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Ainda bem

Miguel vai pensando como foi acertada a sua decisão de estagiar sem receber salário no gabinete de arquitetura. Assim, além de não gastar dinheiro nas férias, como os seus colegas de escritório estão a fazer neste momento, pode desenvolver muito as suas competências

Dreamstime

O polegar esquerdo do Miguel faz scroll down na timeline do Facebook. Que bom poder trabalhar em agosto. Assim arranja sempre lugar sentado no metro a caminho do escritório. Fotos de praia, comentários sobre o último episódio do Game of Thrones, um vídeo de um gato a tomar banho de imersão num lavatório e uma notícia em segunda mão: “Millennials optam por casas mais pequenas”.

Ao que parece três grandes redes de mediação imobiliária fizeram um estudo de mercado e traçaram o perfil da sua geração. O artigo desenvolve: os Millennials optam por arrendar, não se deslumbram com o tamanho e procuram sobretudo “tê uns”. Normalmente, não gastam mais de 600€ mensais e dão preferência a localizações próximas a transportes públicos (já que tendem a não ter automóvel).

No caso de precisarem de mais espaço, a compra de um “tê dois” pode ser uma opção, mas a maioria opta por não ultrapassar os 100 mil euros de despesa e prima por decisões muito ponderadas. Preferem apartamentos a moradias. São desligados da casa e escolhem a frugalidade (ou como diz o mercado: tudo o que é low cost). E o melhor de tudo, adoram partilhar casa (ou como diz o mercado: o coliving), chegando a coabitar durante vários anos com amigos, como no tempo da universidade.

Miguel partilha a notícia. A Luísa e o Rui fazem like. Ouve-se o sinal sonoro, abrem-se as portas da carruagem e, no caminho até ao escritório, Miguel vai pensando como foi acertada a sua decisão de estagiar sem receber salário no gabinete de arquitetura. Assim, além de não gastar dinheiro nas férias, como os seus colegas de escritório estão a fazer neste momento, pode desenvolver muito as suas competências, acumulando o seu trabalho, enquanto não acaba a quinzena.

Estes meses, aliás, têm sido ótimos! Não só porque o sr. Arquiteto já não faz nada sem ele, mas também porque, quando não está no escritório, pode usufruir da companhia dos pais e do conforto do seu quarto de infância, sem ter de se preocupar em cozinhar ou lavar a roupa. E ainda bem que estudou tantos anos em Madrid, porque teve tantas saudades, que assim ainda lhe soube melhor voltar para casa dos pais.

O telefone toca. É a Rita a mandar aquele beijinho antes do trabalho. Miguel sorri. Ainda bem que ainda não vivem juntos, o namoro é muito mais divertido que o casamento e a distância vai apimentando a relação. Além disso, assim ninguém os pressiona para ter filhos (que deve ser uma chatice) e, para o ano, se a Rita conseguir a renovação da bolsa, logo começam a procurar casa. Vão fazer 30, ainda têm muito tempo! E se toda a gente diz que é preciso ponderar bem os passos importantes da vida, uma boa forma de o fazer, é ir adiando os planos para percebermos quais as vontades que realmente resistem ao tempo.

Antes de entrar no edifício, Miguel abre a aplicação do facebook mais uma vez. Mais três likes na notícia e uma mensagem do Pedro. Trocam duas ou três frases no chat. Bom trabalho e um abraço! Ainda bem que o Pedro foi viver para Londres, trabalhar fora, conhecer outra cultura... Agora até falam mais vezes do que quando andavam na mesma escola e com a internet nem se sente que moram em países diferentes.

Miguel entra no escritório, senta-se ao computador e abre o AutoCAD. Ainda bem que é o último mês de estágio e que o sr. Arquiteto já disse que não tem espaço para ele nem a recibos verdes. Assim pode recomeçar a procura. Vai ter finalmente tempo para atualizar o LinkedIn e para reescrever a sua carta de motivação. Aprendeu tanto no gabinete que tem montes de competências novas a oferecer ao mercado. E pode também fazer projetos para concursos. Quem sabe se não ganha a um grande gabinete? Seria um sonho! Enfim, logo se vê. Quando terminar o estágio haverá tempo para todas essas decisões! Ainda bem que nasceu nos anos 80. Aquilo do emprego-para-a-vida devia ser uma seca.

(Crónica publicada na VISÃO 1278, de 31 de agosto de 2017)