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Sinais de esperança no meio da escuridão

O ano religioso foi agitado, tal e qual como este nosso mundo. Da luta interna no Vaticano ao jihadismo islâmico, das confusões ortodoxas entre russos e ucranianos ao evangelicalismo nas Américas, passando pela perseguição religiosa um pouco por todo o mundo. Mas a esperança resiste

Um pouco em jeito de balanço religioso do mundo em 2018, partimos do novo relatório sobre a Liberdade Religiosa no mundo, publicado pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, para concluir que “as linhas de força de violência sobre a Liberdade Religiosa são cada vez mais fortes, sólidas e sistemáticas.” Paulo Mendes Pinto acrescenta: “há mais quatro países com violações significativas da liberdade religiosa, comprovando-se, até, um aumento das violações da liberdade religiosa por parte de actores estatais.” São os casos da Rússia e da China, ou de Myanmar com os rohingya.

Entretanto a região de Lisboa revelou-se um oásis de tolerância religiosa, de acordo com o estudo “Identidades religiosas na Área Metropolitana de Lisboa”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado por Alfredo Teixeira, e que veio revelar que “o debate em Portugal parece estar sempre mais apoiado em opiniões subjectivas e percepções individuais do que em dados sólidos e investigações cuidadosas.”

A igreja católica parece ter-se aberto ao acolhimento dos recasados na linha da Amoris Laetitia. Em Portugal várias dioceses apresentaram documentos pastorais nesse sentido. Já o documento final que saiu do Sínodo dos Bispos sobre os Jovens soube a pouco, embora a sua realização, ao permitir que os jovens pudessem falar directa e abertamente com os bispos foi, só por si, um sinal de encontro. O documento final do último Sínodo dos Bispos sobre os Jovens, em Roma, defende que a participação das mulheres nas estruturas da Igreja e nos seus processos decisórios é “um dever de justiça”, e avança que a sua ausência “empobrece o debate e o caminho da Igreja”. Por outro lado, a historiadora e especialista em História da Igreja Ana Maria Jorge, tomou posse como directora da Faculdade de Teologia da Universidade Católica, sendo a primeira vez que o cargo é ocupado no feminino. Pode tratar-se de um pequeno sinal de abertura da Igreja às mulheres. Veja-se que ainda há pouco Eugénia Abrantes Magalhães, professora de Teologia, em entrevista ao Jornal de Negócios lembrava o espanto que causou nos anos 90 ao decidir estudar Teologia na Universidade Católica, sendo mulher e leiga.

O terrorismo jihadista continuou a actuar, agora com menos intensidade e de forma mais inorgânica e imprevisível, depois de o auto-denominado Estado Islâmico ter sido desalojado dos terrenos que controlava na Síria e Iraque.

No Brasil mais de 300 mulheres denunciaram o famoso curandeiro e médium João de Deus, que entretanto foi preso, o que veio lembrar que o abuso sexual não é exclusivo de católicos, mas transversal a todo o espectro religioso.

Depois do massacre de Outubro numa sinagoga em Pittsburgh, na Pensilvânia, perpetrado por um nacionalista branco anti-semita, que resultou na morte de 11 pessoas, dois grupos muçulmanos juntaram-se para angariar dinheiro para as vítimas do ataque, através duma campanha lançada na plataforma de crowdfunding “LaunchGood”, focada na comunidade muçulmana em todo o mundo. O objectivo era angariar 25 mil dólares, mas o sucesso da iniciativa multiplicou o valor da verba pretendida, que ultrapassou os 115 mil dólares, o qual se destinou a que o Centro Islâmico de Pittsburgh o distribuísse pelas famílias atingidas pelo massacre, para financiar cuidados médicos ou despesas de funeral.

Temos, portanto, a comunidade muçulmana da América a mover-se em solidariedade em favor de compatriotas judeus afectados pela acção dum criminoso cristão, em nome da sua fé: “Queremos responder ao mal com o bem, tal como a nossa fé nos ensinou, e enviar uma mensagem de compaixão através da acção. Nenhum dinheiro trará de volta os que partiram, mas tencionamos atenuar de alguma forma a dor daqueles que viram familiares partir”. É pena que os destaques noticiosos não sejam para estas coisas.

Este ano surgiram a leste novos choques entre a igreja ortodoxa russa e a ucraniana, por razões políticas, e o evangelicalismo americano e brasileiro ficou cada vez mais atolado na política e mergulhado em contradições.

Entretanto, uma delegação do Vaticano foi à China, por estes dias, a fim de preparar um acordo histórico sobre a nomeação de bispos e o restabelecimento das relações bilaterais, que estão cortadas desde 1951, em prejuízo dos 12 milhões de católicos do país. Embora existam “indícios de reconciliação e encontro”, segundo o portal jesuíta Ponto SJ, também há “sinais de que as feridas da divisão entre diferentes comunidades cristãs precisarão de tempo para sarar.”

Em suma, torna-se cada vez mais urgente aprofundar o diálogo interconfessional e inter-religioso, em nome da paz e da boa convivência, no respeito pela diferença. E casos como o de Pittsburgh permitem manter viva a chama da esperança.