me tivesse chegado algum tempo antes. E depois, quando não conseguimos ajudar, quando a morte acontece, o tutor vive um desgosto culposo, que tentará apaziguar canalizando responsabilidades para o profissional que não conseguiu evitar tão triste desfecho. Inevitavelmente todas as partes saem lesadas: o animal que perdeu a vida, muitas vezes precocemente; a família humana que sente uma perda real, um desgosto muitas vezes incompreendido por amigos e conhecidos, para além de um desgastante sentimento de culpa e impotência; o veterinário que vive momentos de intenso desgaste profissional, emocional e de interrogação vocacional; a relação médico/família ficará para sempre afetada, muitas vezes definitivamente quebrada, uma vez que se desfez o elo de confiança, não só pela circunstância em si, como pelas palavras impensadas tantas vezes proferidas.

Pois bem… o melhor será mesmo reconhecer atempadamente ténues sinais de doença e intervir a tempo…

O GATO

O gato é um animal subtil, mestre da ilusão, capaz de camuflar eficazmente sentimentos, preferências, sofrimento e medos. Por ser tão discreto torna-se ainda mais difícil reconhecer sinais e por ele têm os tutores que estar ainda mais atentos. É um animal caçador, mas também ele presa, no estado selvagem. Portanto hábil a esconder as suas fragilidades. Se se sentir doente, tentará ocultar esse facto, escondendo-se em qualquer armário, debaixo de uma cama ou no quintal do vizinho, se lhe for permitido sair á rua.

O CÃO

Mais óbvio nos sinais que nos dá, talvez por toda a sua linguagem nos ser mais familiar, o cão oferece-nos facilmente comportamentos que indicam que algo se passa com a sua saúde. Mas mesmo assim teremos que estar atentos e vigilantes.

Aprendi com o tempo a valorizar as preocupações do tutor, mesmo quando, no exame clinico, nada nos faz crer que se passe algo de errado. Na grande maioria dos casos as suas suspeitas estavam certas. O que será normal se houver uma forte ligação entre ambos. O tutor, melhor que ninguém, conhece o seu amigo e reconhece quando algo está errado, mesmo que os sinais sejam ambíguos ou subtis.

SINAIS A VALORIZAR

1 - Mudanças drásticas no apetite, ou preferências alimentares. A quantidade de alimento ingerido pode variar com a idade, estado reprodutivo, sexo ou época do ano. No verão comem menos, porque as necessidades energéticas despendidas na manutenção da temperatura corporal são menores, assim como, se estiver demasiado calor, se tornam mais preguiçosos e desenvolvem menos atividade física. Consequentemente precisam de menor quantidade de alimento. Também comem menos quando terminam o crescimento, uma vez que, durante esta etapa, grande parte da energia ingerida diariamente será utilizada na formação de massa corporal. Mas se começam a comer menos, ou mais, sem motivo aparente, acompanhado ou não de perda de peso, devemos agendar consulta, sem demora. A maior parte das doenças infeciosas provoca perda de apetite. Mas a diabetes e o hipertiroidismo felino provocam aumento do mesmo, acompanhado por perda de peso.

2 - Aumento da quantidade de água ingerida. Sem dúvida, também este fator pode estar condicionado pela temperatura ambiente, quantidade de exercício e teor de sal na dieta. Mas um aumento permanente, muitas vezes acompanhado de aumento da quantidade de urina produzida, pode ser sintoma de diabetes, insuficiência renal ou infeção uterina.

3 - Mudanças na quantidade de urina produzidas. O seu aumento está normalmente associado a uma maior ingestão de água. No caso dos gatos, os tutores começam a notar que a caixa de areia tem que ser mudada com maior frequência, apesar de terem mantido a qualidade e quantidade de substrato utilizado. Nos cães, muitos começam a urinar em casa, quando não o faziam antes e a urina é bastante insípida, muito clara e sem o odor característico. Também a diminuição pode ser problemática, sobretudo se acompanhada de aumento no número de vezes que o animal visita a caixa de areia, seguindo-se da limpeza compulsiva da zona genital, no caso felino, ou se adota a típica posição de eliminação, mas sem sucesso ou eliminando poucas gotas, no caso dos cães. A não emissão de urina por mais de 24 horas é grave e deve obrigar a visita urgente ao veterinário.

4 - Mudança brusca no local de eliminação. Se o gato começa a urinar fora da caixa de areia, podendo a urina ter ou não vestígios de sangue, será importante agendar uma consulta. Sem dúvida muitos machos inteiros, adultos, (assim como um número mais reduzido de fêmeas) marcam território. A maioria das vezes só o fazem a partir da puberdade. Mas se sempre eliminou no local indicado e começa subitamente a urinar por todo o lado, é importante verificar se não está com uma doença do trato urinário inferior. As causas são múltiplas e deverão ser investigadas pelo veterinário. No caso dos cães, a questão não se coloca com a caixa de areia, mas a dificuldade em urinar, sangue na urina, eliminar em casa quando nunca o fez, são motivo para preocupação.

