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Guadalajara

É refrescante sair da Europa para relembrar como eram os centros das cidades antes de terem todos as mesmas lojas, com as mesmas marcas

Eu não me considero uma pessoa supersticiosa. Mas a verdade é que isso não é bem verdade. E a prova é que sou incapaz de entrar no palco e no avião com o pé esquerdo. É ver-me trocar o passo discretamente, quando não é o direito que está em lugar de avançar para a linha da entrada, pensando com os meus botões que é melhor assim, não vá o diabo tecê-las. Parecem as velhas passagens de ano em casa da minha avó, com toda a gente ao pé-coxinho para, na última badalada, saltar para o ano novo com o pé direito na dianteira. E olhem que não há grandes semelhanças entre o palco e o avião. Sendo que, no primeiro, sou eu que detenho o controlo das coisas e, no segundo, resta-me confiar na expertise do piloto. No primeiro, se correr mal, não há grande dano, a não ser talvez uma pequena mossa na autoestima, dependendo do tamanho do prego, enquanto no segundo: kaput! A única semelhança é que, quando corre bem, as pessoas tendem a bater palmas (mas nem sequer é para a mesma pessoa).

Enfim. Desta vez entrei de pé direito em três aviões, para entrar de pé direito num palco a nove mil quilómetros da minha porta. Guadalajara foi o destino, com a missão de representar o rap lusófono na maior feira do livro da América Latina, no ano em que Portugal é o país convidado! Cheguei vinte e quatro horas depois da partida (menos doze do que a minha mala) e foi o jet lag que me deu a verdadeira dimensão da honra de fazer parte da delegação portuguesa. Pois, com a diferença horária, era das primeiras a madrugar no serviço de pequeno-almoço do hotel e, a cada dia, surpreendia-me por estar entre as entidades convocadas. Parecia que o hotel tinha sido tomado pela secção de literatura contemporânea da Biblioteca Nacional: Lídia Jorge, José Eduardo Agualusa, Mia Couto, Alexandra Lucas Coelho, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares, Dulce Maria Cardoso, entre muitos outros autores, tudo no buffet del desayuno com um prato de fruta numa mão e uma tigela de cereais na outra. Já para não falar dos músicos, dos atores, dos editores e dos outros representantes da cultura portuguesa. Uma honra, mesmo para quem está de fuso trocado, ao ponto de não saber de que terra é.

O concerto correu muito bem. Apesar da chuva torrencial que fez questão de cair durante todo o dia e toda a noite. (Tantas horas de voo para ser recebida pela familiar borrasca portuense.) Foi especial pelo entusiasmo de um público que não conhecia a minha música. Foi especial por ter comigo duas convidadas talentosíssimas, Sara Tavares e Eva RapDiva. E foi especial porque foi o último concerto antes de uma paragem de vários meses.

Nos dias seguintes, consegui confirmar a impressão de que os mexicanos são no geral simpáticos e surpreendentemente eficientes. Que não há limite para a variedade de souvenirs com a cara da Frida Khalo. Que o conceito de picante no México está noutra escala de medida. Que Guadalajara (apesar das más-línguas) até tem conteúdo turístico. Que é refrescante sair da Europa para relembrar como eram os centros das cidades antes de terem todos as mesmas lojas, com as mesmas marcas e as mesmas coisas. Que tenho mesmo uma compulsão por feiras, mercados, arte popular e artesanato em geral. Que esparguete à bolonhesa é o prato mais universal dos cardápios deste mundo. Que há vários sinónimos para a palavra cardápio (entre carta, menu, ementa, lista e coisa que o valha). E que o abacate é mesmo muito melhor no seu habitat natural.

E talvez porque vos escrevo no voo de regresso, em hora e latitude indefinidas e com uma escala de madrugada ainda por fazer, apraz-me terminar esta crónica dizendo que quem acha que a aeronáutica é coisa complicada, e que a literatura é um ofício difícil e exigente, nunca deve ter tentado enfiar-se numas meias de descanso. (Lembrete: pelo sim pelo não, na próxima vez, visto o pé direito primeiro).

(Crónica publicada na VISÃO 1344, de 6 de dezembro e 2018)