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Conceição Zagalo

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Presidente da Assembleia Geral do GRACE

Mas que desperdício de Género

Chegámos a uma fase do ano bem propícia a reflexões. Porque passaram doze meses sobre os propósitos firmados a cada passa de uva ou gole de espumante sorvidos com expectativa, porque está à porta novo ano e nova oportunidade de formular novos votos, ou pura e simplesmente porque os ciclos de calendário nos impõem exercícios de interioridade capazes de nos fazerem pensar de forma ainda mais séria e intensa na evolução de factos que importam

É num exercício de balanço que hoje vos trago alguns pensamentos sobre aquilo a que ao longo do ano assisti em matéria de igualdade de oportunidades para homens e mulheres.

É verdade que muito se tem feito quanto a este assunto, ponto final. Mas também é verdade que muito mais está por fazer, parágrafo.

O meu mais profundo sentido de justiça leva-me a reconhecer o esforço levado a exercício no nosso país por parte de decisores que, em diversos quadrantes de intervenção, se batem por políticas e práticas conducentes a uma maior equidade social. E que, na hora de recorrer a talento feminino em padrões semelhantes aos que se verificam no masculino, não estaremos já na estaca zero. Também porque o tema já deixou de ser debatido apenas a propósito de um dia único de calendário, neste caso o dia 8 de Março, malgrado tanta confusão isso continuar a fazer a tantos eles. E também, convenhamos, a tantas elas que insistem em baralhar vantagem de equilíbrio com desvantagem no reconhecimento de mérito pessoal e profissional. Multiplicaram-se este ano as iniciativas movidas pelo governo, setores empresarial e associativo. Como foram inúmeras as campanhas de sensibilização sobre as disparidades sociais e seu impacto negativo num cenário de Direito Universal.

Mas significa isto que o debate produziu os efeitos desejados seja em Portugal, na Europa ou no mundo? Nada disso.

Tive, há um par de meses, o privilégio de ter sido desafiada pela Embaixadora de Israel a participar numa conferência internacional sobre empoderamento económico, liderança, educação e empreendedorismo. Pois bem, a 29ª Conferência Internacional de Mulheres Líderes reuniu em Haifa e em Jerusalém tantas quanto cerca de sessenta mulheres com responsabilidade nas áreas política, económica e social. Vice-presidentes, ministras, membros do parlamento, presidentes de organizações nacionais e internacionais ou de organizações não-governamentais dos quatro cantos do mundo debateram, ao longo de uma semana, todo um conjunto de fatores que podem inibir o papel da mulher na economia enquanto parte da solução para crises económicas e financeiras e consequente resiliência económica e crescimento mundial. Numa palavra, debateu-se sustentabilidade. Com base em quê? No tema Género.

Sabendo que os promotores de tal conferência, a par com o Governo Israelita materializado na pasta dos Negócios Estrangeiros e no próprio Presidente da Nação, são organizações como a United Nations Development Programme e a United Nations Women, acreditamos que a relação causa-efeito de tal discussão não se cinja mais às velhas questões de machismos ou feminismos, mas tão-somente ao reconhecimento do empoderamento das mulheres enquanto contributo importante para uma sociedade e economia capazes de transformarem o mundo, ou seja, de o tornarem mais próspero, mais saudável, mais pacífico para cada um dos seus sete mil milhões de habitantes.

Está na hora de sermos muito mais exigentes do que fomos no cumprimento das metas dos objetivos do milénio. 2015 já era. Se alguns dos desafios foram cumpridos, sejamos honestos a ponto de admitir que ficámos bem aquém do que precisamos para podermos viver sem pesos na consciência.

Até porque os objetivos de desenvolvimento sustentável traçados para 2030 com base nas lições colhidas da anterior agenda são muito claros e rigorosos quanto aos temas de igualdade de género e de desigualdades sociais.

E, se achamos que isto é apenas coisa de mulheres, vamos lá ouvir países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento e perceber o que nos dizem, na primeira pessoa do singular, responsáveis pelo cumprimento de justiça política, social e económica nas suas respetivas pátrias. Sim, porque é verdade que, em pleno século XXI, ainda existem seres humanos mulheres que não têm direito a educação, a trabalho, a remuneração, a terreno próprio, a empreender, a ter opinião, a votar… a viver em dignidade.

Se assim se perdem oportunidades de ouro para contribuirmos de forma séria para a riqueza social e económica neste nosso planeta, então meus amigos, vamos lá a ter a hombridade de reconhecer para com cada um e cada uma de nós que a humanidade pode estar comprometida por um indesculpável desperdício de género.