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(Re)descobrir Maria Keil

Artes Visuais

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Mapear um percurso com oito décadas de atividade e muitos caminhos percorridos é o objetivo da exposição que o Museu da Presidência da Republica dedica a Maria Keil (1914-2o12), artista que atravessou todos os grandes movimentos artísticos do século XX. O JL visitou a retrospetiva, patente no Palácio da Cidadela de Cascais, com o comissário Rui Almeida, e falou com Diogo Gaspar, diretor do Museu 

Carolina Freitas

É uma presença constante no quotidiano lisboeta. São da sua autoria os revestimentos a azulejo de 19 estações do metro de Lisboa e painéis como O mar, situado na Avenida Infante Santo. Esta constitui, juntamente com a ilustração de textos literários e manuais escolares, a parte mais conhecida da obra de Maria Keil (1914-2012). Mas é apenas a 'ponta do iceberg' - como prova a exposição De propósito: Maria Keil, obra artística, patente até 27 de outubro, no Palácio da Cidadela de Cascais, numa iniciativa do Museu da Presidência (ver entrevista).

Uma retrospetiva que abrange as oito décadas da sua atividade artística, com o intuito de "revelar" um percurso multifacetado que além do azulejo e da ilustração, passa por áreas como o design gráfico, a pintura, o desenho, o mobiliário, a tapeçaria, a cenografia e os figurinos. "Quisemos mostrar as vertentes menos conhecidas do trabalho de Maria Keil, que são tão importantes como o azulejo e a ilustração", afirma, ao JL, Rui Almeida, comissário da exposição, juntamente com Alexandre Tojal.

A "diversidade" e "versatilidade" da sua obra foram, também para ele, uma surpresa. Só quando tomou contacto com o espólio de Maria Keil - colocado à disposição do Museu da Presidência, após a sua morte em 2012, pelo filho Francisco Pires Keil do Amaral -, se deu conta da 'empreitada' que tinha pela frente. Objetivo: Conseguir criar uma mostra "equilibrada" que refletisse toda aquela pluralidade. O resultado são 350 peças, escolhidas de entre mais de 2 mil do espólio da família e de um conjunto de outras pertencentes a coleções de entidades privadas e públicas, distribuídas por seis núcleos: Biografia; Azulejo, Desenho e Pintura; Cenografia e Figurinos; Design Gráfico, Publicidade e Ilustração; Mobiliário e Decoração; e Tapeçaria.

Entre novembro e janeiro próximos, a exposição viajará pelo Centro do país (Portalegre, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Fundão e Estremoz) e, de março a maio de 2014, pelo Norte (Bragança, Lamego, Guimarães, Viseu e Tibães).

 

UMA ARTE FEITA DE VIDA

É curioso que a primeira sala, destinada a dar "uma perspetiva geral da vida e obra de Maria Keil", como explica Rui Almeida, esteja repleta de ironia. Não que seja uma característica transversal a toda a sua obra - tal é a sua diversidade -, mas está, sem dúvida, muito presente no seu universo, sobretudo no desenho. Como traço da sua personalidade.

Desde logo, num par de autorretratos, dispostos lado a lado: o primeiro com uma figura sorridente afirma "Faço 80, sim e é de propósito"; o outro, preocupado e olhando de lado diz "Faço 80, sim mas não é de propósito" (série de 1994, quando a artista completou 80 anos, e que dá título - "De propósito" - à exposição). Encontramos essa ironia também num conjunto de 'objetos' pessoais, como postais de boas festas e desenhos feitos para amigos e familiares, colocados numa vitrina.

Antes de deixarmos o núcleo da Biografia, onde se destacam ainda uma fotobiografia e os primeiros trabalhos de Maria Keil para a Faculdade de Belas Artes (de 1929/30), Rui Almeida chama a atenção para Autorretrato (1941), uma das pinturas mais conhecidas da artista, que lhe valeu o Prémio Amadeo de Souza-Cardoso.

