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"O médico recomenda um medicamento e o paciente escolhe não tomar, porque leu outra coisa""

Entrevistas VISÃO

Luis Barra

Jürgen Kaube Sociólogo, jornalista e autor, lamenta, em entrevista à VISÃO, o "enfraquecimento" da autoridade das instituições

Sara Sá

Sara Sá

Jornalista

Não somos melhores nem superiores aos restantes seres vivos que habitam a Terra. Somos singulares, defende o jornalista e sociólogo alemão Jürgen Kaube, 56 anos. No seu livro As Origens de Tudo (Desassossego, 352 págs., €19,90), o editor de cultura do Frankfurter Allgemeine Zeitung, reconhecido como Science Writer of the Year (escritor de ciência do ano) pela Medium Magazine, conta-nos a origem da linguagem, os avanços e recuos da monogamia, a função da música e da religião. No fundo, aquilo que faz de nós humanos. Seres imperfeitos, porém “dignos de ser lembrados”.

No tempo da informação, a pseudociência ganha terreno. Onde é que estamos a falhar?

A autoridade das instituições está enfraquecida. O médico recomenda um medicamento e o paciente escolhe não o tomar, porque leu outra coisa na internet... A razão pela qual isto acontece é o que interessa avaliar. Talvez porque há muita informação disponível e a pessoa se perde. E hoje é mais fácil ficar a saber que um determinado profissional cometeu um erro. Veja-se toda a discussão acerca da medicina alternativa. Foi uma luta no século XIX em torno de qual a medicina mais válida! Que parte do mundo conhecemos? Há centenas de milhares de assuntos sobre os quais nada sei. Então, em que me posso apoiar? Na reputação. Por exemplo, se 70 mil cientistas no mundo afirmam que estão a ocorrer alterações climáticas, tenho de confiar nisso. Que crédito damos a uma pessoa que fala uma linguagem que não compreendemos? Será da internet, que facilita a disseminação da pseudociência? Será a educação que está a falhar? Estarão os melhores professores a afastar-se da escola? É preciso analisar de onde vem esta crise de reputação.

Começa o seu livro com a frase: “Tropeça mais facilmente quem leva a lanterna do que aquele que a segue.” Muitas vezes, este é o argumento usado por pseudocientistas, que se apresentam como visionários. Como se distinguem os génios, como Einstein, de quem os pares chegaram a duvidar, dos charlatães?

Estamos apoiados nos ombros de gigantes, como disse Newton. Isto também é verdade para o Einstein. Não se tratou de inventar algo totalmente novo, em rotura com o que já se sabia. Mas, antes, de dar um sentido à informação que já tinha sido recolhida. Quando nos aparece algo que vai num sentido completamente oposto ao que se pensava até então, é preciso duvidar.

Conhecer as origens é uma forma de nos defendermos da pseudociência e até das notícias falsas?

Para resolver o problema das fake news é preciso ter, por um lado, um objeto: um ornamento, uma pintura, um osso, uma estátua. E analisá-lo de uma forma muito empírica. Mas os dados empíricos não levam à verdade por si próprios. É preciso o pensamento: será isso uma contradição, será que encaixa no que já sabemos? Temos de cultivar uma atitude de ceticismo perante o mundo, de especulação controlada. Não um ceticismo sem limites, selvagem. Não podemos dizer: “Isto não é verdade e ponto.” É preciso estar aberto a alterações, atualizações. E dizer: “Isto é o que sabemos agora, neste momento.”

Como é que podemos orientar-nos num mundo que é tão vasto em assuntos?

É por isso que temos a democracia. Damos a alguém o poder para decidir por nós. Nas próximas eleições, podemos votar noutro se não estivermos de acordo com as decisões tomadas. Um bom cientista é alguém que diz também o que não sabe, que não faz promessas demasiado ambiciosas, como anunciar que vai resolver todos os problemas da sociedade.

Porque sentiu necessidade de olhar para o passado, numa altura em que estamos obcecados pelo futuro?

A minha primeira motivação foi pura curiosidade intelectual, pela dificuldade de ter de olhar para eventos que estão num passado longínquo e sobre os quais há pouca informação. Deu muito trabalho, mas foi uma experiência comigo próprio. Não sou especialista nestas áreas, não sou biólogo nem arqueólogo. O desafio foi: será que um leigo consegue entender o que produzem os cientistas, os historiadores, os arqueólogos? Cabe ao leitor agora avaliar isso.

A ordem dos capítulos é só aparentemente cronológica. Não foi uma prioridade?

Alguns processos duram milhares de anos. Não é possível ter uma ordem cronológica rigorosa. Além disso, há muitas controvérsias, por exemplo, como o cozinhar. Há quem defenda que aconteceu há 800 mil anos e outros há 40 mil anos. Quando nos aproximamos do presente, os intervalos de tempo tornam-se mais pequenos. Tudo acontece mais depressa, uma inovação alimenta a outra. Se construirmos uma cidade, imediatamente temos escrita, porque a usavam para registar os produtos armazenados e fazer a contabilidade. Esta foi, na verdade, a principal motivação para a utilização da escrita, não a comunicação. Depois vêm as leis, o Estado, o dinheiro. Tudo isto aparece num curto espaço de tempo. E “curto” significa 200 mil anos, neste contexto. Para a invenção da escrita não há controvérsia. Sabemos exatamente quando e onde começou. Começou, de forma independente, na Mesopotâmia, na China e na América Latina. Tento sempre indicar a primeira vez.

Isso é importante?

