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17 dicas para compreender o seu gato

Bolsa de Especialistas

Célia Palma

Sinais para decifrar aquilo que o animal lhe quer dizer

Quem disfruta da companhia de um gato sabe o quanto é difícil compreender aquilo que realmente nos quer transmitir. Erros de comunicação são a principal razão porque ouvimos tantas pessoas afirmarem a sua antipatia por tão místico e enigmático animal. São apelidados de “falsos”, “interesseiros” e “egocêntricos”, sem “vinculo” com os tutores, só o criando em relação ao território, “individualistas”, não gostando de partilhar com os seus semelhantes. No entanto, estes humanos estão redondamente enganados. Não podiam estar mais errados. Tais adjetivos poder-se-ão atribuir a alguns humanos, mas não a um animal, cuja sobrevivência não se rege por tais sentimentos medíocres. O gato é um animal nobre, de inteligência inegável, dono de uma intricada psicologia, sensível a muitos fatores ambientais e físicos. Talvez pela sua domesticação recente, ou simplesmente pela sua verdadeira natureza, não moldou o seu comportamento aos interesses dos humanos. Manteve-se fiel à sua essência e a falta de algum dos recursos que considera indispensáveis podem traduzir-se em frustração, stresse, e distúrbios de comportamento. Como tutores cabe-nos a difícil missão de corresponder às espectativas do gato, proporcionar-lhe uma vida plena de experiências positivas e permitir-lhe, dentro do possível, manifestar os comportamentos normais da espécie. Herdamos este dever dos nossos antepassados, quando resolveram domesticar o gato silvestre para seu próprio beneficio. Tornamo-nos nesse momento responsáveis pela sua vida, guardiões do seu bem estar. Mas como satisfazer um animal tão discreto nas suas emoções, tão subtil no seu sofrimento, tão ambíguo na sua linguagem. Espero que este artigo ajude a deslindar um dos segredos mais bem escondidos do mundo animal: a linguagem do GATO.

A comunicação entre gatos envolve três formas principais: expressão vocal, a postura corporal e marcas visuais ou olfativas. A comunicação entre o gato e outra espécie, como a humana, é mais complicada, uma vez que espécies diferentes não têm a habilidade inata para uma comunicação com entendimento mútuo. No entanto, os humanos podem aprender vários sinais de comunicação dos felinos, sendo assim possível o entendimento entre ambos.

COMUNICAÇÃO VOCAL

A comunicação vocal pode transmitir mensagens gerais. Servem para afastar outros gatos do seu território, atrair fêmeas em cio, ou ainda como chamamento das crias para a mãe e vice-versa. No entanto, o convívio com os humanos levou a que os gatos passassem a utilizar este recurso para comunicarem também com os tutores, uma vez que compreenderam que quando o faziam algo de positivo acontecia, como disponibilização de alimento, afagos, permissão para a aceder a locais fechados, etc… Alguns destes sons são produzidos com a boca fechada e outros com a boca aberta.

1 - O “ronronar” é um dos sons produzidos com a boca fechada. É percetível a partir dos dois dias de idade. Nos primeiros tempos é composto por uma única sílaba, que se vai desdobrando em várias, à medida que o gatinho cresce. A mãe ronrona quando se aproxima dos filhotes, para os alimentar e estes, na sua presença, só deixam de ronronar quando estão a mamar ou quando dormem. O gato adulto pode ronronar em quase todas as situações, inclusivamente em caso de sofrimento, angustia ou até morte. O ato de emitir tais sons liberta endorfinas, que nestas situações criticas podem devolver ao animal alguma sensação de conforto. Mas no geral este tipo de vocalização está associada a manifestações de prazer. Antropomorfizando um pouco, pode ser comparado ao sorriso humano. Assim como as pessoas sorriem quando estão felizes ou desejam alguma coisa, os gatos também tendem a ronronar nessas situações. Muitas vezes acompanha o “amassar” superfícies macias, com as patas anteriores. Este comportamento pode ocorrer tanto na presença como na ausência do tutor. É, sem dúvida, um atitude que mimetiza o comportamento materno-filial de alimentação. Algumas opiniões defendem que este “amassar “ só ocorre em animais desmamados precocemente. No entanto, não partilho desta opinião, uma vez que já a constatei inúmeras vezes em gatos que ficaram a viver com a mãe até à idade adulta, alguns deles amamentados até muito tarde. Mais me parece que os gatos mantêm com o tutor uma eterna relação mãe/filho, não abandonando o comportamento juvenil.

