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O parto

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Capicua

Recebi uma grande dose de confiança na minha capacidade de parir e de superar as dificuldades associadas ao parto, à amamentação e à maternidade. O regresso de Capicua às crónicas na VISÃO

D.R.

(Quatro meses sem crónicas. Voltei.)

Depois de dias e dias de pode-nascer-a-qualquer-momento, nasceu um belo rapaz, já depois das quarenta e uma semanas e porque lhe demos uma ajudinha. Correu tudo muito bem. Nasceu de parto normal. No abençoado SNS e poveirinho de naturalidade.

Isto porque o serviço de obstetrícia do Hospital da Póvoa de Varzim e Vila do Conde foi a melhor opção dentro dos meus parâmetros de sério-problema-com-a-autoridade e querer-fazer-a-coisa-o-mais-natural-possível.

É que eu queria parir à vontade, na posição que me desse mais jeito na hora agá, com uma parteira motivadora, paciente com os meus tempos e profundamente respeitadora da sacralidade do momento. E depois de muito investigar, fiquei a saber que na Póvoa não só havia abertura para uma abordagem mais “humanizada” como era modus operandi.

Marquei uma primeira visita e, se as velhas instalações e as pequenas enfermarias não me pareceram muito convidativas, o contacto inicial com a equipa tranquilizou-me logo. Aconselharam-me o curso de preparação para o parto (de dez sessões) e, depois, o de parentalidade e amamentação (mais nove).

Todas as segundas e quintas ia ao hospital para aprender, e a verdade é que aprendia muito mais sobre sororidade e empoderamento feminino do que sobre puericultura e obstetrícia. É que mais do que exercícios de respiração e técnicas de controlo da dor, ou conselhos para a amamentação e cuidados com recém-nascidos, recebi uma grande dose de confiança na minha capacidade de parir e de superar as dificuldades associadas ao parto, à amamentação e à maternidade.

O grupo de enfermeiras-parteiras, disponíveis e preparadas, fazia questão de sublinhar a cada aula que não são os profissionais de saúde que fazem os partos, somos nós. E que para cada etapa do parto, há ferramentas para lidar com os desafios e superar as ansiedades. Ora, esta mudança de perspetiva não só devolve o protagonismo às mulheres, empoderando-as e criando uma visão mais positiva sobre o parto, como é refrescante, numa cultura que tende a cultivar uma ideia assustadora e emergencial do mesmo.

Ouvir vozes otimistas que nos relembram a sabedoria ancestral do corpo feminino e a importância de acreditarmos na nossa capacidade física e anímica de parir chega a ser poético, e muitas vezes me emocionei com a sua profunda sororidade.

É reconfortante ouvir dizer que as mulheres têm o direito de ver respeitada a sua vontade e que é importante definir um plano de parto, informado e negociado com os profissionais de saúde, para cumprir à risca (obviamente na medida do possível, tendo em conta os imprevistos que podem surgir). E foi mesmo isso que aconteceu, existiram imprevistos (desde logo, termos de induzir o parto por falta de comparência das contrações), mas todas as decisões foram feitas em conjunto, as minhas necessidades foram respeitadas e todos trabalharam comigo para que não só corresse tudo bem mas também fosse bonito, confortável e íntimo.

E depois de meses de gestação em que li muito sobre tudo isto, vi documentários, não perdi uma aula e conversei com várias mulheres sobre as suas histórias de parto, passei pela minha própria experiência (pessoal e intransmissível) com muita confiança. Em mim desde logo, sem medo, mas também com a certeza de que estava bem acompanhada.

Tenho mesmo pena de que este tipo de abordagem e acompanhamento não seja norma, não só porque a violência obstétrica é muito mais comum e normalizada do que se pensa, mas porque privar uma mulher do comando do seu próprio parto (a não ser em caso de absoluta necessidade) é retirar-lhe a oportunidade de ter a mais profunda experiência de amor-próprio e o mais sólido reforço de si. Devolver o parto às mulheres é capaz de ser a coisa mais feminista e acertada a fazer. Mas sermos todas tão solidárias no cuidado umas das outras como as parteiras da Póvoa já era um ótimo começo.

(Crónica publicada na VISÃO 1365 de 2 de maio)

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