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“Antro de ladrões e homossexuais”: O urinol no País do “Verão Quente”

Arquivo Morto

Miguel Carvalho

A imprensa excitava-se a cada aglomeração popular e ganhava lastro o “Verão Quente” político, com vagas incendiárias, atentados, ameaças e refregas várias

Aconteceu de madrugada: o povo, farto de reclamar junto das autoridades soluções para travar a “onda criminosa”, decidiu tomar em mãos a tarefa, pela calada. Armada de marretas, martelos e outras ferramentas, meia centena de moradores - “e não só” – da zona do Bonfim, no Porto, desmantelou o urinol do Campo 24 de Agosto, “transformado desde há vários anos num autêntico antro de ladrões e homossexuais”, assim mesmo, conforme relatava o Jornal de Notícias de 8 de agosto de 1975.

Nessa altura, a democracia ainda gatinhava. A imprensa excitava-se a cada aglomeração popular e ganhava lastro o “Verão Quente” político, com vagas incendiárias, atentados, ameaças e refregas várias. Os preconceitos vinham do antigamente, o País demoraria a ser uma aquarela e o urinol, “construído em jeito de pagode chinês”, foi na barrela.

O JN tomava as dores da populaça feita milícia, pois, justificava, qualquer pessoa que tivesse “a infeliz ideia” de utilizar o local “corria grave risco de ser assaltado e roubado e, muitas vezes, agredido”. Como se não bastasse, “os homossexuais eram às dezenas e vagueavam até altas horas da noite por aquele jardim, por sinal bem tratado”, alertava-se. Ao momento de reduzir o urinol a chapa assistiram os “saudosistas” do dito que, “de olhos tristes, viam desaparecer o seu ponto de interesse”.

As forças militares e policiais, informadas do que se passara, chegaram tarde ao local, mas ainda a tempo de considerarem a destruição “uma obra de misericórdia”. Para gáudio geral, o urinol era, enfim, ruína. A polícia aprovou e até o jornalismo varreu “ladrões e homossexuais”, por junto e atacado, da frente. Naquele País do “Verão Quente”…

Miguel Carvalho

Miguel Carvalho

Nasceu a 25 de novembro de 1970, prova de que teve razão antes do tempo. Cresceu a beber PCP, PS, PSD, Expresso, Tom Sawyer, Soeiro, Marx, Groucho, Easton Ellis, MEC, Torga e épicos Marvel. Despertou para o jornalismo em plena delinquência, roubando jornais dos vizinhos e revistas nos quiosques. Fez jornais de caserna. Gosta da palavra camarada e vacinou-se contra o coleguismo e o fascismo de unha pintada. Foi «rádio pirata». Tirou (mas devolveu) o curso de radiojornalismo. Anda nisto desde 1989. Alguns acham demasiado. Publicou cinco livros com histórias que não ficam para a história (e muito bem!). Ganhou o prémio Gazeta de Jornalismo com uma investigação situada em 1979, para surpresa dele e escândalo nacional na era do instantâneo. O que mais gozo lhe deu foi ter um prefácio do Manuel António Pina num livro seu. Detesta o Portugal sentado e admira o Portugal sentido. Conhece Buenos Aires, Moscovo e Bissau, mas prefere a rua dele e o coração dos outros. Consome uma droga dura (Cossery) e uma leve (gin tónico), e nunca inalou empreendedorismo. É adito a todos os vícios que pode controlar, afetos à parte. FC Porto, jornais, livros, pernil assado, poesia, Talese, Chien Qui Fume, Billie Holiday, Carlos Paião, Douro, Alentejo e filmes argentinos são alguns dos seus dogmas. É ateu e tem raiva de quem sabe. Deseja glória ao brunch nas alturas e paz na terra aos homens de boa boutade. Veste o Porto por dentro. Cidade onde gostaria de viver até ser pó, cinza e nada.