5 - Mudanças na cor da urina. Amarelo fluorescente ou laranja, podem indicar icterícia, sobretudo se as mucosas e a pele estiverem amareladas. É frequente em gatos com parasitas do sangue, transmitidos pelas pulgas, ou depois de jejum prolongado. No caso dos cães, aparece na leptospirose, febre da carraças, patologias hepáticas, entre outras. Deve sempre procurar um veterinário para investigar a causa da doença e tratar.

6 - Emagrecimento sem restrição calórica. Devido ao sedentarismo, esterilização e excesso de alimentação, muito gatos e cães são obesos. Se começam a perder peso sem terem iniciado dieta, ou mudado o estilo de vida, há motivo para preocupação. Mesmo que o animal pareça bem de saúde, deverá jogar pelo seguro e fazer um check-up médico.

7 - Vómitos repetidos, acompanhados de perda de apetite e prostração. Os gatos e os cães são animais de “vómito fácil”. Os primeiros porque engolem muito pelo no “grooming” natural e os segundos pela indiscrição alimentar. Um ou dois episódios de vómito, acompanhados de disposição e apetite normais, não são preocupantes. No entanto, vários episódios repetidos, podem provocar desidratação e se forem acompanhados de alterações no comportamento habitual, como pouca vontade de brincar, passear ou comer, são motivo para visita á clinica veterinária.

8 - Diarreia repetida, sobretudo se acompanhada de prostração. Na maioria das vezes os vómitos e a diarreia andam a par. Nestes casos o risco de desidratação é ainda maior. Mais uma vez se, mesmo que em conjunto, os sintomas sejam esporádicos e sem perda de apetite, vale a pena ficar vigilante, mas aguardar. Se o animal estiver prostrado, sem apetite e sem vontade de brincar, o melhor será ir à consulta. Por vezes as fezes poderão ser acompanhadas de sangue vivo ou já oxidado e portanto escuro. No primeiro caso, a origem do sangramento será a parte terminal do intestino (cólon) e poderá ser um acontecimento esporádico, sem consequências, relacionado com inflamação ou colite, por indiscrição alimentar. Não será importante desde que não seja persistente ou recorrente e que o animal esteja bem disposto e esteja vacinado com o plano habitual de protocolo vacinal. O sangue oxidado poderá ser problemático e deve ser causa suficiente para consulta.

9 - Alterações comportamentais e mudanças de hábitos de rotina. Num animal que se torna inexplicavelmente agressivo ou mais irascível, ou que, pelo contrario, fica mais permissivo, apático ou sedentário, devemos investigar se uma dor aguda ou crónica, ou mesmo um distúrbio hormonal não estará por detrás destas alterações de atitude. O envelhecimento físico é naturalmente acompanhado do inevitável envelhecimento cerebral e como consequência da demência vêm as mudanças de hábitos de rotina. Animais que mudam rotinas de uma vida, que desaprendem hábitos de sempre, que trocam os ritmos diários de descanso/alerta, podem estar a sofrer de demência. Apesar de ser uma doença crónica, existem suplementos alimentares e fármacos que podem retardar a sua evolução. Terá que ser o veterinário avaliar cada caso e a decidir qual o mais indicado para o seu amigo.

10 - Alterações dermatológicas. Falhas na pelagem, feridas, prurido intenso e descamação, são as principais manifestações cutâneas de doenças que podem ter localização em qualquer órgão ou sistema, mas cujos sintomas superficiais são os mais evidentes. Como primeira abordagem a um problema dermatológico de pouca gravidade poderemos, começar pela desparasitação externa e escovagem minuciosa, para observar cuidadosamente a pele, verificar extensão e localização das lesões e descartar a presença de parasitas externos. As escovagem retira pelo morto e promove o arejamento, ambos benéficos para a saúde cutânea. Se estas medidas não aliviarem sintomas, está na hora de procurar ajuda profissional.

11 - Prurido auricular. As otite aparecem com alguma frequência e podem ser muito incómodas ou até mesmo dolorosas. Cera muito escura, corrimento purulento, prurido intenso localizado na zona das orelhas, inclinação da cabeça para um dos lados e andar em circulo, são alguns dos sintomas que acompanham afeções dos ouvidos. A inclinação súbita da cabeça para um dos lados, acompanhada de dor intensa ao toque, depois de um passeio no campo, pode significar a presença de um corpo estranho perfurante (uma pragana, por exemplo). É urgente que seja retirado, para prevenir a perfuração do tímpano.

