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Injustiça climática: uma reflexão sobre os recentes furacões nos Açores e nas Bahamas

Nós lá fora

Casimiro Cavaco Dias

CARAÍBAS, BARBADOS - As Bahamas têm agora o duplo desafio de convencer os turistas a continuarem a visitar as ilhas não afetadas sem banalizar o sofrimento nas duas ilhas totalmente destruídas

Lorenzo fez história como o furacão mais forte já registado no Atlântico Norte. Tornou-se rapidamente num furacão categoria 5, mas começou a perder força enquanto se aproximava do arquipélago dos Açores. Rajadas de vento superiores a 150 quilómetros por hora e ondas de 15 metros foram registradas nas Ilhas do Corvo, Faial e Ilha das Flores. Aqui, 53 pessoas tiveram que ser realocadas. Os danos mais graves ocorreram no porto de Lajes das Flores, o principal porto para abastecimento à ilha.

Um mês antes, Dorian fez também história ao transformar-se lentamente no furacão mais forte já registado no Atlântico Ocidental com ventos máximos de 300 quilómetros por hora. Após a passagem do furacão pelas Ilhas de Abaco e Grand Bahamas, a norte das Bahamas, há 56 mortes confirmadas e mais de 600 pessoas ainda estão desaparecidas

Enquanto assistimos à transformação dos furacões mais fortes na nossa história, torna-se importante não esquecer e contar as estórias das pessoas dos Açores, de Abaco e Grand Bahamas que vivem e sentem os seus efeitos. Estórias que revelam o nível da devastação, estimulam a solidariedade e a ação contra a atual crise climática.

As Bahamas são um arquipélago de mais de 700 ilhas a norte de Cuba e a leste da Flórida com cerca de 400.000 habitantes. O furacão Dorian atingiu as duas ilhas mais setentrionais, as ilhas Abaco e Grand Bahamas, onde vivem cerca de 70.000 habitantes. Aí a destruição foi total. Todas as outras ilhas não sofreram estragos e continuam abertas para os turistas disfrutarem da beleza das Bahamas.

As Bahamas estavam a caminho de um ano recorde de turismo antes do furacão Dorian.

Alguns dos resortes mais famosos como Atlantis, Paradise Island, não foram afetados pelo furacão.

As Bahamas têm agora o duplo desafio de convencer os turistas a continuarem a visitar as ilhas não afetadas sem banalizar o sofrimento nas duas ilhas totalmente destruídas.

Como as Bahamas são muito dependentes do turismo, visitar as ilhas das Bahamas não afectadas é uma das melhores formas de demonstrar apoio e solidariedade. O turismo permitirá as Bahamas recuperar, reconstruir e começar de novo.

Dorian contornou Porto Rico para fustigar as Ilhas Virgens com ventos fortes a 28 de Agosto. Nos três dias seguintes, o furacão intensificou-se lentamente para atingir categoria 5. Depois parou aí, destruindo as ilhas durante 36 horas. Trouxe a força de ventos sustentados de 300 quilómetros por hora e uma parede de água da altura de um prédio de dois andares que arrasou e inundou casas.

A tempestade deixou para trás uma crise humanitária no norte das Bahamas, onde 56 pessoas morreram e mais de 600 pessoas continuam desaparecidas. Mais da metade das casas nas ilhas Grand Bahamas e Great Abaco foram danificadas ou destruídas no furacão. Milhares de pessoas foram evacuadas para Nassau, a capital do país.

Em Abaco, o movimentado porto Marsh Harbour tornou-se num terreno baldio de prédios destruídos, carros capotados e muita lama. Milhares de pessoas perderam as suas casas e tentam sobreviver às consequências de Dorian.

Mais do que tudo, Marsh Harbour está assombrada pelas pessoas desaparecidas. As equipas de resgate continuam a procurar, preocupadas com as centenas que ainda estão desaparecidos, mais de um mês depois da tempestade.

Repete-se, de forma interminável, a pergunta “Onde estão?”. O silêncio que se segue é insuportável.

