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Oh the places you’ll go*

Nós lá fora

Miguel Moreira Rato

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LONDRES, REINO UNIDO - Não há nada mais subjetivo que falar das escolas dos filhos. A minha é sempre melhor que a tua. Ou então não é das melhores, mas é o que se arranja. No caso dos meus filhos, posso dizer com confiança que a experiência inglesa tem sido definitivamente muito melhor do que tudo o que já viveram em terras lusitanas.

O Mr Bishop tem paciência de santo. Envio-lhe, em média, um email por semana e responde-me sempre com uma rapidez alucinante. Imagino que, se ele soubesse o que sabe hoje, teria pensado duas vezes antes de abrir as portas do Saint Cecilia’s aos meus rapazes. A escola não tem mais nenhum aluno internacional a não ser os outros “Brasileiros”, “Italianos”, “Paquistaneses”, “Indianos”, “Espanhois” e por aí em diante que vivem em Londres desde que nasceram. São portanto mais ingleses que o Príncipe William. Por isso, devemos ser os únicos pais que enchem a “inbox” do Mr Bishop com perguntas básicas sobre o sistema de ensino em terras de sua Majestade. Uns chatos.

É o diretor adjunto da escola (gratuita) e foi o responsável por entrevistar o António, o mais velho, no arranque do verão do ano passado. Deixou-me ficar na sala, talvez por perceber que o facto do meu filho estar branco não se dever à ausência de sol mas a uma quantidade exorbitante de nervosismo. Pensei que não se safasse, tal era a lividez do adolescente. Mas passou com distinção – e com alguns atropelos na língua que, passado um ano, já domina de forma absolutamente exemplar. Ganhou um lugar numa escola nova de um bairro novo de uma cidade nova de país novo. Tudo novo. E o mesmo aconteceu ao Duarte e ao Manuel.

Os primeiros tempos – meses, entenda-se – foram tudo menos fáceis. Uma pergunta tão simples como “tens trabalhos de casa?” tinha normalmente a resposta “não sei”. Os miúdos simplesmente não percebiam o que se passava ao longo dos longos dias de escola. A isso somou-se o facto de termos escolhido para eles uma escola “de bairro”, muito bem conceituada, mas onde eles eram, e ainda são, exemplares únicos. São os “Portuguese”. Os outros todos, ingleses ou “quase”, são chamados pelo nome. Porque não são exemplares únicos.

Quando chegou o dia da primeira reunião com os professores, estávamos ansiosos. Estávamos habituados a reunir com professores que acrescentavam sempre um “mas” a todas as frases mesmo quando esse “mas” era completamente desnecessário – “ele é muito bom a gramática MAS fraco a ortografia quando tem nota máxima a Português”. Pior. Estávamos habituados a uma experiência terrível numa escola pública onde os alunos eram “inúteis”, “insuportáveis” “irrequietos”, “insubordinados” e outras tantas palavras começadas por i. Os professores que as declamavam acrescentavam que esses pequenos terrores dificilmente iriam chegar a algum lado pois a turma era a pior que já lhes tinha passado pelas mãos (o pai que nunca tenha ouvido isto que se acuse). A culpa nunca, por nunca ser, era deles mas sim dessa geração perdida e dos inconscientes que a tinham posto no mundo. E, por via das dúvidas, toca a meter baixa porque, vale a pena repetir, a turma era a pior que já lhes tinha passado pelas mãos.

Dizia eu que estávamos, no mínimo, nervosos. Se no nosso país era assim, nem queríamos imaginar o que nos iam dizer sobre os nossos filhos, que mal arranhavam a língua e raramente entregavam os trabalhos de casa. Falámos com um professor, dois, três. Cada vez que nos levantávamos de uma mesa para nos sentarmos na próxima, olhávamos um para o outro, incrédulos. Todos os professores, sem excepção, faziam-nos sentir que as nossas crias eram as mais educadas, bem formadas, empenhadas e promissoras criaturas do universo. Não houve um único “mas”, não houve um hastear de um sinal vermelho face ao facto de um não ter conseguido fazer o trabalho de inglês ou do outro não ter tido sequer nota no teste de história. Nada. Todos os discursos foram encorajadores. Cada professor estabelecera um objetivo para cada miúdo e era tarefa de ambos, juntos, alcançá-lo.

Chegámos a pensar que os miúdos gozavam de um estatuto especial por terem acabado de aterrar em Londres, mas depressa percebemos que o sistema educativo é mesmo assim. As crianças têm objetivos pelos quais têm que lutar, mas não estão sozinhas na conquista. Os professores também querem sentir o gostinho doce da vitória. E por isso adoptam um método construtivo, pela positiva, encorajando os miúdos a gostarem do que fazem, fazendo-os descobrir que há vida para além dos manuais, que as chamadas “soft skills” são tanto ou mais importantes que decorar que a Batalha de Wateloo aconteceu em 1815.

O ano foi correndo sem grandes sobressaltos escolares - para ser totalmente justo, excluindo a péssima experiência de um ano num liceu, os meus filhos vinham muito bem preparados pela escola onde estudavam desde os 6 anos. O inglês foi melhorando, os resultados e o ânimo também. Ao fim de alguns meses, o mais novo já corrigia o meu inglês e gozava com o meu “accent” americano. Está um verdadeiro bife, com pronúncia de Downton Abbey, o taco de pia. O do meio, mais hesitante em relação à mudança para Londres, foi motivo de orgulho ao longo de todo o ano, com alguns professores a lutarem por ele quando chegou a altura de escolher as disciplinas do ano que vem.

As últimas semanas antes do Verão custaram muito aos “Portuguese”. Em Lisboa, os amigos entraram de férias no início de junho. Em Londres, as aulas acabaram depois do dia 20 de julho e ainda houve tempo para exames. Há duas semanas, estávamos nós já a banhos na Costa Alentejana quando recebemos um email do Mr Bishop com as notas do António nos A Levels (exames de 11 ano). Não tinha obrigação nenhuma de as enviar pois são afixadas, mas ele sabia que estávamos em Portugal e voluntariou-se para as enviar, simplesmente porque queria dar os parabéns ao António e dizer que, se repetir estas notas no ano que vem, entra nas universidades que entretanto já escolheu.

“E os miúdos, estão a gostar?” perguntam-me sempre os amigos, os menos amigos, os familiares e os que não têm nada a ver com isso. Os miúdos, respondo sem hesitar, são os verdadeiros heróis desta aventura.

*título de um livro do Dr Seuss , escritor de livros infantis, sobre a iniciação à vida adulta

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Miguel Moreira Rato

Miguel Moreira Rato

LONDRES, REINO UNIDO Define-se como uma pessoa inquieta. No bom sentido. Já foi jornalista e assessor de imprensa, mas foi no empreendedorismo que encontrou o seu talento. Lançou duas empresas de comunicação e relações públicas e aos 40 – toca a todos – decidiu dar mais uma grande reviravolta e aceitou o desafio de liderar a comunicação de uma das mais promissoras ONGs internacionais. São 40 os países que estão a seu cargo, e Londres é agora a sua base. Desde que se mudou, há quase dois anos, já viajou pelos quatro cantos do planeta – literalmente – mas o que mais lhe lava a alma é voltar para casa e aproveitar os poucos raios de sol para conhecer o país para onde se mudou com a mulher e os três filhos – os seus verdadeiros companheiros de viagem.