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Nós lá fora

Vasco Pinhol

NORUEGA - Gostava de pôr aqui a lista das coisas que estão iguais e das coisas que mudaram em Portugal desde que fui viver para a Noruega.

Fui a Portugal, quase que de raspão – no tempo, o luxo mede-se em disponibilidade para as coisas de que se gosta e não para as que é preciso fazer – e gostava de pôr aqui a lista das coisas que estão iguais e das coisas que mudaram desde que fui viver para a Noruega.

- A senhora séria e mal encarada do café ao pé de casa está igual, com uma ruga extemporânea a um canto da boca, o que me leva a crer que quando está à vontade sorri com um ar malandro.

- Os carros continuam a tentar conquistar passeios, embora a julgar pelo número de multas que vi, os valorosos cavaleiros da EMEL vão batalhando e conquistando terreno. Apanhei uma bela multa, ao pé da Gulbenkian.

- A ponte continua a ser uma espécie de janela conceptual onde os lisboetas se assomam para se lembrarem que o mar está mesmo ali, a chamar, a chamar.

- A menina da Galp deixou-me encher o depósito sem ter de lá deixar o cartão. Ou estão as coisas menos assanhadas, ou eu tenho um ar mais inócuo, ou as duas.

- O bar da praia fecha quando os serviços meteorológicos ameaçam mau tempo, sendo que mau tempo em português tem um significado totalmente diferente daquele que me habituei a aceitar.

- As pessoas têm mais bonomia, sorriem, e falam sem que seja preciso pedir por favor. Não sei se estão as coisas menos assanhadas, ou se eu tenho um ar mais inócuo, ou as duas. Mas é bom.

- O clima é de aceitação. Acho que a capacidade de aceitação lusa tem tantos milénios que já só lá vai com engenharia genética.

- A água estava boa, e sol. O sol não queima, esturrica. O duche quente sobre as costas no final de um dia no mar continua a doer. Antes era uma muda reptiliana de pele, agora vai a cremes. A velhice.

- A comida é tão boa. E os cheiros. E as cores. E a luz. É tudo tão bom. Os alentejanos continuam a olhar para as pessoas daquela maneira – um olhar de velada e divertida antecipação da parvoíce. É o mesmo olhar que encontro nos meus médicos favoritos, aqueles que nas crises de hipocondria se desatam a rir e mandam tomar uma aspirina.

- Os amigos. Estão todos iguais mas todos diferentes. E eu também.

- O tempo e a humidade criaram uma barreira de antipatia mútua entre mim e as roupas que enchem os armários do nosso quarto. Há um risco no chão da entrada que não reconheço, os nossos cheiros abandonaram o espaço, partindo para parte incerta.

- O fiambre da perna cortado às fatias fininhas na máquina é exactamente como me lembrava. A manteiga tem mais sal e a água menos cloro.

- Tudo é uma desculpa e uma oportunidade para fazer amigos. Até os acidentes. Somos mais sociais que as abelhas. E eu que venho de um país em que dizer olá pode ser uma mal educada intrusão. Tão bom. Tão bom.

- O céu do Alentejo, que faz com que todo o chão pareça pequenino.

- O mar de Sesimbra, a desgastar pacientemente o Cabo Espichel. Que coisa extraordinária.

Conto-vos agora uma cena que vivi e achei hiperbólica. Estava a fotografar exactamente no Cabo Espichel, atletas de alta competição vindos da Suécia para uma marca de material desportivo que se quer globalizar. Os atletas dentro de água, o fotógrafo dentro de água, pertinho do Bafo do Dragão, uma formação geológica na arriba do Cabo, em que a água propulsionada pelas grandes ondas oceânicas entra por uma caverna estrategicamente colocada e - nos momentos exactos de maré e mar - projecta um jacto de água meio líquida meio pulverizada com quase 30 metros de altura – um fenómeno que a Natureza parece ter criado ali para nos fazer sentir pequeninos e mortais. A 100 metros parece espectacular, a 50 metros parece perigoso, a 25 metros faz-nos questionar a que propósito estamos ali a 25 metros. Estávamos nós a fotografar a 25 metros, em ambiente mental de “extreme sports e isto no youtube vai ser um sucesso”, com níveis de adrenalina de aumentar a pressão intraocular, quando de repente, entre nós e o Bafo do Dragão aparece um senhor de uns setenta e muitos anos, de kayak, de cabeça branca, de caixa de merenda atrás, que pára defronte do enorme jacto de água oceânica, contempla o temível evento geológico com um olhar que me pareceu alentejano, sorri para nós com um olhar condescendente e fica ali como se não estivesse a privar com a morte violenta. Depois, continuou calmamente até desaparecer em direcção a Sesimbra. Eles acharam que o velhote era maluco, e eu achei que o velhote era Portugal.

VISTO DE FORA:

Dias sem ir a Portugal : 20

Nas notícias por aqui:

https://www.nrk.no/norge/folg-pasketrafikken-her-1.13460230

afortunadamente vivo num sítio onde a pior coisa que pode acontecer é trânsito no retorno do ski e isto:

https://www.nrk.no/buskerud/mange-ryggskader-i-fjellet-1.13476479

muitos acidentes de ski por culpa das condições da neve.

Sabia que por cá:

Este ano foi o primeiro em que a loja oficial de venda de bebidas alcoólicas (Vinmonopolet, que como o nome indica é um monopólio do estado) esteve aberta durante 5 horas no Sábado de Aleluia e venderam 45 litros de bebidas por minuto (323 000 litros durante as cinco horas).

Um número surpreendente:

Durante as férias da Páscoa os noruegueses têm uma tradição que envolve uma coisa nossa e uma coisa deles: consomem-se cerca de 20 milhões de laranjas e 17 milhões de chocolates Quick-Lunch. A Noruega tem 5 milhões de habitantes.

Vasco Pinhol

Vasco Pinhol

AALESUND, NORUEGA Vasco Pinhol nasceu em 1962 e começou a fotografar em 1970. É um insatisfeito e, embora alvo de cuidada educação, tem vindo a diluí-la – ou destilá-la, conforme a perspetiva – nas suas viagens. Nalguns sítios que visitou, foi ficando. É momentaneamente este o caso, na Noruega. Sendo que tem sempre o mar à janela do que está a pensar, viver com o mar realmente à janela alterou de forma indelével os seus maneirismos. Já foi português, e gostava de voltar a ser. Tem o trato de um pescador, embora as mãos mais cuidadas. Tem os olhos queimados pelo sol. Tem dois filhos. É feliz de uma forma calma.