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O Homem do Leme: Amor, um algoritmo

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JORNAL DE LETRAS Era uma espécie de ginástica passiva aplicada às questões do coração, não havia como não experimentar. Ainda para mais atendendo à planura amorfa das suas vidas.

Era uma espécie de ginástica passiva aplicada às questões do coração, não havia como não experimentar. Ainda para mais atendendo à planura amorfa das suas vidas. Magda já tinha engordado mais de sete quilos. E sentira-se humilhada quando uma tia lhe perguntara em surdina se estava grávida. A militância nas redes sociais não lhe parecia dar qualquer tradução real. Piotr, por seu lado, desde que emigrara para a Suíça tinha recorrentemente o sonho de estar preso numa câmara frigorífica. Não era o frio que o incomodava, antes aquela rotina tão desumanamente perfeita. Todas as suas experiências de encontros redundavam em quase nada. Um tremelique no lábios, um pedaço de alface preso entre os dentes, havia sempre qualquer coisa que não corria bem.
A aplicação tinha tudo para dar certo. Ainda estava em fase piloto, mas englobava já um vasto conjunto de elementos estatísticos e científicos que permitiam a construção de um complexo e poderoso algoritmo, praticamente infalível, segundo os seus próprios criadores. O Data Date, assim se chamava, também conhecido pelo algoritmo do amor (the love algorithm), funcionava em duas frentes. Por um lado, partia de um exaustivo estudo comparativo sobre a felicidade entre casais, a curto, médio e longo prazo, estabelecendo padrões de compatibilidade. Ao mesmo tempo, retirava dos seus clientes todos os dados imagináveis, sobretudo através de hábitos de consumo e comportamentais na Internet. Tudo isto criava o chamado grau de compatibilidade amorosa (compatibility love level) entre duas pessoas, quaisquer que fossem - uma percentagem que auferia a probabilidade de duas relações darem certo. Na fase experimental, a aplicação só estava disponível na versão sbl (sex before love), seguindo a ideia que a intimidade física deveria preceder a tudo o resto.
Piotr ficou entusiasmado quando, após semanas de busca, descobriu alguém com um CLL de cem por cento. Magda não poderia estar mais encantada com a ideia. Era algo tão raro, que a própria companhia os contactou. E disponibilizou-se para organizar e assumir todos os encargos relacionados com o encontro. Piotr não achou estranho que a cara metade também fosse polaca, afinal era na Polónia que se sentia feliz.
Viajaram ambos até ao sul de Itália. A companhia desafiou-os a levar a ideia de blind date ao limite, o CLL era de cem por cento, não havia nada a temer. Entraram para um quarto escuro. Os seus corpos conheceram-se através do tato. Boca com boca, enquanto se despiam, excitados com a experiência, com a forma como os seus lábios se encaixavam e com o sucesso do Algoritmo do Amor, a app do ano. Fizeram-no. E depois ficaram para ali estafados, adormecidos, na escuridão. Até que, com uma indelével curiosidade, Magda, numa palpação sistemática, lá descobriu o interruptor. Pressionou-o e deu um grito. Aquele homem, o amante mais do que perfeito, era afinal o seu irmão.JL