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CDS – quantos partidos?

Sei que me choca o apego que o CDS demonstra ao critério do sangue para a atribuição da nacionalidade (de resto, elogiando o péssimo caminho da Europa), sei que caio para trás quando o CDS se propõe a indemnizar as vítimas da descolonização

Sempre ouvi dizer que se o CDS tivesse dois deputados, teria três fações. Uma piada, evidentemente, para ilustrar o facto de um partido pequeno ser tão permeável a guerras internas como um partido grande.

O CDS de hoje tem uma líder que, na minha opinião, é populista, alarmista, exploradora do medo social (é necessário recordar o debate sobre a eutanásia?), dada a uma retórica explosiva – a ver se pega – e sem rumo certo. Não conheço, verdadeiramente, qual é o rumo do CDS. Sei como reage perante cada notícia sobre “as esquerdas radicais” ou as “esquerdas encostadas”, sei como debate com António Costa, a quem chama “mentiroso” sem pudor e a quem vai dando prendas tipo militante de uma juventude partidária, e sei que afirma que o CDS é um partido “cristão, onde cabe toda a gente”.

É por isso que cabe no CDS o Adolfo Mesquita Nunes, um liberal assumido, que, enquanto deputado, para fúria de muita gente do CDS (alguma dela escriba no Observador), sempre votou, como anunciara, a favor dos direitos LGBT (abstendo-se na procriação medicamente assistida para todas as mulheres), fundando o seu voto, precisamente, no princípio da liberdade.

Imagino que o Adolfo Mesquita Nunes não aceitaria o cargo que tem agora se o CDS tivesse uma agenda reacionária de revogação das conquistas progressistas que salvam vidas e que asseguram liberdade, igualdade e a segurança das crianças (estou a pensar na interrupção voluntária da gravidez, na coadoção, na adoção por casais do mesmo sexo e na procriação medicamente assistida para todas as mulheres).

Acontece que se não quero o reacionarismo a tomar conta da direita democrática portuguesa (essencial ao sistema), temo pela solidão dos que querem aceitar o conservadorismo sem ativar o reacionarismo e tenho por certo que, noutros temas, o CDS continuará a surpreender pela negativa.

Afinal, foi este ano que o grupo parlamentar do CDS assinou um requerimento de fiscalização sucessiva da lei da procriação medicamente assistida (que obteve vencimento parcial), no qual se atreve a afirmar que “hoje em dia as mulheres são mães porque querem”. O CDS, de que Adolfo Mesquita Nunes é vice-presidente, achou por bem fazer tudo para que se esterilizassem as lésbicas por via de uma decisão judicial.

No último dia da legislatura passada, o CDS, juntamente com o PSD, aprovou, após uma iniciativa legislativa reacionária, uma reversão parcial da lei da interrupção voluntária da gravidez altamente paternalista e que nos colocou, a nós, mulheres, de novo em risco.

É por isso que não sei se o CDS “aberto a todos” me garante um travão no reacionarismo. Os dois exemplos que dei, o último deste ano, são muito, muito, graves.

Sei que sempre estarei afastada das posições do CDS sobre economia (como seria de esperar), sei que me choca o apego que o CDS demonstra ao critério do sangue para a atribuição da nacionalidade (de resto, elogiando o péssimo caminho da Europa), sei que caio para trás quando o CDS se propõe a indemnizar as vítimas da descolonização, não tendo uma palavra a dizer sobre as vítimas da colonização.

Mas também sei que, no CDS, há pior do que tudo isto. E, nesse pior, só cabe mesmo o reacionarismo.