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NAGOYA, JAPÃO - Os bens mais preciosos não se compram nem se ganham, são bens adquiridos na vida. A saúde, o caráter, o amor, a amizade, a fé, a confiança, a segurança.

Podemos ser muito seguros de nós, dizer que fazemos e acontecemos, tecer as mais estruturadas teorias e jorrar conhecimento mas, quando expostos à maldade e violência, a menos que sejamos criminosos ou bandalhos sem escrúpulos, não me venham com histórias, nunca estamos preparados para reagir

Sou privilegiada por ter nascido num país pequeno, inofensivo e seguro. É assim que te vejo, Portugal.

Num entretanto vim morar para um país que só não fica para trás do sol posto pois é aqui que nasce o sol. E aqui, quando nasce, é mesmo para todos.

O Japão é um dos países mais seguros do mundo (ponto) Podemos sair de casa para ir dar uma volta e deixar a porta destrancada. As zonas residenciais, fora do centro da cidade onde há mais prédios e aglomerado populacional, são compostas por casas baixas e um ou outro condomínio alto para desafiar a perspectiva. O silêncio impera nas ruas, de dia e de noite, e a tranquilidade de quem por elas circula é contagiante.

É a tranquilidade de quem nada teme que marca a diferença.

Os japoneses são metódicos, ultra controladores e seguidores das regras e isso também lhes confere segurança pois sabem com o que contam. Sabem que, mesmo que a estrada tenha 5 metros e não passem carros, os peões só atravessam a passadeira quando o sinal estiver verde. Sabem que se perderem o telemóvel no metro alguém o irá devolver, bem como a carteira (com dinheiro). Sabem ainda que todos chegam a horas aos compromissos agendados com uma semana (ou mais) de antecedência e que os atrasos são muito mal vistos. Sabem que podem pousar as coisas num banco de jardim ou noutro canto qualquer que nunca lhes irão tocar. Sabem que as palavras arigatou (obrigado), gomenasai (desculpe) e onegaishimasu (por favor) nunca são ditas vezes a mais e que isso revela educação, delicadeza e respeito pelo próximo. Sabem que a liberdade de um acaba onde a do outro começa e essa noção de espaço vale uma fortuna.

Recordo um episódio com a polícia. Fomos jantar ao centro da cidade num dia de semana e, como é comum por cá, às 21h já quase não se vê viv' alma. Estávamos parados num semáforo e queríamos virar à esquerda. O sinal abriu verde para seguir em frente mas pensámos que também daria para virar e assim foi. Mal seguimos caminho tivemos logo uma sirene a piscar e o altifalante do carro da polícia a pedir para encostarmos. Dois polícias dirigiram-se a nós e, gentilmente, pediram imensa desculpa pela abordagem. Lá explicaram a infracção, passaram a multa para pagarmos posteriormente numa konbini ou nos correios e despediram-se com uma vénia e sorriso na cara. Tudo sem o exacerbado (pequeno) poder da autoridade.

A polícia japonesa - Koban - tem cerca de 6 mil postos espalhados por todo o país. Cada região tem uma mascote diferente, relacionada com o animal característico da zona (a da região de Aichi, de Nagoya, é uma coruja), que é usada em cartazes, flyers e vídeos de prevenção da criminalidade. As mascotes agradam a miúdos e graúdos e fazem parte da cultura kawaii (o culto do “fofinho”), e esta forma de comunicação aproximou a polícia dos cidadãos, que passaram a prestar mais atenção à informação preventiva.

Os postos são geralmente pequenos, inóspitos e quase imperceptíveis mas estão ali para prestar serviço e dar segurança aos cidadãos.

É comum afixarem cartazes com os "procurados", com fotografias das caras, descrição e o valor de recompensa para quem os denunciar.
Estas pessoas são uma vergonha para a sociedade.

Uma sociedade demasiado regrada tem os seus prós e contras mas prefiro sempre realçar os prós pois não só me caracteriza como me ajuda a viver melhor. Felizmente sei o que é viver sem medo, mesmo com a terra a tremer de vez em quando, e cada vez mais admiro a ingenuidade e a bondade deste povo.

Acabo de aterrar em solo português depois de quase 7 meses longe da família que me viu nascer e o meu mar desagua nos seus braços. Neste encontro espontâneo e caloroso como só nós, portugueses, sabemos expressar, dou de caras com o maior emplastro da televisão nacional bem colado ao nosso abraço. Mesmo ao lado, no telemóvel de um funcionário do aeroporto toca (bem alta) a música “Don’t worry, be happy” e eu, entre lágrimas e gargalhadas solto um profundo “Chegámos a Portugal!”.

Aqui dentro ou lá fora, é muito bom estar segura.

VISTO DE FORA:

  • Dias sem ir a Portugal... zero
  • Nas notícias por aqui... o primeiro parque temático da Lego no Japão abre as suas portas no dia 1 de abril, em Nagoya. A Legoland Japan será a maior atracção do ano.
  • Sabia que por cá... já começou a época da Sakura. As árvores começam a desabrochar e a pintar os jardins em tons de branco e rosa. Até meados de maio podemos observar as cerejeiras em flor por todo o país.
  • Um número surpreendente... 140 são as categorias das contagens em japonês. Enquanto em português contamos “um cão”, em japonês contamos ippiki, com a terminação “piki” que se refere a um animal pequeno, mas se quisermos contar livros a terminação será “satsu” – um livro é issatsu. Assim é em bom japonês.

Catarina Oliveira da Costa

Catarina Oliveira da Costa

NAGOYA, JAPÃO Tem 34 anos e vive em Nagoya, no Japão, desde 2014. É designer gráfica e ilustradora freelancer. Começou a trabalhar numa agência de comunicação como designer e mais tarde entrou no mundo editorial, onde trabalhou como designer em várias publicações infantis e femininas. A Cosmopolitan e a Activa são as duas últimas equipas do coração. Casada, é mãe de uma menina com um ano. É apaixonada por desporto, moda, decoração e culinária.