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Dez dicas para treinar o seu cão a eliminar no local pretendido

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Célia Palma

Dave

Um treino adequado, claro e motivador facilitará o relacionamento entre o humano e o cão, relacionamento este que se deve basear na a absoluta confiança entre as duas partes

Quando adota um cachorro, a primeira preocupação do tutor está relacionada com a higiene da casa e com o incómodo facto destes eliminaram inadequadamente (do ponto de vista do humano). Sem dúvida os cachorros defecam e urinam frequentemente e sem grandes preocupações com o local onde o fazem. Não é nada agradável acordar de manhã, com os minutos contados para todas as tarefas, ou chegar a casa ao fim da tarde já cansado e deparar-se com o lar, anteriormente limpo, profanado com excrementos caninos de odor deveras desagradável. Mesmo que o tutor esteja em casa, a frequência com que o cachorro elimina é de tal ordem, que o este se vê obrigado a fazer-se acompanhar de esfregona e balde para todo o lado que vai. Sem dúvida, mesmo o humano mais tolerante e compreensivo não deixará de se sentir algumas vezes frustrado e a questionar a decisão tomada de alargar a família a um ser de 4 patas.

Mas este mesmo tutor, por muito irritado ou frustrado que esteja, terá que tentar ver as coisas da perspetiva canina, numa fase imatura da sua vida, com tudo para aprender e ainda com alguma incompetência no controlo dos esfíncteres. Sobretudo, não deve incutir ao cachorro a ideia de que urinar ou defecar é errado e que se o fizer sofrerá as consequências de um castigo físico ou psicológico. E é exatamente isso que acontece quando o admoesta, repreende ou lhe esfrega o nariz na urina, esperando que ele compreenda o que lhe está a tentar transmitir. Não falamos a mesma língua e aquilo que para nós é claro, não o é para um cachorro, que se sentirá desorientado, confundido e frustrado. Como consequência terá maior dificuldade de aprendizagem. Com este e qualquer tipo de treino, as regras devem ser claras, expectáveis e sem lugar para dúvida ou confusão. E sobretudo deve basear-se no reforço positivo, ou seja, premiar o cão quando manifesta um comportamento desejável, ignorando os outros comportamento que não queremos manter. Logicamente, este tudo fará para executar os comportamento que lhe trazem algum retorno prazeroso, esquecendo aqueles que não atingem esse objetivo.

O treino deve também ser baseado na realidade de que o cão não associa ideias e por isso de nada serve puni-lo por algo que ele não fez naquele exato momento. Ir mostrar a perna de uma cadeira roída ou um chinelo desfeito, seguido de um ralhete mais ou menos violento, não surte efeito, uma vez que o animal, apesar de compreender perfeitamente o profundo desagrado do tutor, não faz a mais pequena ideia do que motivou tal estado emotivo. Eventualmente poderá compreender se, a punição verbal ou física, ocorrer exatamente no momento em que exibe o comportamento indesejado. No entanto, em relação à eliminação inadequada, a compreensão do motivo da punição poderá induzir o erro de que é o ato de urinar ou defecar que está errado. Seja onde for.

Assim sendo, deixo aqui algumas dicas que considero essenciais para que o treino do cachorro, decorra de forma breve, assertiva, prazerosa e definitiva:

1 - Defina o local para eliminação, assim que o cachorro chegar a casa, levando em conta as necessidades e preferências da espécie. Este deve ser de fácil acesso, bem delimitado, longe do local de descanso e de alimentação. Caso contrário, o cachorro poderá evitar o local escolhido por não querer conspurcar estas áreas especificas.

2 - Delimite a zona com algo absorvente, para evitar que os dejetos líquidos se espalhem mais do que o inevitável e também para que o cachorro identifique mais facilmente a zona permitida. Pode utilizar absorventes específicos, que pode adquirir em lojas da especialidade, os vulgares absorventes para acamados ou ainda as bem mais económicas folhas de jornal. Estas têm a vantagem de poderem ser renovadas, empilhando folhas novas, mas mantendo à superfície uma das já utilizadas, por forma a dar orientação olfativa, para além da visual. Logicamente que estes adereços vão, muito provavelmente numa fase inicial, servir para o cachorro brincar, efetivando o milagre da multiplicação e transformando algumas folhas de jornal ou um absorvente em dezenas de pedaços. Mas com paciência, firmeza e perseverança e cachorro compreenderá a função destes recursos, reservando a sua utilização ao destino pretendido. Sobretudo se lhe forem dadas alternativas lúdicas, que o mantenham física e cognitivamente ocupado.

3 - Escolha como prémio, para a utilização adequada do local, algo que seja único (só utilizado nesta situação especifica) e que o cachorro adore, que faça tudo para o conseguir (algo tipo jackpot). Costumo recomendar as salsichas de aves, cortadas em pedaços muito pequenos, reservadas no frigorífico, para se poder aceder rapidamente. Não que recomende propriamente este tipo de alimentação, mas se utilizada em pequenas quantidades não causa problema (a não ser em caso de intolerância individual) e tem a vantagem de ser algo diferente do habitual em termos visuais e olfativos, para além de extremamente apreciado pelos cães no geral.

