Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

O Pilinhas

De quando em quando os dedos do Pilinhas roçavam-me o cotovelo e acabaram por ancorar nos meus joelhos, acariciando-me de leve ao início, cada vez com mais força depois, subindo-me as coxas em beliscões simpáticos, avaliando-me a textura da pele, encontrando-me o elástico das cuecas, tudo isto enquanto dissertava acerca do Espírito Santo

Susa Monteiro

Quando acabei a instrução primária num colégiozito em Benfica cujo corpo docente era constituído pelo dono, a mulher, a sogra e um cão chamado Pirata, conjunto que, só por si, atesta a qualidade do ensino, melhorada pelas generosas cargas de porrada que o dono distribuía aos alunos nos intervalos de arrancar pêlos do nariz, dono que voltei a encontrar muitos anos depois, na rua, onde nos reconhecemos logo, ele avançou para mim de mão estendida e sorriso e tive a oportunidade de o mandar para o caralho, depois da instrução primária, dizia eu, os meus pais matricularam-me no Camões onde encontrei dois mestres inesquecíveis. O professor de Matemática, de alcunha Bolinhas, que lamentava a nossa ignorância sempre com a mesma frase melancólica

– Pois é, vocês em lugar de estudarem passam a vida no cinema. Com a vossa idade eu ia ao cinema uma vez por semana e era lá de mês a mês

que me acompanhará até à morte e, para além do Bolinhas, uma segunda criatura que não era tão estúpida, era apenas um criminoso, conhecido pelo epíteto de Pilinhas. Esse não se ocupava de Matemática, ocupava-se da Religião e Moral, e sofri-lhe as aulas durante os dois primeiros anos. Chamavam-lhe Pilinhas porque repetia, vezes sem conta, a mesma frase:

– Só se pode mexer na pilinha para cinco coisas: fazer chichi, lavar, ajeitar, coçar mas não muito e pôr remédio.

Ao contrário dos outros professores de Moral não era padre: era médico, era careca

(por acaso o Bolinhas também)

fazia-nos festas e, por amor a Deus, nunca casou. Dava as aulas inteiras sentado atrás da secretária

(as secretárias do Camões eram fechadas, quer dizer havia um espaço para as pernas e tudo o resto era madeira)

e ia-nos introduzindo, em voz baixa e suave, na intimidade com o Divino, Mandamentos, Inimigos Do Homem, que são três, Mundo, Demónio e Carne e, a propósito da Carne, lá vinham as cinco coisas acerca da pilinha, cuja relação com a Carne

(ele não explicava que espécie de carne, eu achava que rosbife)

eu não entendia muito bem. Pronto, resigno-me: não entendia mesmo nada. Também não entendia porque motivo o Mundo era meu inimigo. O Demónio está bem, tão cheio de maldade, agora o Mundo, com Paris e elefantes, não conseguia concebê-lo a querer fazer-me mal. Para mais o globo terrestre, que um dos meus tios tinha, jamais me ferrou uma dentada: era de lata, andava à roda, um bocado empenado, cheio de continentes e oceanos e a Austrália era cor de rosa. Não acreditava que uma ilha cor de rosa fosse minha inimiga e como o tio, que a tinha no quarto, permanecia vivo e de saúde, o Mundo não podia ser assim tão cruel. Para mais tudo o que o Pilinhas ensinava ou era incompreensível ou, na melhor das hipóteses, duvidoso, e eu saía das aulas numa espécie de atordoamento, convencido que talvez o Mundo fosse meu inimigo derivado à ignorância incurável que desde o berço me acompanha e que, para mal dos meus pecados

(estamos na aula de Religião e Moral)

continua, infelizmente, a acompanhar-me. Bom. Isto ia andando assim até que o Pilinhas, enquanto nos instruía acerca dos difíceis caminhos da Fé, começou a chamar um de nós para sentar-se ao seu lado, durante as aulas, atrás da dita secretária fechada, talvez, pensava eu, porque a proximidade mestre-discípulo por um lado premeia os bons alunos, por outro permite ao professor tomar melhor o pulso à temperatura pedagógica da turma através das reações, sentidas de perto pelo mestre, das nossas inocentes almas infantis. Só achava esquisitas as caras dos meus colegas no fim das aulas mas atribuía isso ao maravilhamento da honra de estar cinquenta minutos no estrado, diante da turma, numa posição de privilégio. Até que uma manhã ouvi o Pilinhas chamar-me