Muitas pessoas estão traumatizadas, recontando as histórias em que assistiram a sua família e os seus amigos serem afastados pela corrente.

Com a subida da água, pais decidiram levar os filhos para o topo do casa antes dos ventos levarem o telhado. Regressaram com o resto da família, para nunca mais os encontrar...

Há histórias de crianças que foram arrancadas dos braços das suas mães enquanto tentavam evacuar as casas destruídas pelas fortes correntes de água.

Milhares de pessoas precisam não apenas apoio físico, mas também apoio emocional. Trata-se de ajudar as comunidades de Abaco e Grand Bahamas a lidarem com o impacto psicológico do desastre e reduzir o estigma a procura de apoio psicossocial e de saúde mental disponível.

À medida que a intensidade dos furacões aumenta, as ilhas das Caraíbas são cada vez mais vulneráveis ​​aos impactos das mudanças climáticas. Trata-se de uma questão de injustiça climática.

A contribuição das Bahamas para as emissões de gases do efeito estufa é de 0,01% do total global. Contudo, o país enfrenta riscos crescentes da subida do nível do mar, do aquecimento das águas e da intensificação dos furacões pelo aquecimento global.

A maioria das ilhas das Caraíbas estão a menos de um metro do nível do mar. Assim, as ilhas procuram urgentemente tornarem-se mais resilientes aos efeitos da mudanças climáticas, como a subida do mar e às tempestades cada vez mais devastadoras. A mesma urgência não é sentida noutras regiões do mundo, ainda não tão vulneráveis a mudanças climáticas.

Quando o furacão Dorian passou por Abaco nas Bahamas, expôs todas as desigualdades com que vivemos.

Mudd é um bairro de lata de Abaco. Foi construído, com materiais abandonados, em terrenos baixos e propensos a inundações. Aqui, como em outros bairros de lata, não há refúgio seguro.

Mudd fica ao lado da Baía de Baker, uma das comunidades mais exclusiva das Bahamas. Durante anos, os visitantes da Baía de Baker puderam ignorar as precárias condições de vida no Mudd. Mas agora, depois do furacão Dorian, isso não é mais possível. Mudd desapareceu.

Enquanto os residentes de Baía de Baker evacuaram a ilha, Mudd estava cheio. Os moradores, muitos sem documentos, ficaram a guardar as suas casas, enquanto outros fugiram para as igrejas locais a procura de abrigo. Em pouco tempo, todo o bairro desapareceu.

A devastação causada pelos furacões nas Caraíbas mostram o resultado das mudanças climáticas que nos afetarão a todos. Mas mostram sobretudo as crescentes desigualdades, com maior risco para as populações mais vulneráveis, exacerbadas por furacões cada vez fortes como resultado da atual crise climática.

O dia 1 de Setembro ficará para sempre na história das Bahamas. Deverá também ficar na história de todos nós para agirmos e fazermos a diferença. Assumirmos a nossa responsabilidade. Repensarmos as nossas escolhas de consumo e de transporte. Reciclarmos. Sermos ativos e votarmos para preservar o planeta para as futuras gerações.

Casimiro Cavaco Dias

Casimiro Cavaco Dias

BARBADOS, CARAÍBAS - Nasceu em Faro. Cedo, movido pela realização da saúde enquanto direito humano, viveu em Lisboa, Copenhaga, Washington DC, Luanda e nas Caraíbas. Especialista das Nações Unidas, apoia os Países em todo o Mundo a transformar sistemas e serviços de saúde mais inovadores, resilientes e sustentáveis. Entre a destruição dos furacões nas Caraíbas, os surtos de ébola e febre amarela na África, a crise dos refugiados na Europa ou a crise financeira dos Estados Unidos, a paixão e a criatividade das pessoas torna possível transformar e criar o futuro da saúde para todos. Autor do livro “O Valor da Inovação: Criar o futuro do Sistema de Saúde” e Prémio António Arnaut.