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Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Dias santos e feriados

Getty Images

Décima oitava crónica do blogue 'Cuidando e contando: crónicas de uma neuropediatra', da autoria de Teresa Temudo

Na casa dos sessenta. Alta e forte, porte de comandante reformado. Devia ter sido uma bela mulher, a adivinhar pela filha que a acompanhava. O problema era a neta. Era o que as trazia à consulta. Já tinham corrido muitas, à procura de solução. Que não existia.

As lágrimas corriam-lhe fartas, incongruentes com a figura.

- Ó senhora doutora, não há mesmo nada a fazer?

Era ela quem ficava com a neta durante o dia, quem lhe antecipava os desejos, lhe atribuía vontades, alimentava e lavava, dava comida e medicação, aturava os gritos estridentes, as gargalhadas, o ranger de dentes, a respiração ofegante.

A menina era diferente da avó e da mãe, mas tinha vindo o irmão mais novo e, por trás das alterações fisionómicas provocadas pela doença crónica, achei-a parecida com ele.

- Ah, senhora doutora, são parecidos com o avô. É muito bonito, o meu homem! – e deu um suspiro fundo.

- Ai é? –retorqui, querendo saber mais.

- A senhora doutora não conhece os Silvas de Trancoso? São todos altos, bonitos. Só é pena serem mulherengos.

- Mas o seu marido não é...

- Ai não que não é! Teve sempre duas ou três, sem contar comigo.

- E a senhora não se importa?

- E que hei de eu fazer? Gosto tanto dele! Para ele, para os filhos, para os netos, só tenho abraços e beijos. Não consigo zangar-me. A minha filha aqui que o diga.

E a filha, ao lado, impávida, acenou que sim com a cabeça. Que sim, que sim, ela deixava tudo. Chegara casa a meio da noite vezes sem conta, semanas a fio, meses, anos. Vê-lo sair bem vestido, calças vincadas, colarinho engomado, lenço branco a sair do bolso, perfumado, impecável; chegar amarrotado, por vezes a tropeçar nos móveis, a cheirar a tabaco e a álcool. A cheirar a mulher. Aturar-lhe o mau humor. Ouvir-lhe as desfeitas à comida. Vê-lo a roncar de dia encima do sofá de pijama às riscas e chinelos xadrez.

- Nunca foi homem de uma mulher só. Sempre duas ou três. E olhe que eu as conheci a todas. Sempre bonitas.

- A senhora se calhar também nunca o deixou porque não tinha emprego...

- Não senhora doutora, está muito enganada. Eu sempre ganhei muito dinheiro. Ainda hoje sou uma grande modista. Mais lhe digo, cheguei a desenrascá-lo a ele quando os negócios lhe correram mal..

- E os filhos, os filhos nunca se aperceberam de que ele era assim?

- Ah, eu soube protegê-lo! Pintei-o sempre bom e grande para os olhos dos filhos. Fiz com que o adorassem. Há mulheres que viram os filhos contra o marido. Burras! Eu sempre lhes disse: tratem bem o vosso pai, para ele ter vontade de voltar para casa. E eles assim fizeram. Quando cresceram deram-se conta que o pai não era bem igual ao que eu dissera. Mas já era tarde para voltarem com o amor para trás. Não estou arrependida. Foi melhor assim para todos.

A filha aquiesceu, batendo apenas com as pestanas. A neta, ao lado, rangia os dentes e esfregava continuamente uma mão na outra. O irmão, distraído, metia cubos coloridos na caixa de um camiãozinho.

- Agora que está mais velho já lhe deve dar descanso, não?

- Ah sim, agora já tem só uma. Coitada, já nem é nova. A mulher deu cabo da vida por ele. Podia ter-se casado com outro, ter uma família. Mas não. Afeiçoou-se a ele, nunca quis outro e os anos foram passando. Outro dia encontramo-nos na florista. As duas a comprar cravos brancos que são as flores que ele gosta. Olhamos uma para outra e sorrimos. A florista estava meia enrascada. Lá na terra tudo sabe. Julgou que nos íamos pegar. Qual quê? A senhora doutora sabe que até lhe quero bem? Pois não era injusto que ele agora a deixasse, depois de lhe ter estragado a vida? Ora, coitada da moça! Se eu gosto tanto dele, ela também tem o direito de gostar igual! Ele está a ficar velho. Outro dia até me disse: “ó mulher, um dia destes tens-me todo só para ti. Tu não vês que agora até te dou os santos e os feriados?”.

- Os “santos e os feriados”?- perguntei

- Sim, senhora doutora, que eu dantes só o via à noite nos dias de trabalho. Agora não. Só sai ao sábado com ela. Eu já sei. De manhã arranja-se todo, perfuma-se e lá vai ele. Só volta ao fim da tarde. Mas verdade seja dita, logo que chega vai logo...(tomar banho ! – pensei eu) lavar o automóvel por dentro e por fora. Em seguida leva-me sempre a jantar . Ah, senhora doutora, Deus tem-me abençoado. Tenho sido uma mulher muito feliz! Já a minha filha não pode dizer o mesmo, Deus deu-lhe esta menina deficiente. O que vale é que ela puxou a mim. Tem muito amor para dar neste mundo. Nascemos para amar, senhora doutora. Para amar um só homem e os filhos todos que ele nos der .

Ao lado a filha acenava com a cabeça, com um ar conformado. A neta dava um suspiro profundo após uma pausa prolongada da respiração. O menino descobrira o lavatório, pusera a torneira a correr e lavava o camião. Pensei: “puxou ao avô!”.

Turiz, 20 de Janeiro de 2019

Teresa Temudo

Teresa Temudo

Neuropediatra

Pediatra e Neuropediatra no Centro Hospitalar do Porto. Doutorada em Ciências médicas. Professora de Pediatria no curso de medicina do ICBAS. Investigadora em doenças de movimento na criança e perturbações do espectro do autismo.