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Cornélia, a vaca do pós-revolução que agitou a esquerda e a direita

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

A vaquinha foi tema de café, polémica de jornal e pretexto para agitar ainda mais o acalorado debate político, não refeito das fogueiras do PREC, muitas delas ainda acesas

Foi sucesso idêntico ao da Gabriela, primeira telenovela brasileira exibida em Portugal pela RTP. Mas se a prestação da atriz Sónia Braga chegou a interromper os trabalhos na Assembleia da República, A Visita da Cornélia, a vaca mais famosa do pós-revolução gerou tensões políticas inflamadas, típicas do radicalismo dos primeiros anos de democracia.

Concurso televisivo idealizado por Raul Solnado e Fialho Gouveia em 1977, gravado no Teatro Villaret, a vaca Cornélia - “simpática e divertida” segundo os criadores – tinha de ser mugida em palco pelos concorrentes, sujeitos a diversas provas de habilidade (entre as quais se incluíam cantar, dançar ou acender 25 velas em 90 segundos) e conhecimentos (que iam da Literatura ao Código da Estrada, passando pelos artigos da Constituição da República e noções de Primeiros Socorros). Embora o animal não desse leite nem mama, mexia, e de que maneira, com o País, além de garantir chorudos prémios aos três primeiros candidatos à vitória final: um apartamento, um automóvel “e uma casa pré-fabricada”.

Fernando Assis Pacheco n'A visita da Cornélia, em 1977, junto a Raul Solnado

Fernando Assis Pacheco n'A visita da Cornélia, em 1977, junto a Raul Solnado

D.R.

A estreia do programa, a 30 de maio de 1977, ficou assinalada por momentos inesquecíveis protagonizados pelo jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco, então chefe de redação do Diário de Lisboa, guindado a vedeta nacional nos meses seguintes pela inteligência do seu humor e talento. Segundo ele, o concurso trazia à realidade portuguesa da época, além de outras qualidades, “descompressão política”. Mas esse não seria propriamente o resultado alcançado, tendo o próprio Assis Pacheco abandonado o programa, em julho, depois de algumas das suas opiniões gerarem controvérsia. “As pessoas estão muito sensíveis às coisas políticas”, justificava Raul Solnado, em defesa do jornalista. “Acho que fez muito bem, estavam a acusá-lo de tanta coisa…”

As decisões, comentários e achegas dos elementos do júri do concurso, constituído por Maria João Seixas, Luís Sttau Monteiro, Paulo Renato, Maria Leonor e Raul Calado, tomaram conta do quotidiano nacional, sendo escrutinadas e debatidas ao pormenor. A vaquinha foi tema de café, polémica de jornal e pretexto para agitar ainda mais o acalorado debate político, não refeito das fogueiras do PREC, muitas delas ainda acesas. “Senhor deputado, nós não estamos na Cornélia”, chegou a escutar-se, em pleno Parlamento. De acordo com relatos do vespertino A Capital, a RTP tornou-se então, a pretexto do concurso, alvo predileto de “grupos de pressão, setores esquecidos, entidades não consultadas, gente que se julga sem voz, sindicatos, partidos políticos despeitados”, sem esquecer o próprio Presidente da República, Ramalho Eanes. “Está tudo contra a RTP…menos o público”, acrescentava o jornal.

Acusados de afinidades políticas à esquerda, os membros do júri tiveram de vir a terreiro, diversas vezes, defender os seus argumentos e a sua independência. Mas Maria João Seixas, então marcada pela ligação a alguns artífices da Revolução e ex-integrante dos corpos diretivos da Associação de Amizade Portugal-URSS não se livrou de um susto maior.

Jantava ela tranquilamente no Porto, no famoso restaurante Bule, da Foz, em setembro de 1977, quando, segundo o Expresso, foi ameaçada e insultada por várias personalidades da cidade, então conotadas com os setores radicais de direita. “Comunista” “Gaga gonçalvista”, “não te queremos cá”, “Vai para a Cornélia”, foram alguns dos “mimos” a ela dirigidos por um grupo de 15 figuras onde se destacavam Rui Moreira (antigo empresário da Molaflex e pai do atual presidente da Câmara Municipal do Porto), Fernando Guedes (histórico líder da Sogrape), J. Marques (industrial têxtil) e Cristiano Van Zeller (empresário ligado ao setor vinícola). A jurada do concurso foi barrada, à saída: “Com que então os comunas já vêm aos nossos restaurantes?”, desafiou um dos elementos, impedindo a sua passagem.

Entre os convivas da jurada do concurso estava, de acordo com os jornais, Manuel Avides Moreira que, apesar das distâncias ideológicas em relação à jurada do concurso, ficou incomodado com a atitude daquelas figuras da sociedade portuense suas conhecidas, “verberando a deselegância e até o caráter ofensivo do comportamento do grupo”. O Jornal também não deixou de assinalar a atitude da “versão portuga dos coronéis” brasileiros, mas Maria João Seixas, essa, desvalorizou: “Tenho do Porto e da gente da Foz a melhor impressão. Nas ruas do Porto, nos mercados, as pessoas que me reconheceram foram sempre extraordinárias”, referiu, concluindo: “Não confundo aquele grupo com a população da cidade”.

A vaca, essa, ficou na memória de gerações. Os “coronéis” nem tanto.

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Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.