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Glühwein, ou a febre dos Mercados de Natal

Nós lá fora

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA - Os alemães amam o seu Mercado de Natal. Para Bruno Sousa é sinónimo de muito frio, muito barulho, quiosques a vender bugiganga e comida duvidosa, e o cheiro doce mas meio enjoativo do glühwein (traduz-se em vinho incandescente)

Não há como ignorá-los. Com o início do Advento, logo aparecem, com as suas centenas de quiosques nas praças centrais de todas as cidades e vilas do país. Os alemães amam o seu Mercado de Natal.

Talvez seja uma das tradições mais incontornáveis da Alemanha. Invariavelmente, logo após o primeiro fim de semana do Advento, podes estar seguro, que um dos teus colegas alemães chegará ao trabalho de manhã e te dirá: “Já abriu o mercado de Natal!”. E poderás ver o brilho nos seus olhos, a antecipação incontida, o sorriso de orelha a orelha e todo o semblante te perguntará sem palavras: “E quando lá vamos outra vez?”

Eu, insensível, faço-me de despercebido. O mercado de Natal é assim como uma grande quermesse. Para mim é sinónimo de muito frio, muito barulho, quiosques a vender bugiganga e comida duvidosa, e o cheiro doce mas meio enjoativo do glühwein (traduz-se em vinho incandescente).

Mas não há como escapar-lhes. Os meus filhos, meio-alemães, têm-nos também no sangue. “Quando lá vamos?”. E então, após uns quantos adiamentos, lá vamos nós. Fim-de-semana. Fim-da-tarde. Luvas e gorro bem enfiados. Nós especados à margem do carrossel estridente a acenar-lhes. O mais velho já com dificuldade em lá enfiar, naqueles carrinhos e aviõezinhos, as suas pernas longas. O mais novo ainda embasbacado com a chinfrineira toda. E o do meio em puro deleite.

Depois compra-se um saco de pipocas e percorre-se as filas de quiosques e admira-se os penduricalhos de conchas, as colheres de pau, as carteiras de cabedal, as meias de lã, as velas de todas as cores e tamanhos, os brinquedos de madeira, mais uns penduricalhos de pedras coloridas, as manteigueiras de porcelana, as estrelas de papel, umas t-shirts radicais, os cintos de cabedal, os discos de vinil antigos, as lotarias de quinquilharia de fabrico chinês, mais colheres de pau e outros utensílios esculpidos de madeira, as pulseiras tricotadas com nomes, mais gorros de lã e mais, e mais…

Pelo meio, passa-se pelo quiosque das amêndoas fritas (com muito açúcar), pelas castanhas assadas (com muita brasa), pelas batatas fritas (com muita maionese e muito ketchup), pelo dos crepes (com muita Nutela), pelo das indispensáveis bratwurst (com pão e muita mostarda), pelas pizzas italianas e pelos lahmacuns turcos, pelos lángos húngaros e pelas flammkuchen alsacianas (as tartes flambée), e (last but not least) pelos quiosques dos Lebkuchen – uma grande bolacha alemã parecida a pão de Gengibre, e para ser mais específico e evitar mais queixas das minhas leitoras de Nuremberga (e só para dizer que descobri que tenho leitores em Nuremberga!!) – uma fabulosa especialidade da Francónia – os primeiros registos da sua existência datam do século XIII).

Os quiosques de Lebkuchen são o primor da quermesse. Centenas de Lebkuchen em forma de coração e com dizeres inspiradores tipo “Amo-te!” ou “Festas Felizes!” pintados com açúcar colorido, dependurados por todos os cantos. Os miúdos mal aguentam. “Quero um!” (para pendurar ao pescoço até chegar a casa e depois dar-lhe duas dentadas e deitar o resto no lixo). A gente resiste. Porque há de facto excelentes Lebkuchen, mas aqueles que se compram no mercado de Natal são do piorio. Secos e insonsos. Quando é assim, há que comprar os originais de Nuremberga, cobertos de chocolate! Por falar em Nuremberga, Nuremberga é a assento de um dos mais antigos, mais famosos e maiores mercados de Natal do mundo com cerca de 2 milhões de visitantes a cada ano.

