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Miguel Miranda, Um invulgar 'profissionário'

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A pergunta repete-se e a resposta também não varia. Está a escrever um novo livro? Está sim. Ainda não saiu A Fome do Licantropo e outras Histórias, que chega às livrarias na próxima sexta, 24, e Miguel Miranda já mergulhou num novo romance. E acrescenta: "Na editora já lá deixei outro, um policial. Este que agora comecei talvez saia em 2015". Escrever, para este médico, nascido no Porto, em 1956, é um "prazer enorme", que o transporta para os mais inesperados mundos. Como os das personagens que compõem este "profissionário". São adivinhos, exumadores, jardineiros, quiromantes e usuários que ora têm uma vida exuberante por fora, ora escondem um universo sem limites por dentro. Um A a Z sobre artes, ofício e vocações que deixaria boquiaberto qualquer funcionário de um centro de emprego. Ficção em estado puro, numa inesgotável vontade de contar histórias e retratar almas.

Jornal de Letras: Tem alternado livros de contos e romances. Como praticante de xadrez, é o mesmo gosto pelas partidas longas e rápidas?

Miguel Miranda: Sim, é uma boa imagem. As partidas rápidas têm uma magia especial. No entanto, quando as analisamos com lentidão percebemos que se calhar fizemos algumas asneiras. É preciso um raciocínio fulgurante para em cinco minutos levar a bom porto uma partida. O romance, ou os longos jogos de xadrez, equivalem a construir uma grande catedral. Temos de equilibrar todos os aspetos do projeto. Continuando com as comparações, em linguagem enóloga, o romance tem um fim de boca prolongado. O conto, pelo contrário, tem a magia de se conseguir, em pouco tempo, criar um momento, um flash, um suspense, uma precisão.

E pensou estes contos como um conjunto? Foi uma simultânea de xadrez?

Sim, e já não é a primeira vez que o faço. Escrevo contos como se escrevesse um romance. São sequências concentradas num único horizonte temporal. Às vezes, o tema é comum, como aqui acontece. Não consigo estar a escrever um romance e fazer uma pausa para um conto.

Porquê?

Quando me lanço num romance fico totalmente absorvido, não sou capaz de me desviar, nem distrair. Sonho, navego, vivo a história. Seria impossível estar em dois projetos ao mesmo tempo. Aliás, fico completamente espantado quando ouço escritores dizerem que estão a escrever vários romances ao mesmo tempo. Não conseguiria. Os contos surgem precisamente quando não tenho uma ideia para um romance. Por vezes é um desafio, um pedido, e se começo a sentir um denominador comum vou progredindo.

Que tema comum esteve na origem de A Fome do Licantropo?

A vontade de escrever sobre gente normal que tem dentro de si um mundo completamente diferente. Ou o contrário: pessoas completamente diferentes que têm dentro de si uma personalidade normal. Foi com naturalidade que surgiram diversas atividades do género humano. Já se fizeram bestiários, breviários, herbanários, mas nunca um "profissionário". Aqui está ele.

O que é um "profissionário"?

Um elencar de profissões, vocações, inclinações, das mais comezinhas às mais exuberantes. Tanto é um mostruário como um "monstruário". De A a Z, são 25 histórias, a cada uma correspondendo uma arte, ofício ou vocação. 

Quem fala em profissões fala em identidades?

São conceitos próximos, sim. Aliás, há contos em que o nome da pessoa nem é nomeado. São os diretores e os administradores, que se confundem com o cargo. A alma das pessoas muitas vezes é vertida nas suas atividades, o que molda a forma como olham o mundo, procedem e trabalham. Mas aqui não se aborda apenas o lado laboral. Também há quiromantes, penetras, até o filho do abominável homem das neves. São profissões de facto ou de fé.

Curiosamente, o M não é de médico. A sua profissão não casa bem com a escrita?

Quando escrevo não fujo nem procuro a Medicina. Claro que casa muito bem com a Literatura, se calhar não tanto a Medicina mas a saúde e a doença. Tal como os mitos sobre as doenças psíquicas, também comentados no livro. Tudo faz parte da vida das pessoas, pois de médicos e de loucos todos temos um pouco. 

Luís Ricardo Duarte