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O acaso como disciplina e algumas variações

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uma comemoração que não pode ser como as outras

Pedro Proença

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Vou papaguear o que já muitos devem a andar a fazer, quanto às efemérides que se adivinham para o ano 2012. Perguntava-me o que viria aí  no domínio da música, que é aquele onde é mais usual comemorarem-se nascimentes, mortes, aos centenários, bicentenários, e centenários e meio? Ao entrar no site da UBUWEB (http://www.ubuweb.com/), em demanda de uma curiosidade qualquer de literatura experimentalista para traduzir selváticamente, para contradizer, achincalhar, etc., deparei-me logo logo com o centenário do John Cage, com uma catrefada  de material novo, sobretudo conferências. Experimentai ouvir uma em estado de semi-dormitamento no chão ao lado do computador. Por vezes a voz do sr. Cage (ou do John) traia um tom de irritação na reacção às perguntas, mas depois regressava aquele estilo calmante e agradável a que nos habituou - pacífico, e bom para induzir a meditações ou a um sono profundo.

 

Cage sempre me foi extremamente simpático e é um dos meus heróis, tal como o acaso é uma das coisas mais estimáveis a ter em conta na lida da vida. Para Cage, o I Ching tornou-se a partir de certa altura a sua disciplina supostamente zen - nada de pernas cruzadas, ou de koans, enigmas, partidas, maratonas de meditação. Basta consultar o I Ching, tanto em questões comezinhas de foro íntimo, quanto em rigorosos procedimentos técnicos. Os resultados, bons, maus, discutíveis, curiosos, ou outros adjectivos que saquemos da manga, e que são a reacção perconceituosa ou espontanea a que temos direito, apenas sublinham a enorme eficácia desta disciplina na vida de John Cage, que se tornou uma figura incontornável, não só na música, como nas artes, na micologia e na literatura. Não conheço, porém, nenhum disciplinado consultor do I Ching com tanto interesse e desempoeiramento

 

Temos a sensação que o lado de indeterminação das suas obras é como uma corrente de ar fresco. Recordo-me de um dia que estava muito angustiado (o que é raríssimo) há mais de 30 anos, e que um concerto com o seu "Credo in Us" me ter deixado muito bem disposto, com essa sensação de abertura e frescura. Musica da treta, dirão uns. Treta que cura, digo eu.

 

É claro que as obras que continuamos a preferir são as que antecem o uso do manual de advinhação, como as populares peças para piano preparado, porque continuam a ser peças borbulhantes.

 

A história do acaso nas artes foi enunciada pelos Simbolistas (Lautréamont, Rimbaud e Mallarmée) mas só é sistemáticamente posta em uso pelos dadaístas - os papeis colados de Arp, os textos tirados do chapéu de Tzara, as coisas encontradas no lixo por Schwitterz, os múltiplos usos do acaso em Duchamp (sobretudo o ready-made) que foi, mais que qualquer outro, o mestre de Cage.

 

Cage acreditava na sua prática como algo libertante - acho que não estava nem preocupado com fazer "música", ou "arte" ou o que quer que seja, no sentido de mudar radicalmente ums disciplina para melhor, ou criar obras-primas, ou matar a arte, ou espezinhar o cadáver do conceito da arte.  Também não achava que o seu era o único caminho. Muitas vezes repetia que "se há um problema e 100 soluções, porque não usá-las todas?". Outras vezes enuncia um "ecletismo radical", ou cita o dito de Thoreau  em que "o melhor governo é nenhum governo" (ou o mínimo de governo, não me lembro bem). O seu diário, publicado em vários livros tem o curioso titulo "como melhorar o mundo (só vais tornar as coisas piores)", titulo paradoxal e doce.

 

As suas conversas são muito agradáveis e cheias de sugestões que nada têm a ver com os clichês da vanguarda a que parecem estar associadas - não há dogmatismo, e há muita abertura e vontade de experimentar coisas diferentes, num "e porque não?".

 

Na semana passada fiz uma experiência aleatória (mais do género do William Burroughs) com alguns dos seus ditos - e floresceram num àpice duzentas frases que ao mesmo tempo são cageanas (ou o refutam como o termo " misindeterminacy"). Atrevo-me a transcrever algumas:

 

o desengano, e não o objeto, é o que desaparece

 

o enredo é sempre o experimentar-se, não as obras

 

o que lidera pode seguir qualquer coisa

 

a  arte transforma rapidamente um estado de desconfiança num ambiente

 

o coexistir é a poesia

 

o desimpedimento chega confuso? e depois? não há motivo de erro

 

acções de não mudar o mundo

 

uma sociedade de coexistência deriva da educação mais libertadora

 

a mentalidade é o que se junta numa resposta instantânea

 

a história é jesus: a história é excelente, é o de mudar da possibilidade simultanea de interesses

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