– Antunes

e dilatei-me de orgulho na carteira porque o privilégio ia, finalmente, pertencer-me. Ao

– Antunes

e eu era o único Antunes ali, seguiu-se um

– Chega aqui, Antunes

mavioso e risonho e viajei até ele num orgulho infinito, sentando-me na cadeira ao lado da sua, em cujo tampo o Pilinhas batia uma palma convidativa. Estar sentado de frente para os meus parceiros, no alto do estrado, encheu-me de orgulho e comecei a achar que, de facto, existia um não sei quê de hostil para comigo da parte de Paris, dos elefantes, do Mundo em geral, uma certa raiva na Austrália, uma antipatia óbvia nas ilhas Fidji, qualquer coisa de subtilmente antropofágico

(discreto mas óbvio)

no Uruguai, na Hungria, no Pólo Sul. De quando em quando os dedos do Pilinhas roçavam-me o cotovelo e acabaram por ancorar nos meus joelhos, acariciando-me de leve ao início, cada vez com mais força depois, subindo- -me as coxas em beliscões simpáticos, avaliando-me a textura da pele, encontrando-me o elástico das cuecas, tudo isto enquanto dissertava acerca do Espírito Santo e me alcançava subtilmente o a seguir ao elástico, procurando, em movimentos convulsos, aquilo em que só se podia mexer para cinco coisas e tentando juntar-lhe uma sexta. A certa altura convidou a turma a ler os Mandamentos em voz alta e, aí pelo terceiro ou quarto, inclinou-se para mim numa expressão que nunca esquecerei, parecida com a do camaleão da minha tia Graça, que morava numa gaiola na cozinha, antes da boca expulsar uma compridíssima língua instantânea que filava uma mosca desprevenida, enquanto o Pilinhas, de lábios quase colados à minha orelha, perguntava num cicio que me horrorizou, enquanto me apertava com langor as cuecas que a minha mãe adaptava do meu pai para mim:

– Já tens leitinho aí?

pergunta que me deixou atónito: quem tinha leite era a minha mãe, que amamentava os meus irmãos que sucessivamente iam nascendo, de mim a única coisa que saía era chichi e, portanto, cheguei a casa confusíssimo. O meu pai estava, como de costume, no escritório, de olho no microscópio, e levei que tempos a ganhar coragem para lhe falar. Via-lhe apenas as costas e não era capaz até que, sem conseguir aguentar-me mais, me saiu sei lá de onde a pergunta aflita

– Ó pai eu tenho leite?

O resto foi simples e rápido, não demora muito a contar. O meu pai ficou imóvel até olhar para mim numa expressão de estranheza:

– O quê?

Repeti embaraçadíssimo

– Já tenho leite?

o meu pai, franzido

– Que história é essa?

eu

– O professor de Moral perguntou-me se eu tinha leite neste sítio

a apontar-lho enquanto o meu pai

– Repete lá essa história

eu

– O professor de Moral perguntou-me se eu tinha leite neste sítio e convidou-me para em lugar de almoçar no Camões almoçar em casa dele

e depois vi o meu pai de pé, e depois vi o meu pai a vestir o casaco numa velocidade impensável, e depois vi o meu pai sair a correr, e depois vi o meu pai, da janela, entrar no carro, e depois vi-o chegar uma ou duas horas depois, e depois ficámos sem lições de Moral durante um mês. Um dos contínuos informou-nos que o professor estava doente. O meu pai nunca foi para graças. Lembro-me que nesse dia jantou em silêncio. Quer dizer não bem em silêncio porque entre o prato e a sobremesa
(o meu lugar ficava à sua direita)
o ouvi murmurar

– Filho da puta

e não tornou a abrir a boca. Teria trinta e poucos anos nessa altura, não dizia palavrões e foi o único que alguma vez lhe escutei. E é tudo quanto conheço acerca desse assunto.