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As anedotas esquecidas de Salazar e outras histórias de Vasco Queiroz

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

Farto, naquele tempo, só mesmo o reportório. Limão que não deitasse gota de sumo já teria sido espremido pelo ditador. Refeição de canjinha “aos modos da Beira” e posta de pescada “grande e fresca” era, por si só, um “bacanal”. Comido o prato de peixe, Salazar pedia à fiel governanta para trazer o peru. E ele lá vinha, realmente, mas vivo e posto sobre a mesa, para que debicasse as migalhas

Em certa ocasião, Salazar teria ido visitar um asilo de crianças pobres. Como não tinha descendentes, disse ao diretor que gostaria de proteger um desses meninos como se fosse seu filho. Desejava, explicou, que esta sua decisão fosse mais do que um prémio ao melhor estudante: seria, sobretudo, uma distinção ao aluno mais inteligente, prometeu.

Sem hesitação, o responsável pelo asilo apontou ao ditador um garoto simpático, bom aluno, com um ar “muito esperto” e, “incontestavelmente, o mais inteligente”.

Dito isto, Salazar aproximou-se dele:

- “Que desejarias ser quando fores homem?”, perguntou.

- “Que posso eu ser, sem pai, nem recursos?”, disse o jovem, devolvendo a questão.

- “Bem”, insistiu o Presidente do Conselho, “mas, se fosses meu filho, o que desejarias ser?”

- “Órfão!”, respondeu a criança, delicadamente.

Esta é apenas uma das muitas “estórias” recolhidas ao longo da vigência do Estado Novo por Vasco de Barros Queiroz, republicano nascido em 1901 que se tornou ferozmente antissalazarista. Advogado, colunista de jornais, apaixonado por fado, mulheres e touros – não necessariamente por esta ordem - foi amigo dos socialistas Mário Soares e Manuel Mendes, ativista ferrenho da campanha de Humberto Delgado e próximo de Francisco Sousa Tavares após a revolução. Terá sido também o mais ousado respigador do “anedotário político do salazarismo” propósito literário e combativo que serviu de título à obra onde coligiu “boatos”, “confidências” e “inconfidências” que chegaram ao seu conhecimento e punham o regime a ridículo. O livro, como está bom de ver, só seria publicado em 1980.

Mas obedecia a propósito antigo, sem desfalecimentos: “Levar até ao público a notícia de umas tantas cenas episódicas e (por vezes) anedóticas que terão decorrido na vida política do salazarismo”. O exercício, saudado pelo historiador João Medina no prefácio à primeira edição, era ilustrado por algumas dessas “pequenas histórias” partilhadas em surdina ou bichanadas ao ouvido por um “reduzido número de individualidades que mediaram entre as cenas vividas e a notícia que as revelava como factos reais”. No fundo, aquelas humoradas narrativas sobre Salazar e as perversões da ditadura eram, segundo ele, “montadas por fantasia (pobre ou delirante), deturpadas por má audição ou desfiguradas por péssima narração de infeliz narrador”.

Combatente empedernido da ditadura, Vasco de Barros Queiroz não deixava, porém, que as horas amargas, a bufaria reinante ou a sanha pidesca lhe tolhessem o espírito: “A minha aversão ao ditador – cujas atitudes, por vezes, me cegavam ao extremo do mais irritado desespero político – nunca me anuviou de modo a toldar o sentido de humor”, explicou. Este boémio administrador de seguros que viria a abandonar a advocacia reuniu então um património não limitado às anedotas da era salazarista, antes colocando em contraluz “histórias de outras épocas” e de “personalidades distintas”, cujos perfis eram bem diferenciados da mentalidade e caráter do “doutor” de Santa Comba. Pelas 288 páginas do anedotário passeiam histórias que, mesmo lidas a esta distância, ainda rasgam sorrisos e desencadeiam gargalhadas, mesmo que nelas permaneça o restolho do atavismo, da pobreza e da indignidade do regime, cujas misérias eram levadas à mesa e ilustradas pelo célebre “Bacalhau com batatas à Salazar”: sem bacalhau, nem batatas.

Farto, naquele tempo, só mesmo o reportório. Limão que não deitasse gota de sumo já teria sido espremido pelo ditador. Refeição de canjinha “aos modos da Beira” e posta de pescada “grande e fresca” era, por si só, um “bacanal”. Comido o prato de peixe, Salazar pedia à fiel governanta para trazer o peru. E ele lá vinha, realmente, mas vivo e posto sobre a mesa, para que debicasse as migalhas. Enquanto isso, o aquecimento nas escolas que esperasse. A bem do “arame orçamental” e para desespero do Ministro da Educação, impaciente com tanta incompreensão e revoltado com o investimento na melhoria do conforto…nas cadeias. “O Sr. pensa, quando sairmos daqui, que nos mandam para a escola?!”, terá retorquido Salazar. Na anedota, claro. Palavra de Vasco de Barros Queiroz. Republicano à antiga, de humorada pontaria.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.