2 - O “rosnar” é um sinal de aviso e ocorre durante uma exalação lenta e constante. É uma das formas de comunicação vocal, em que o som é emitido de boca aberta e expressa um estado emocional intenso. O principal objetivo será o de afastar um perigo ou uma ameaça. Os gatinhos jovens podem emitir este ruido, sobretudo em disputas alimentares com os irmãos. Os gatos adultos utilizam este recurso para intimidar potenciais agressores ou invasores de território. Pretende impor uma distância de segurança entre ambas as partes. Podem fazê-lo também com os humanos, exatamente com os mesmos objetivos.

3 - O “bufar” pretende sobretudo surpreender o inimigo. O gato utiliza este tipo de comunicação para afastar potenciais ameaças e é normalmente acompanhada de posturas corporais de evitação. No contexto familiar pode ocorrer em situações em que o animal quer terminar por ali o contacto físico, no caso de dor ou desconforto súbito ou na presença de algum humanos ou animal que o intimide. Se lhe for permitido, seguir-se-á a fuga para um local seguro. Se o animal recorrer ao “rosnar” ou ao “bufar”, a melhor atitude do seu tutor será a de evitar o conflito, para sua própria segurança. Permita ao gato refugiar-se e depois, calmamente espere que este venha ao seu encontro. Não lute com um gato em qualquer um destes estados emocionais. Ambas as partes sairão a perder. O animal só ataca se a isso for obrigado, porque na sua perspetiva está em perigo real.

4 - O “choro”, tão parecido com o choro real do bebé humano, tem por objetivo atrair algo desejado. Poderá ser emitido por uma gata em cio, para atrair machos, ou pelo próprio macho para atrair a fêmea. Ocorre também em situação familiar, quando o gato se sente sozinho e quer chamar o tutor ou outro animal para junto de si. É de intensidade alta e o gato parece estar em sofrimento, sem efetivamente o estar.

5 - O “arrulhar” é um ruido curioso, em que o gato emite umas pequenas vibrações de baixa intensidade, acompanhadas pelo movimento do bigodes ligeiramente para a frente e da dilatação e contração alternadas da pupila. Representa um estado de completa concentração em algo muito interessante para o gato, como por exemplo uma presa.

Há raças e indivíduos que vocalizam mais que outros. A convivência com os humanos, apetrechou o gato com novas tonalidades, intensidades e nuances, que o tutor aprendeu a compreender e que o animal aprendeu a utilizar em seu próprio beneficio.

POSTURAS CORPORAIS

O gato utiliza posturas como meio de comunicação. No entanto, são menos importantes nesta espécie que noutras, pois a manutenção da harmonia no seu grupo social é menos significativa do que em animais cujo grupo social faz parte da sua forma de vida natural. Com a domesticação e a imposição de partilhar a sua vida com outros gatos, ou por comodidade alimentar (por exemplo, colónias de gatos assilvestrados, que partilham zonas de alimentação e repouso, em cidades ou zonas limítrofes), ou porque foram alojados em casas ou apartamentos juntamente com outros seus semelhantes, foram obrigados a adaptar-se e a comunicação postural ganhou maior importância.

1 - A “submissão “ tem pouca importância nesta espécie. Serve para impedir um ataque, quando a fuga não é possível. As orelhas posicionam-se junto à cabeça e o gato mantem-se agachado, encolhido, cauda por baixo do corpo, pupila dilatada, procurando discretamente, com subtis movimentos dos olhos, possíveis vias de fuga. Esta postura pode também visar o ser humano, quando tenta a abordagem a um gato pouco socializado, assustado ou desconhecido. Cuidado, porque na impossibilidade de fuga, que será a sua primeira opção, poderá atacar para se defender daquilo que considera um perigo real.

2 - A “saudação” acontece quando o gato pretende aproximar-se de outro gato, animal ou ser humano. Caminha com confiança em direção ao visado, com a cauda em posição vertical e dobrada na ponta. É uma comunicação de afeto e quando conseguem o contacto físico fazem-no com a cabeça ou o canto dos lábios, seguindo-se os ombros e depois o resto do corpo. A atitude pode ser repetida do outro lado do corpo. Ao mesmo tempo a cauda, em posição vertical, é esfregada na cabeça e no dorso do outro gato. Quando acariciado, um gato amigável responde empurrando a parte do corpo acariciada em direção à mão do humano que o afaga.

