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Porque é que eu não gosto de futebol

Eu não gosto de futebol e é por causa da modalidade em si. É um jogo que se joga, aos meus olhos, de uma maneira desonrada, feia, pouco cavalheiresca

D.R.

Nem é das falcatruas com as arbitragens, a corrupção, os crimes: uma pessoa que não gosta de futebol não acompanha, evita, por isso apenas ouve o bichanar ao longe, nas conversas dos jantares, já viu um ou outro vídeo com as conversas da fruta, sabe (ou antes: suspeita) intuitivamente que o futebol, a esse nível, é um antro do piorio, que não é modalidade de gente séria mas, no fundo, no fundo, não se tem bem a certeza, as coisas não ficam definitivamente provadas, acaba por não ser aquela evidência que se detém ante os nossos próprios olhos, a nossa própria consciência (se assim fosse, ninguém gostava de futebol, não era só eu). Nem é a violência das claques, a impunidade total da criminalidade consentida pela sociedade, porque é o futebol, porque já se sabe como são as claques, os ânimos fervem, isto é mesmo assim, o que se há de fazer, o País disponibiliza quantidades absurdas de meios policiais e lá vão aqueles vikings pelo País afora a saquear estações de serviço, a arranjar porrada nas ruas, a berrar alto. Cuidado nas estações de serviço que hoje é Porto-Benfica, avisam as mães, como quem alerta para uma inevitabilidade da natureza (cuidado que vai nevar, cuidado que hoje há alforrecas no mar), numa passividade de quem aceita as asperezas da vida. Um amigo meu levou o filho de 11 anos ao Benfica-Porto e houve tanta pulinheira que no fim teve de se esconder durante uma hora com o rapaz numa loja, temeu pela integridade do filho criança, normal, era um jogo importante. Nem é pelas mesas-redondas da televisão que ocupam o espaço televisivo todo, em que os comentadores são violentos uns com os outros, saem a meio, em discussões que envergonhariam a maturidade do meu filho de 4 anos. E quando não são essas mesas-redondas patéticas, são os noticiários televisivos todos a abrir com futebol. Não é por isso, porque uma pessoa pode sempre não ver. Não é por o futebol ocupar as conversas todas, o dia todo, em todo o lado onde uma pessoa vai. Vai-se jantar a casa de alguém e é como sempre, homens para um lado e mulheres para outro e lá vem outra vez o futebol. Uma pessoa habitua-se a viver à margem das conversas. Mas também não é por isso, estas coisas permanecem inalteradas desde que eu nasci. Uma pessoa suspira enfim e segue com a sua vidinha. Eu não gosto de futebol e é por causa da modalidade em si. É um jogo que se joga, aos meus olhos, de uma maneira desonrada, feia, pouco cavalheiresca. Os jogadores mentem ao árbitro. Atiram-se para o chão a fingir que foi penalty. Levantam o braço a dizer que a bola é deles quando toda a gente viu que a bola lhes tocou na perna antes de sair. A mentira, o logro, a arte do engano, são parte integrante da modalidade em si, aprendem-se nos primeiros treinos, aos 6 anos. Estão no campo, durante os 90 minutos. São praticamente inexistentes os casos de um gesto nobre de um atleta que alerta o árbitro para a falta que não o foi, ao contrário do que este tinha julgado. De tão raros estes gestos, de uma nobreza que no mundo cá fora ainda vai sendo usual, corriqueira, correm mundo em vídeos que fazem um fã de futebol lacrimejar de comoção. A maioria das pessoas que eu conheço devolve o troco a mais no balcão de café, são corteses, cavalheirescas no trato do dia a dia, deixam as pessoas passar, e são falhas a esta norma que geralmente são dignas de indicadores apontados. O não-sei-quantos é uma besta, não devolveu o troco a mais no restaurante. Diz-se que o futebol reflete a sociedade, mas, daqui da minha janela, não é o que se vê. Este nosso mundo cá fora não é grande coisa, mas o que se passa naquela relva santificada consegue ser pior ainda.

(Crónica publicada na VISÃO 1317 de 31 de maio)