É para algumas inovações que começaram e depois se difundiram. Por exemplo, a formação do Estado, no Havai. Aconteceu lá, sem que para isso tenha havido qualquer influência externa, porque é um local muito remoto, rodeado de água e muito longe de tudo. Além disso, quando foi descoberto (por Cook, que chegou lá e foi imediatamente assassinado), havia ainda memória do tempo anterior à formação do Estado. Ou seja, enquanto na Mesopotâmia a informação chega--nos através das ruínas, no Havai houve testemunhos, comunicação oral. Por vezes, a ordem cronológica não faz muito sentido. Como no caso da monogamia. Ao longo do tempo, passou por várias ondas, foi e veio, existia em algumas sociedades, enquanto outras eram completamente poligâmicas. Por exemplo, a Europa era monogâmica, enquanto o resto do mundo era poligâmico. Este é um caso em que não há uma linha. Eu não estava interessado em invenções tecnológicas: não o fogo, mas o cozinhar; não as armas, maso Estado. Estava interessado em inovações sociais. Coisas que impliquem a utilização por duas ou mais pessoas. Selecionei temas que ainda hoje fizessem parte da nossa vida.

Que tipo de leitor tinha em mente?

Penso nos meus filhos [adolescentes], na minha mãe... O objetivo é que qualquer um consiga ler e acompanhar. Alguém que não seja obcecado com o futuro [Risos]. Mesmo que precise de fazer uma outra pesquisa ou perguntas para compreender certas partes do livro. Algo que me interessou também ao escrever este livro foi mostrar que coisas que damos como garantidas, que fazem parte do nosso dia a dia, demoraram muito tempo até se tornarem parte da nossa vida. Como a arte, por exemplo. Hoje estamos obcecados com a sua utilidade. A arte, para os homens das cavernas, era uma necessidade.

A necessidade é um grande móbil...

Outro exemplo é a domesticação dos animais. Há um investigador francês que descobriu que domesticavam ovelhas e bodes, mas não os comiam. Numa frase, o investigador resume a questão: “Eles faziam-no não por ser útil, mas porque podiam.” Isto representa uma nova fase. Com a religião acontece o mesmo. Porque enterravam os corpos, enfeitavam as sepulturas, com conchas, numa altura em que eram nómadas, andavam de um lado para o outro, porque não se limitavam a deixar os corpos para trás? Isso custava-lhes muito tempo. Os arqueólogos estimam que estes nossos antepassados passavam centenas de horas só a ornamentar as sepulturas. Há determinados desenvolvimentos cujo aparecimento é motivado pela necessidade, pela sobrevivência…

Tudo o que Darwin nos ensinou…

Exato. Mas depois há algo mais. Há coisas que não encaixam exatamente nesta necessidade de sobrevivência.

E é isto que nos torna humanos? Não somos melhores nem superiores, mas singulares. É o que defende no livro.

Sim. Em alemão, a palavra que usamos significa “digno de ser lembrado”. O que nos torna singulares, complicados de certo modo – porque todas estas características têm de coexistir, como a política e a religião, a arte e o dinheiro – é um processo de diferenciação. Na arte, começou-se com pinturas corporais, joalharia, sinais que indicavam pertença a uma tribo.

Mesmo assim, o livro parece uma homenagem a Darwin.

Claro que Darwin foi fundamental. É um tributo. Mas o próprio Darwin era mais complicado e sofisticado do que os darwinistas. Há muito espaço para a especulação. Os arqueólogos são uma espécie de detetives. Encontram um dente e lá enfiado um bocadinho de milho, e depois percebem que este milho foi ao forno.

É uma construção.

Claro!

Quer dizer que a História pode, na verdade, ser completamente diferente?

Bem, completamente não. No início de cada história, há sempre um mito. Depois vêm as construções filosóficas. No século XIX não havia interesse no início, nas origens. Mas depois, com o desenvolvimento da arqueologia, passamos a ter muita informação, com espaços por preencher. Agora estamos num ponto em que se fazem construções. O caminhar em pé levou a uma diminuição do canal de parto. Isso obrigou a que os bebés nascessem antes, mais pequenos, para poderem passar pelo canal e que a mãe andasse mais tempo com o bebé ao colo. Num modo de vida nómada, a mãe tinha de pousar o bebé no chão para apanhar comida. E o bebé chorava, o que atraía predadores. Portanto, o que se pensa é que através da música a mãe mantinha o bebé calmo e em silêncio. Aqui temos o valor evolutivo da música. Quando temos crianças, falamos com uma voz diferente. E não são só as mulheres. É comum em homens e mulheres de todos os povos. Também se percebeu que o choro tem uma estrutura musical. A própria comunicação mãe/bebé tem uma componente musical.

Nada disto é definitivo, então?

Daqui a 20 anos, metade do que conto neste livro será diferente. Haverá novos dados. Por exemplo, quando eu já tinha acabado o livro, encontraram-se ossos em Marrocos e foi preciso ajustar a teoria sobre a evolução do Homem. Há um movimento constante. Mas há histórias que já não podemos contar, preposições que podemos excluir, mitos que estão totalmente descartados. Já não podemos dizer que o caminhar ereto foi como no filme do Stanley Kubrick [2001, Odisseia no Espaço], para terem as mãos livres para caçar. Porque quando isto aconteceu, o Homem não era caçador, era presa. Isto é um progresso da Ciência. Em relação ao aparecimento da escrita, é algo definitivo – ficaria muito surpreendido se aparecessem novos dados que viessem contrariar a teoria que temos.

De onde espera que venham a surgir mais novidades?

Se na China começarem a levar a arqueologia a sério, vamos ter muitas surpresas. Porque sabemos tanto sobre os reis? Porque os britânicos e os franceses tiveram interesse em estudá-los, já que eram eles quem tinha poder e dinheiro.

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