12 - Convulsões, perdas de consciência, incapacidade para coordenar os movimentos e cegueira súbita. São sintomas urgentes, que devem condicionar a ida rápida a um hospital veterinário. Nem todos os veterinários trabalham em hospital. Se a clinica onde habitualmente vai não tem urgências, há hospitais espalhados um pouco por todo o país que estão abertos 24 horas por dia, 365 dias por semana, para atenderem casos urgentes.

13 - Tosse seca compulsiva, acompanhada ou não de vómito espumoso. A tosse pode ser sinal de afeção da árvore respiratória, mas também de doença cardíaca. Só alguns exames específicos poderão identificar a causa e atribuir tratamento curativo ou paliativo.

14 - Tosse produtiva, acompanhada de espirros e corrimento nasal ou ocular. Sim, os animais também se constipam, sobretudo nas mudanças de estação. Os gatos, especialmente, são sensíveis a infeções do trato respiratório e como estas são muitas vezes acompanhadas de perda ou diminuição na capacidade olfativa, os animais comem mal ou não comem de todo. Se não conseguirem cheirar a comida, não comem.

15 - Corrimento vaginal. Descarga vaginal sanguinolenta ou amarelo/esverdeada, sobretudo se ocorrer 1 a 2 meses depois do cio, é motivo para consulta urgente. As infeções uterinas podem ser acompanhadas deste sintoma e quanto mais cedo tratadas maior a probabilidade de cura. As candidíases também podem justificar corrimento vaginal esbranquiçado e prurido genital. Menos graves mas incómodas, requerem tratamento. Os cães machos podem ter candidíases no prepúcio e apresentar um corrimento semelhante.

16 - Nódulos, tumores, quistos, alterações de espessuras e pigmentação. Todas estas formações devem ser investigadas. Se foram de aparecimento súbito, pode-se esperar uns dias para ver qual o comportamento das mesmas. Muitas delas desaparecem gradualmente. Mas se persistirem para além do razoável (1 ou 2 semanas) ou se aumentarem de tamanho em vez de diminuírem, devemos consultar o veterinário, que investigará a origem das mesmas, através de análise citológica, biópsia ou histopatologia. Aqui, mais uma vez, deveremos pecar por excesso. Felizmente que uma grande percentagem de lesões deste tipo não são tumorais. Mas deveremos sempre confirmar, para que, se se verificar o pior cenário, estejamos a tempo de ter sucesso na cura ou remissão da doença. Quanto mais cedo se atuar, maior a probabilidade de cura.

17 - Alterações na locomoção. Dificuldade em se levantar, claudicação, mesmo que não seja constante, assimetria da coluna ou dos membros, dor à palpação óssea, inchaço permanente de uma articulação, são motivo para recorrer à consulta. Artrites, artroses, luxações, fraturas, displasias, são doenças que requerem tratamento preventivo, curativo, paliativo ou combinação de dois ou três. Depois de ser avaliada radiograficamente a gravidade da doença o veterinário decidirá qual o melhor tratamento a instituir.

18 - Intolerância ao exercício. Se o animal se cansa mais a fazer o mesmo tipo de esforço físico, se fica com a língua arroxeada e se recusa a sair, quando antes adorava passear, pode estar a sofrer de doença cardíaca ou respiratória. Caberá ao veterinário o diagnóstico e a instituição do tratamento.

19 - Parasitas nas fezes ou na superfície da pele. De uma forma bastante generalista, as lombrigas assumem a forma de fios ou de massa esparguete, muitas vezes em rolo tipo novelo de lã. As ténias aparecem em segmentos, parecendo bagos de arroz. As pulgas são rápidas e difíceis de apanhar. As carraças estão agarradas e parecem pequenos crustáceos, no caso dos machos ou pequenas bolhas cinzentas, cheias de sangue, no caso das fêmeas. As parasitoses podem afetar o ser humano e só o veterinário poderá definir qual a melhor estratégia de tratamento.

20 - Dilatação abdominal súbita. Várias doenças podem causar distensão do abdómen e a sua origem deve ser investigada, porque muitas vezes são de prognóstico grave.

21 - Fotofobia e corrimento ocular purulento. Afeções oculares que impossibilitam o animal de encarar a luz, muitas vezes com prurido e desconforto, devem ser corretamente investigadas. As úlceras da córnea são graves e podem causar perda total da visão.

Sem querer ser alarmista, espero que este artigo ajude um pouco na decisão de visitar o veterinário, capacitado, ele sim, para avaliar a gravidade dos sintomas que o seu amigo apresenta. Tutores responsáveis são tutores atentos, que, por o serem, detetam, precocemente, qualquer sinal de que algo se passa com o seu cão ou gato.

Até ao próximo artigo.

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.