É na segunda sala, dedicada ao trabalho de azulejo, pintura e desenho, que nos deparamos com aquela que considera a peça "mais interessante" da exposição - "pelo seu valor simbólico", diz. Trata-se de um estudo de Regresso à Terra, pintura que Maria Keil enviou para a 2.ª edição das Exposições Gerais de 1947, na Sociedade Nacional de Belas Artes, e que foi retirada e apreendida pela polícia política, a PIDE, juntamente com trabalhos de Júlio Pomar, Mário Dionísio e Avelino Cunhal, entre outros. O original permanece desaparecido.

Entre as muitas obras deste núcleo, o comissário sublinha a reincidência, seja em azulejo, pintura ou desenho, de temáticas como a alegoria (nomeadamente nos estudos para a decoração do Cinema Monumental, na qual reelabora o mito antigo da invenção da pintura, narrado por Plínio o Velho) e a metamorfose (em séries como Roupa a Secar no Bairro Alto e Motauros).

Chegando à terceira sala, mergulhamos num universo, simultaneamente, familiar e estranho. Aqui estão as bem conhecidas ilustrações da artista para livros de autores como Matilde Rosa Araújo, Sophia de Mello Breyner, Antero de Quental ou João Paulo Cotrim, bem assim o trabalho gráfico dos livros de leitura da 1.ª e 2.ª classes da escola primária dos anos 1960/70. Mas mostra-se também um conjunto de trabalhos de design gráfico e publicidade até agora desconhecido do grande público (a primeira área que explorou, a partir de 1936, no Estúdio Técnico de Publicidade, fundado por José Rocha).

"Desde os anos 30, até muito tarde na sua vida, as diversas expressões do design gráfico foram uma constante presença na vida profissional de Maria Keil: anúncios, cartazes, capas de livros, selos e sobretudo ilustrações foram permanente objeto da sua intervenção. Para Maria Keil, não há artes maiores nem menores, mas sim a adequação dos meios à realidade necessária, num posicionamento que se destaca, no seu tempo, face aos defensores da 'nobreza' da pintura ou da escultura", lê-se no texto de parede. "No mundo da arte da sua época, quem não fosse escultor ou pintor não era artista. Ela sabia que havia esse preconceito. Por isso dizia que era operária, em jeito de provocação", comenta Rui Almeida.

Para o comissário, a sua dedicação a essas 'artes menores' (incluindo o mobiliário, a decoração e a tapeçaria, mostradas nas últimas salas) permanece como um "estigma", que impede que Maria Keil tenha  o devido reconhecimento na História da Arte portuguesa do século XX. Confessa, no entanto, que uma das características que mais o encantou foi, precisamente, a sua "humildade", o facto de "não se levar muito a sério" como artista. Isso, e a ironia. A fina ironia que voltamos a encontrar no

derradeiro desenho da exposição: um autorretrato que diz "Fiz pouco trabalho, não é verdade? Não sabia fazer mais".

O Museu da Presidência promove, ainda, um vasto programa de visitas e oficinas ligadas à mostra, para miúdos e graúdos.

As crianças podem assim descobrir o universo de Maria Keil nas "visitas-jogo" Azulejos que Falam (dedicada ao azulejo), Vamos Ouvir as Obras (pintura), Adivinha Onde Está... (desenho e ilustração), e na "visita-oficina" Quem Constrói Um Ponto, Acrescenta Um Ponto (que tem como base a obra de cenografia e desenho de figurinos).

Já a pensar nos mais velhos, e porque Maria Keil é uma artista transversal a muitas gerações, o Palácio da Cidadela de Cascais promove visitas orientadas para seniores, que terão um "caráter libertador", tornando o espaço expositivo num local criativo, de debate e interação. Onde os participantes terão oportunidade de "conversar à volta da obra de Maria Keil".

Estas atividades decorrem de quarta a sexta, das 14 às 18, segundo marcação prévia.

Destaque também para a iniciativa Fast Art - 15 Minutos com Maria Keil. Uma visita guiada a toda a exposição cujo intuito é explorar uma peça por núcleo expositivo (seis peças, no total), em 15 minutos. As peças-alvo poderão variar semanalmente.

Há ainda oficinas desenhadas para as famílias: Retratos em Família e Tu És o Meu Espelho! (a partir dos retratos pintados por Maria Keil), e Histórias em Família (cenografia e desenhos de figurino). Estas acontecem aos sábados e domingos, das 11 às 13 e das 15 às 17, com marcação prévia.