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A(s) mulher(es) do meu país

A atualidade do pensamento e da ação de Maria Lamas é inspiração sólida para todas as que hoje não se resignam a um papel de submissão na família, no trabalho, na sociedade, na infelicidade

Vou verificar e depois informo.” Foi exatamente assim que respondeu àquele que cumpriu ordens de encerramento do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) quando este afirmou que “as mulheres portuguesas não precisavam de mais instituições ou auxílio pois estavam já protegidas pela Obra das Mães pela Educação Nacional”. Em 1947, o então governador civil de Lisboa, Mário Cordeiro, fechava uma porta mas não conseguiria fechar a força e a coragem de Maria Lamas. Através do seu trabalho, uma espécie de reportagens 
etnológicas, havia de revelar a dureza e a desproteção que assombrava a vida das mulheres portuguesas. De carro, de comboio, a pé, e até mesmo de burro, percorreu todo um País, até às ilhas, revelando como ninguém havia feito (ou fez) as mulheres e a sua vida nas cidades, nas vilas e aldeias, nos lugares esquecidos e escondidos.

Num tempo em que o fascismo proibia sonhos e a vida obrigava à resistência, Maria Lamas ouviu, fotografou e escreveu as mulheres. Mas fê-lo, sem qualquer paternalismo ou superioridade, e antes com um genial rasgo de denúncia e simultânea confiança na sua emancipação. Ouviu-as falar da pobreza à opressão no seio da família e do trabalho, e, descrevendo uma sociedade atrasada e conservadora, escreveu páginas e páginas sobre o lugar e os lugares das mulheres.

O lugar da mulher e da sua condição económica, social, cultural e política. E os lugares de onde vinham e os lugares para onde queriam ir, recolhendo testemunhos do dia a dia na lida, na busca do amor, nas saudades do marido, na dificuldade entre criar os filhos e trabalhar, entre tantos outros relatos na primeira pessoa. Trouxe para as páginas dessa obra 
A Camponesa, A Mulher do Mar, A Operária, A Empregada e A Doméstica, revelando as suas especificidades e diversidades imensas: “Olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras mulheres: umas resignadas e heroicas na sua coragem silenciosa, outras indiferentes, entorpecidas; e ainda aquelas que fazem do seu luxo a exibição de um privilégio.”

As Mulheres do Meu País é uma das obras mais notáveis de sempre sobre a sociedade portuguesa, e Maria Lamas umas das imprescindíveis da nossa História.

Anos antes, em 1936, promove o Manifesto das 
Mulheres Portuguesas contra a Guerra Civil de Espanha, e em 1945, após intensos anos de intervenção, assume a Presidência do CNMP que representa no Congresso da Federação Internacional Democrática das Mulheres, em Ghent, ao lado de Eugénie Cotton e de Dolores Ibarruri (La Pasionaria).

A sua vida e vasta obra traduzem a coerência entre o pensamento e a ação de uma mulher que assumiu, até às últimas consequências da prisão fascista (por três períodos), a defesa dos direitos das mulheres, da liberdade, da democracia e da paz.

O fim da Segunda Guerra Mundial e a vitória sobre o nazi-fascismo marcaram a ação de Maria Lamas como mulher, jornalista e escritora, sendo impossível separar a ligação umbilical entre a prática de defesa dos direitos das mulheres e o seu percurso antifascista. Aliás, no plano internacional, a sua ação no âmbito da Federação Democrática Internacional das Mulheres contribuiu decisivamente para projetar a natureza do fascismo em Portugal, isolando e acelerando a sua crise, tendo assim contribuído para os desenvolvimentos que 
desembocaram no 25 de Abril.
Não terá sido por ironia do destino que, após a Revolução de Abril, foi a primeira signatária da escritura pública que formalizou a criação do Movimento Democrático de Mulheres, e, mais tarde, a sua adesão ao Partido Comunista Português é uma consequência lógica de todo um percurso de vida.

“A minha vida como antifascista foi muito dura, mas, se tivesse que voltar atrás, faria o mesmo.” 
É verdadeiramente arrepiante e admirável a coragem e determinação de Maria Lamas, ainda mais num tempo como o que vivemos, onde persistem e se agudizam ataques aos direitos das mulheres, e quando conquistas democráticas, consideradas por alguns como ganhas para todo o sempre, são postas em causa vezes demais. O caminho é longo, mas a atualidade do pensamento e da ação de Maria Lamas é inspiração sólida para todas as que hoje não se resignam a um papel de submissão na família, no trabalho, na sociedade, na infelicidade, e sabem que a emancipação das mulheres é parte integrante de um caminho maior de emancipação do ser humano.

Até 6 de dezembro, na Assembleia da República, 
podem visitar a exposição Mulheres, Paz, Liberdade 
// Maria Lamas.