3 - O “rolar” de um lado para o outro, exibindo o abdómen, pode ser um convite à brincadeira, ou uma saudação. Nem sempre é um convite ao toque, uma vez que esta zona corporal é a mais protegida por ser a mais sensível. Portanto o gato pode reagir mal se a tentarmos tocar. Só quando está completamente relaxado, bem socializado e confortável com a presença do tutor, é que talvez permita que este lhe afague a barriga.

4 - O “Halloween cat”, cuja postura é talvez a mais conhecida, popularizada pela festa pagã de origem norte americana, em que assume um arqueamento do corpo, com piloereção generalizada, e muitas vezes acompanhada do “bufar”. Ocorre, sobretudo em situações de surpresa assustadora, como por exemplo o surgimento súbito de uma ameaça no seu campo visual. Tem como objetivo parecer maior e mais intimidante, por forma a afastar a ameaça.

5 - O “arqueamento” da cauda sobre as costas indica alto grau de excitação, normalmente relacionado com brincadeira ativa.

6 - A cauda em posição de “U invertido” é mais comum em casos de perseguição lúdica, normalmente acompanhada de correria desenfreada. É comum dois gatos do mesmo grupo social perseguiram-se alternadamente, para em seguida se envolverem em luta corpo a corpo, sem intenção ofensiva. Esta atitude ocorre sobretudo em gatinhos, mas também em gatos adultos aparentados, partilhando a mesma casa. Pode também ser dirigida a objetos em movimento.

7 - “Movimentos rápidos da cauda” podem ter vários significados, mas normalmente transmitem algum tipo de conflito interior, alguma dúvida sobre o que fazer. Quando observa uma presa, o gato fica num grau de profunda concentração, muitas vezes emitindo sons semelhantes aos de “arrulhar” e só o movimento ritmado da pontinha da cauda denuncia a sua intenção. O movimento mais amplo e mais marcado, poderá querer dizer que o gato está prestes a reagir negativamente e a evitação do motivo do conflito será o próximo passo, muitas vezes acompanhada de uma sapatada e fuga. Portanto, se estamos a acariciar o gato e ele inicia este tipo de movimento de cauda, é, para nós sinal que devemos parar por aí a interação. A piloereção da cauda está associada a posturas de ameaça. Em posição vertical e eriçada é indicio de ameaça ofensiva moderada. No caso de ameaça defensiva a cauda eriçada dobra-se sobre o dorso. Esta postura também ocorre nas brincadeiras que envolvem muita excitação. Se estiver virada para baixo, em forma de U invertido, está associada com posturas intermediárias entre a ameaça ofensiva e a defensiva. A cauda entre as pernas acompanha sobretudo comportamentos lúdicos.

8 - Expressões faciais que envolvem olhos semicerrados, protusão da terceira pálpebra, ou ambos, estão relacionados com o desempenho de uma função orgânica natural, como alimentação, eliminação, higienização própria ou social e cópula. Dilatação de pupilas com orelhas direcionadas para a frente, quer dizer brincadeira. Movimento rápido da cabeça de um lado para o outro tem sido associado ao stresse agudo.

9 - A “ameaça ofensiva” consiste no contacto visual direto com pupilas contraídas, bigodes virados para a frente e postura corporal ereta, acompanhada de piloereção.

MARCAÇÃO

A marcação territorial é uma forma de comunicação mais permanente que as descritas anteriormente. Permite que o gato deixe informações visuais e olfativas que permanecem muito tempo, após a sua partida. Fornece informações a respeito do individuo, da identidade sexual, do tempo que permaneceu no local e da fase do ciclo reprodutivo.

