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O abraço do Chile

Nós lá fora

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE - o Natal está à porta, pelo menos no que respeita ao comércio. Aqui deste lado do mundo não se pode, de facto, deixar as compras para o último minuto

Há uma canção do Sérgio Godinho, no álbum dos Amigos de Gaspar de que eu gosto muito, chama-se Canção dos Abraços e começa assim: São dois braços, são dois braços/ servem pra dar um abraço / assim como quatro braços /servem pra dar dois abraços / E assim por aí fora /até que quando for a hora /vão ser tantos os abraços /que não vão chegar os braços...

Vem isto a propósito de que o Natal está à porta, pelo menos no que respeita ao comércio. Aqui deste lado do mundo não se pode, de facto, deixar as compras para o último minuto...se querem comprar luzinhas para a árvore de natal, agora é o momento, em Novembro. Em Dezembro já será tarde, as luzinhas já terão esgotado e para as cadeias de distribuição já não vale a pena mandarem vir mais contentores com artigos de natal até ao Chile. Em Dezembro, compram-se os chapelinhos para o réveillon, é o que há disponível e gracias! Em Janeiro, piscinas de borracha para o jardim e em Fevereiro compram-se os uniformes escolares. Consumismo ordeiro, pois então. A par deste aparente consumismo, é nesta altura do ano que começam também a organizar-se várias campanhas de solidariedade. Muitas são organizadas nos locais de trabalho e muitas mais são organizadas ao nível das escolas, cada instituição de ensino escolhe a organização que irá apoiar naquele ano, ou em anos consecutivos. Organizam-se coletas, convidam os pais a doar bens ou dinheiro, é a época das quermesses. Desta forma, dizem, vão-se inculcando noções de solidariedade e de empatia às crianças desde cedo. Na creche do meu filho as crianças construíram um mealheiro e durante o mês são incentivadas a contribuir alguns dias da semana com uma moeda para o mealheiro, ou a adquirir um lanche doado por alguns pais (a nós pediram-nos tapaditos como os que tinha levado para a festa de aniversário do meu filho... Tapaditos?!...ahhhh, as sandwichs!!! Pois é, nada supera a bela da sande mista...). No fim do mês todas essas moedas depositadas pelas crianças no mealheiro serão doadas à Teletón.

Teletón resulta da junção das palavras televisión com maratón. É uma campanha de nível nacional que se organiza no Chile desde 1978 e cuja ideia acabou por ser exportada para outros países da região. Inicialmente idealizada pelo então já famoso apresentador de televisão chileno Don Francisco (o seu nome verdadeiro é Mario Kreutzenberg) para levantar 1 milhão de dólares da época a favor de uma instituição dedicada ao tratamento de crianças com deficiência motora (a antiga Sociedad Pro-Ayuda al Niño Lisiado inicialmente criada para a reabilitação de crianças afetadas pela poliomielite e posteriormente, com a redução da incidência da doença fruto das campanhas de vacinação, a instituição veio a expandir o seu trabalho para o tratamento de outros casos de deficiência motora como os resultantes de problemas neurológicos, deficiências congénitas, acidentes, entre outros). Não foi um feito menor. O Chile de 1978 era muito diferente do Chile de hoje. Vivia-se há cinco anos sob uma ditadura militar, a sociedade estava (e ainda está!) profundamente polarizada, havia um conflito militar iminente com a Argentina e, naquele contexto, Don Francisco, decide falar com todos os canais de televisão, até os convencer um por um, a unir-se e transmitirem em simultâneo a primeira Teletón durante 27 horas ininterrompidas. Os chilenos uniram-se em torno de uma ideia solidária. Foram arrecadados 2,5 milhões de dólares da época e a Teletón passou a realizar-se todos os anos desde então, com exceção dos anos em que houve eleições presidenciais. Curiosamente este ano é ano de eleições (19 de Novembro) e a Teletón irá ter lugar nos dias 1 e 2 de Dezembro. O lema deste ano é “o abraço de todos”.

Poucas coisas unem os chilenos sem clubismos ideológicos, eu diria as Fiestas Patrias, a Teletón e o Festival de Viña del Mar...

Talvez esta vocação solidária seja uma compensação por uma sociedade profundamente individualista. O sonho americano. Um modelo económico de inspiração friedmaniana, herança das reformas económicas introduzidas pelos Chicago boys durante a década de 80. Há hoje uma classe média com obsessão pelo equilíbrio das contas públicas, que defende um sistema de saúde privado, educação privada e sistema de pensões privado. A questão da gratuitidade do ensino e a reforma do sistema de pensões são aliás dois temas muito importantes para estas eleições presidenciais. É também uma questão ideológica. Os Chicago boys produziram de facto um “milagre chileno”, mas a estatística é uma coisa tramada e a rábula dos dois frangos continua a ser verdade. Nós não comemos um frango cada um, a sociedade continua a ter desigualdades graves e há quem fique só com meio frango e os chilenos, todos, da esquerda à direita, sabem disso. É aí que entram a Teletón, a todas as outras iniciativas da sociedade civil, para complementar o que ainda falta fazer, para equilibrar um pouco a balança independentemente das divisões ideológicas de como se deve governar um país. Porque o ato de ajudar é, como diz o lema da campanha, “o abraço de todos”.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 8 meses aproximadamente...

Nas notícias por aqui: aparecem panfletos contra a visita do Papa Francisco num autocarro queimado na região da Araucanía.

Sabia que por cá… existe lei seca durante o período de eleições, a proibição da venda de bebidas alcoólicas terá início às 5 da manhã do dia 19 de Novembro e termina passadas duas horas do fecho das estações de voto.

Um número surpreendente: dos 8 candidatos presidenciais na primeira volta, 6 são independentes.

Inês Batalha Mendes

Inês Batalha Mendes

SANTIAGO, CHILE Vive fora de Portugal desde 2004. É licenciada em Direito, mas trabalha como analista de risco, uma combinação improvável que é o terror dos head-hunters mais arrumadinhos. Avessa a definições e curiosa por natureza, vai acumulando várias vidas como um gato. Já chamou casa a Madrid, São Paulo e a Santiago do Chile onde reside actualmente. Sente-se turista em Lisboa e estrangeira lá fora. Da vida do outro lado do mundo aprendeu que as castanhas comem-se em Maio e as cerejas em Novembro... e que se deve sempre ter um garrafão de 5L em casa por causa dos terremotos.