4 - Tenha sempre presente os momentos em que o cachorro normalmente elimina, que são: quando acorda; nos 10 minutos seguintes à alimentação; quando para abruptamente a brincadeira para se dedicar a inspecionar olfativamente o espaço em redor e se concentra em posicionar o corpo de forma agachada e arqueada, movimentando-se em sem-círculos.

5 - Nestes momentos cruciais, pegue no cachorro, calmamente e sem ruido e coloque-o sobre o absorvente, motivando-o a permanecer nesta área com ordens repetitivas de incentivo, utilizando uma palavra única ou uma pequena frase (como por exemplo e por analogia com o nosso português, xixi… faz xixi… xixi). Não se esqueça de ter sempre consigo os tais prémios que o cachorro adora, para o presentear assim que ele corresponder ao objetivo. Deve também elogiar o comportamento, calmamente e com afagos ou elogios verbais.

6 - Sempre que ocorrer o acidente e o cachorro eliminar fora do sitio pretendido, nunca, mas mesmo nunca, o repreenda. Simplesmente ignore o comportamento, não cruze o olhar como animal, porque este pode denunciar a sua irritação e evite limpar apressadamente o local, de forma intempestiva. Aja com naturalidade e limpe também com naturalidade.

7 - Se a repreensão for depois do comportamento terminado ele nunca irá compreender o motivo, uma vez que, como já disse, não associa ideias. O clássico conselho de “esfregar o nariz no local onde urinou” só o irá confundir. Apesar de constatar que o tutor está zangado, nunca compreenderá o motivo da punição. Como tal, sentir-se-á frustrado e inseguro, perdendo-se uma relação de confiança com os humanos em geral ou com aquele humano especifico.

8 - Se o repreender exatamente no momento em que está a exibir o comportamento indesejado, ele até pode compreender que lhe a punição está relacionada com o ato de urinar, mas como faz um raciocínio linear efetivamente conclui que não lhe é permitido urinar e não que simplesmente o está a fazer no local errado. Como não consegue deixar de o fazer irá tentar esconder o comportamento e deixará completamente de eliminar na presença do tutor. O problema agravar-se-á quando este pretender que o cão passe a eliminar na rua. Estando na sua presença, não o fará de todo, uma vez que receia a punição. Assim temos cachorros que andam horas na rua e só fazem xixi depois de regressarem a casa, escondidos em algum lugar.

9 - São várias as vantagens deste tipo de treino. Para além da aprendizagem ser mais rápida, gera laços estreitos de afinidade e confiança com o tutor, uma vez que só há prémio e não castigo. O animal irá manter o comportamento que lhe trás vantagens e esquecer aquele que não o consegue.

10 - Para além disto, com este método conseguirá condicionar o cachorro a eliminar a pedido. Se por algum motivo os hábitos tiverem que ser subitamente alterados, como por exemplo numa mudança de casa, férias, doença ou viagem, se utilizar o comando “xixi” e mostrar o prémio habitual, por reflexo pavloviano, este exibirá o comportamento que normalmente condiciona o aparecimento de tal recompensa. O mesmo acontecerá quando pretender transferir o comportamento eliminatório para o exterior, a partir do momento que o veterinário dê essa possibilidade. Não só o cachorro não terá qualquer tipo receio de o fazer na presença do tutor, como será fácil compreender o que pretendem dele, por estar condicionado.

Sem dúvida ter um cão proporcionará muitas emoções prazerosas, preencherá o vazio de uma vida isolada, será um facilitador social, motivará os passeios ao ar livre, ensinará às crianças o sentido da responsabilidade assim como os factos da vida (que incluem o nascimento, crescimento e inevitável morte). Um treino adequado, claro e motivador facilitará o relacionamento entre o humano e o cão, relacionamento este que se deve basear na a absoluta confiança entre as duas partes. Se a adoção corresponder às expectativas de ambas a partes, seguramente será muito menos provável o abandono e teremos relacionamentos duradouros, saudáveis e vantajosos.

Célia Palma

Célia Palma

ANIMAIS

Célia Palma é veterinária e autora de livros sobre animais. Nasceu a 27 de Julho de 1968, em Setúbal, cidade onde passou toda a infância e adolescência. Desde muito cedo sentiu uma forte empatia por todos os bichos, tomando precocemente a decisão de ser veterinária. Durante o ensino secundário, destacou-se na área de escrita criativa, recebendo alguns prémios literários. Terminou o curso de Medicina Veterinária, na Universidade Técnica de Lisboa, em 1993, iniciando de imediato sua carreira profissional. Trabalha, desde 1994, na Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, na área de medicina e cirurgia de animais de companhia. É casada com um colega de profissão, mãe de duas filhas, de 16 e 6 anos. Atualmente é tutora de 4 gatos, 1 cão, 1 cabra anã e 3 tartarugas, mas no passado, porquinhos-da-índia, coelhos e até um bode fizeram parte do seu agregado familiar.