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The Fabulous Camané

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JORNAL DE LETRAS Novo álbum de Camané, homenageia o fadista português Alfredo Marceneiro

Quando questionado pelas suas referências maiores, Camané sempre foi muito claro: Amália, Carlos do Carmo e Alfredo Marceneiro. Da sua voz, tão marcante, uma das mais adoradas do mundo do fado, fazem pois parte estes três; nunca no sentido de quem imita, mas de quem, de forma saudável, se apropria para depois construir algo de novo. Em termos discográficos a afinidade com Amália é talvez a mais explícita. Não é por acaso que, já há mais de uma década, o crítico João Lisboa tenha afirmado a seu propósito "A nova Amália afinal é um homem". Essa plausível herança tornou-se ainda mais material quando foi dada a Camané a oportunidade de gravar inéditos de Alain Oulman, supostamente escritos para a grande fadista. Talvez também seja em Amália que Camané se inspira para o seu ecletismo, para as suas deliberadas e assumidas fugas ao fado. De Carlos do Carmo, a influência também é transversal, e está em grande parte ligada à importância dada à expressão de cada palavra, a forma como pronuncia os "erres" e eleva musicalmente os poemas, como se as palavras se tornassem corpo.
Com Alfredo Marceneiro a relação é, porventura, ainda mais antiga e explícita. Digamos que tem a ver com a sua pré-história artística. Quando Camané, em criança, cantava pelas coletividades, ganhando vários prémios e até gravando discos (com produção de António Chainho), de Marceneiro era certamente o seu reportório favorito. E tal ficou-lhe. Marceneiro significa em Camané toda escola do fado tradicional (a que se acrescentam muitos outros nomes), o seu lado popular, gingão e a sua sempre presente âncora no passado. Porque quando é para ser fadista tradicional Camané sabe sê-lo como poucos. A afirmação da reverência a Marceneiro em disco é, pois, mais do que lógica. E só tardou porque o fadista quis, antes disso, firmar a sua própria voz. Isto só é possível com grande maturidade e segurança: a tentação de imitar Marceneiro é grande, mas igualmente absurda seria a tendência para fugir só por fugir. E aqui, neste seu disco de homenagem, Camané consegue o justo equilíbrio, através de uma certeza na voz. Tal não seria se poderia fazer no início da carreira. Agora sim, Camané já pode fazer o que lhe apetecer, até cantar Marceneiro, porque adquiriu aquela capacidade definida por Camões, como "fingir que é dor a dor que deveras sente".
O reportório está próximo do emblemático disco The Fabulous Marceneiro, de 1961, que reúne alguns dos seus melhores fados. São letras de grandes poetas do fado, como Henrique Rêgo, Linhares Barbosa, Carlos Conde, Gabriel de Oliveira. Em muitos casos contam-se histórias e descrevem-se personagens de uma Lisboa de outras eras, muito localizadas no tempo e no espaço, sem pretensões de universalidade. Contudo, estes fados têm servido de fonte oral de transmissão da memória, da história de um povo e de uma cidade. Musicalmente, fados tradicionais e outros da autoria de Marceneiro, que entraram no reportório fadista, e servem de forma perfeita para a recriação interpretativa, que é uma das valias do género.
Claro que depois de Marceneiro (que como se sabe tinha um estilo único) grandes fadistas deram voz a estes fados. Assim como faz Camané desta feita, não levando apenas para o seu estilo interpretativo, mas também para o conceito de fado que desenvolveu ao longo dos anos com o seu produtor José Mário Branco. Algo que tem a ver com jogos de contenção, um cuidado com os pormenores e uma criteriosa gestão do espaço e do tempo, para privilegiar a voz, nunca deixando que o som da guitarra a atropele. O disco começa de forma talvez inesperada com uma versão de Cabaré em que se desconstrói um pouco o processo criativo, como quem quer dar ao ouvinte a possibilidade privar com os músicos. Tal ideia recupera-se mais à frente, em Senhora do Monte, que começa com Camané a cantarolar, ainda sem guitarras. Em Ironia, o tem que se segue, há uma construção lenta, estilo sopa de pedra, começando por guitarra e voz e aos poucos deixando o contrabaixo entrar e fazer o seu trabalho. Bêbedo Pintor começa em estilo Fado Falado para depois chegar ao canto. Em Lucinda Camareira abre-se uma luz com a voz de Carlos do Carmo, uma espécie de tributo dentro do tributo. E A Casa da Mariquinhas, claro, é um momento quase apoteótico guardado para a parte final do disco.
Este disco, em que o fabulous Camané canta o fabulous Marceneiro, era a peça que faltava na lógica, às vezes pouco linear, do percurso de Camané. Mais que nunca aqui Camané sente-se em casa, de onde, na verdade, nunca verdadeiramente saiu. JL