E termina-se o percurso em frente à gigantesca e extravagante árvore de Natal (qual cidade consegue erigir a maior?) e ao presépio (alguns com pessoas de verdade). Por esta altura já começo a motivar os miúdos para o regresso a casa que se faz vagaroso por entre a multidão.

Mas o que faz com que os alemães confluam aos molhos nos seus queridos mercados de Natal é algo que me fascina. A minha impressão é que o que eles apreciam realmente – para além de andarem a comprar bugigangas kitsch de que não se precisa, só pelo prazer de as encontrar nestes quiosques de artesanato – é a atmosfera de geselligkeit (o Google traduz isto em Sociabilidade, mas não chega nem de longe para explicar o verdadeiro sentido da palavra, e a Wikipedia só tem uma página em alemão para explicar…), que se forma em torno dos tonéis de glühwein e das grelhas de bratwurst.

Aquela sensação de estar ali, encapuchado e encasacado, de pé, com o nariz vermelho, no frio de Dezembro, com os amigos e familiares, ou mesmo com estranhos, ao fim de um dia de trabalho, segurando aquela caneca quente, a descongelar os dedos e a escaldar as palmas das mãos, vaporizando efusões de especiarias e vinho doce pelas narinas acima, e a desfrutar de raros e preciosos momentos de companhia íntima e de galhofa descontraída enquanto se ouve e se canta êxitos schlager (música popular alemã). Há alemães verdadeiramente fanáticos pelos mercados de Natal. São capazes de tirar uma semana de férias para percorrer uns quantos pelo país a fora, postando os respectivos selfies no Facebook “Olha eu, tão bravo, a comer mais uma bratwurst!”. Há mercados de Natal onde se tem que reservar um lugar no parque de estacionamento com antecedência, porque senão, azar meu amigo. E há mercados verdadeiramente sumptuosos, como os de Munique ou de Dortmund.

Se estiver a pensar visitar a Alemanha pelo Natal, então trate de pôr na sua lista, um ou dois mercados de Natal ao fim do dia, e guarde espaço na mala para umas bugigangas, e no estômago para umas salsichas grelhadas regadas a vinho incandescente.

VISTO DE FORA

Dias sem ir a Portugal: 30

Nas notícias por aqui: Logo depois de ter escrito esta crónica ouvi a triste notícia do camião que matou várias pessoas no mercado de Natal de Berlim. Os alemães são muito resilientes e estou convencido que a tragédia não afectará o espírito dos mercados. Se ficou com reservas em ir a um depois da notícia, considere que a probabilidade de lhe acontecer o mesmo é inferior a 0,0001%.

Sabia que por cá… bom, é assim, há duas crónicas atrás eu disse que a currywurst era o prato típico da Alemanha, e que a última currywurst antes de chegar à América se comia no Cabo de São Vicente, em Sagres. Pois, tal como me apontaram, diligentemente, duas simpáticas leitoras alemãs, alunas de português em Nuremberga, enganei-me! A salsicha mais típica é a bratwurst de Nuremberga e que, por acaso, é a mesma que se serve nesse quiosque algarvio (fonte). Falta referir que o nome desta salsicha é Denominação de Origem Controlada (assim como o Vinho do Porto), e só pode ser produzida em Nuremberga, e é estritamente proibido pôr pó de caril em cima dela! Obrigado pela correcção!

Um número surpreendente: 1785 – o total de euros que um habitante de Stendal teve de pagar porque não separou o lixo convenientemente. Os inspectores encontraram dois lenços e um filtro de café (usados) dentro do contentor de plásticos. (fonte)

Bruno Sousa

Bruno Sousa

DARMSTADT, ALEMANHA Bruno é pai de três pirralhos, engenheiro aeroespacial chefe de operações de uma constelação de quatro satélites científicos (Cluster) da Agência Espacial Europeia ( as opiniões nas crónicas são só dele, e não da Agência) e nos tempos livres é autor e encenador com peças exibidas em Darmstadt, Den Haag, Antuérpia, Londres e Hamburgo.