1 - As “turras” são aquilo que vulgarmente chamamos ao comportamento que o gato evidencia quando esfrega alguma parte do seu corpo em objetos, outro animal ou no próprio tutor. Os felídeos apresentam glândulas sebáceas que produzem secreções com determinados odores (as feromonas), sem significado olfativo para nós, mas de extrema importância comunicativa para eles. Estas glândulas localizam-se ao redor da boca, no queixo, na zona localizada entre os olhos e ouvido, nas almofadinha plantares, na zona perianal e na base da cauda. Quando as “turras” são dirigidas a outro gato, sugere um relacionamento social. Em relação aos humanos, parece ser uma forma de saudação, uma forma de aceitação do tutor no seu grupo social. Fazem-no, também, em objetos novos no seu território. Começam por pressionar a zona do nariz, passando à face, da comissura labial à comissura lateral do olho. Muitas vezes este comportamento é acompanhado de um entreabrir do lábios (denominada reação de Flehmen), quando a emoção é intensa. Ocorre quando o gato quer analisar melhor um odor interessante, uma vez que possuem um órgão (vomeronasal) no interior da cavidade oral, que participa na inspeção olfativa de determinadas mensagens odoríferas. Quando acariciado, o gato também pode salivar e em seguida esfregar o canto da boca no individuo que o acaricia. A saliva pode ser uma forma de marcação olfativa. A industria farmacêutica conseguiu produzir um análogo sintético da feromona facial dos gatos e comercializa-a em clinicas veterinárias e lojas da especialidade. Deve ser utilizada nos casos em que o animal apresenta algum sinal de stresse ou como forma de o prevenir, em qualquer situação passível de deixar o gato ansioso.

2 - O “afiar as unhas” é um comportamento de marcação visual, em que o gato estende e retrai as unhas, alternadamente, em objetos verticais ou horizontais. Pode efetivamente servir para manter a integridade da unha, uma vez que solta as camadas exteriores danificadas, ficando mais afiada e saudável, mas também deixa um sinal visual, interpretável por outros gatos. Existem glândulas sudoríparas nas patas, que podem deixar um estimulo olfativo secundário. Este odor parece proporcionar segurança ao gato. Objetos novos podem ser marcados, mas também objetos antigos e os mais utilizados parecem ser os de maior importância para o animal. Normalmente afiam as unhas logo ao acordar, podendo corresponder a uma forma de alongamento. Também parece que os alvos preferidos são aqueles que se localizam em zona de maior invasão do território, como por exemplo, a sala de estar e os sofás, onde os tutores e as visitas permanecem sentados, deixando odores da sua zona genital. Portanto, não chega proporcionar ao seu gato um arranhador todo sofisticado, mas depois escondê-lo, por razões decorativas, na varanda ou na dispensa. Este arranhador deve estar localizado exatamente na zona social, ou no local que o gato escolheu para este fim.

3 - A marcação com urina ou “spraying” é utilizada como forma de comunicação ou marcação pelo odor, especialmente em machos não castrados, mas qualquer outro gato, em determinadas circunstâncias, pode fazê-lo. A postura de marcação é típica, com o gato em pé, esticando os posteriores, movimento rápido da cauda em posição vertical e o jato de urina é expelido para trás. Este comportamento é exibido sobretudo em locais de passagem. Tem como objetivo condicionar a movimentação dos gatos em determinadas áreas, por forma a que não haja encontros conflituosos. Normalmente espalham a urina para deixar o seu próprio odor e não para tapar o odor dos outros. Por isso os gatos (ao contrário dos cães) não marcam por cima das marcações de outros gatos. As fêmeas utilizam esta forma de marcação com menor frequência, mas esta aumenta quando estão em cio. Gatos castrados e fêmeas esterilizadas também o fazem, associado a ansiedade. Utiliza este recurso sempre que se sente desconfortável com o ambiente que o circunda, como acontece quando há punição, ausência do tutor, alteração de rotina ou no ambiente, demasiados gatos no mesmo espaço, agressão de outros gatos, competição, introdução de um novo animal, entre outros. No entanto, também pode ocorrer quando existe doença do aparelho urinário, mas na maior parte das vezes a eliminação assume a postura de agachamento e não em pé.

Espero ter ajudado um pouco a melhorar o relacionamento humano-gato. Não podemos esperar que um animal tão exigente a nível cognitivo se transforme num peluche que arrumamos na prateleira sempre que não nos apetece interagir. Depois de decidirmos partilhar a nossa vida com um gato, assim como qualquer outro animal, assumimos um compromisso para toda a sua vida, que esperamos que seja longa.

Até ao próximo mês.

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.