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"Não podemos achar que vamos ter sempre estudantes: temos de tornar o ensino mais atrativo"

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António Fontainhas Fernandes

Luis Barra

Leia a entrevista a António Fontainhas Fernandes, Presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas

Luís Barra

Luís Barra

Repórter Fotográfico

Eleito pelos pares em 2017, data a partir da qual passou a ser preciso apresentar uma candidatura para se ser presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), gosta de dizer que a sua vida se fez de uma sucessão – feliz – de acasos.

Foi assim até para entrar na universidade: natural de Guimarães, tinha ido fazer o 12º ano em Braga e preparava-se para ficar na cidade. Mas, no dia da candidatura, tinha jogo de râguebi, o seu desporto de eleição (“tem de se ser muito focado, é-se obrigado a trabalhar em grupo, se um falha, falham todos...”), e esqueceu-se de se inscrever. Lá acabou por entrar em Agronomia em Vila Real.

Entretanto, apaixonou-se pela região e empenhou-se numa série de outras causas, como organizar exposições de fotografia ou criar um cineclube, ali mesmo em Trás-os-Montes. Acabou por seguir a carreira académica, sem esconder que, pelo meio, andava a criar um filho sozinho, depois de a mulher morrer com um cancro, no dia em que a criança fez quatro anos. “Hoje, ele tem 17 anos e já não é meu: é do mundo”, remata, orgulhoso.

Com mandato até 2022, gostaria de deixar uma universidade mais exemplar, do ponto de vista ambiental e social. Daí que tenha lançado uma convenção para, ao longo de 2019, preparar a agenda da próxima década. Aos 57 anos, insiste: “Temos de pensar na forma como vamos responder às mudanças no mundo.”

A convenção que aí vem é para anunciar uma revolução nas universidades?
Não estou a anunciar nada. Estou só a dizer que é preciso pensar o ensino e as instituições. A grande missão da universidade é formar pessoas.


Quais são as prioridades?
O ano de 2019 vai ser marcado por eleições, legislativas e europeias. Portanto, temos de pensar que futuro queremos para Portugal, que futuro queremos para a Europa. Portugal tem de ter uma agenda para o Ensino Superior pensada a uma década. 
É preciso aumentar o número de alunos: ainda há muitos estudantes que não entram nas universidades sem se saber porquê.

Para alguns, ter-se-á tornado menos atrativo...
Sim, mas está comprovado que quem possui formação superior tem mais facilidade de penetração no mercado trabalho, nacional ou europeu, do que quem não a possui. Temos ainda de pensar em novos públicos: em quem já está a trabalhar e quer melhorar as suas competências.

A formação ao longo da vida é uma prioridade?
É, mas já não pode ser no mesmo formato. Hoje, no final do 12º ano, os jovens já têm um tipo de competências que eu não tinha quando cheguei à universidade. Têm maior domínio das línguas, o conhecimento hoje está aberto: abre-se uma página web e o conhecimento está lá.

O diretor de Educação da OCDE alertava-nos, no outro dia, para isso: por estarmos numa realidade tecnológica, temos de pensar em ensinar de outra forma.
A questão é que, nos últimos 20 anos, quase não houve reformas nas políticas de educação: houve pouco mais do que o processo de Bolonha, em que se reformularam os planos de curso, mas sem mudanças na metodologia. Hoje, o estudante quer escolher o seu percurso, e faz todo o sentido que ele seja parte ativa nesse processo. A construção personalizada do currículo é uma tendência para o futuro e os académicos têm de perceber isto.

Mas há resistência a essa mudança?
Há, mas as universidades têm de estar abertas à sociedade. Por exemplo: não posso pensar que o plano de mobilidade da minha universidade fique divorciado do da própria cidade. Se somos foco de trânsito temos 
de ser parte da solução.

A universidade tem de dar o exemplo? É isso?
Claro. Vamos avançar com um investimento de 3 milhões de euros, no início do ano, para melhorar a nossa eficiência energética. Aquilo vai baixar-nos a fatura em cerca de 50% e as emissões em 70 por cento. O que as instituições fazem deve estar em linha com a agenda 2030 da ONU e com a noção de desenvolvimento sustentável. Não podemos apenas responder aos nossos interesses.

Daí também se ter pronunciado contra a violência no desporto, como aconteceu no final de um encontro entre universitários.
Tem de ser banida imediatamente. A nossa obrigação é condenar e depois pensar como mudar o comportamento. Para isso, criámos um plano estratégico para o desenvolvimento desportivo como ocupação dos tempos livres. Defendo que o desporto é fundamental, não só para a saúde como para a gestão do nosso tempo. O objetivo é ter entre 30% e 50% da população universitária a fazer desporto regularmente.

Falamos de uma área que foi, nos últimos anos, o parente pobre da Educação, porque prejudicava as médias…
A prática desportiva permite criar espaços de encontro para pessoas 
de diferentes cursos, para que possam misturar-se com outras áreas do saber e aprender a trabalhar em rede e a pensar em novos negócios. Temos de prepará-las para isso. Antigamente, um estudante acabava o curso e entrava no mercado. Hoje, há quem queira criar o seu emprego, a sua vida, o seu sonho.

E ponderaria valorizar isso no acesso ao Ensino Superior, em vez de ser só pelas notas?
Acho fundamental, e há muitos jovens a fazer coisas muito interessantes. Algumas surgiram em reação à praxe, por parte de jovens que não se reviam naqueles modelos de integração 
e procuraram formatos alternativos. Por exemplo, vão visitar doentes. Há quem viva completamente só... É um programa que valeu à UTAD o Prémio IES +Voluntária, atribuído pelo Prémio de Voluntariado Universitário Santander Universidades.


A propósito, as reitorias não deveriam regular as praxes?
Quando assumi as minhas funções como reitor, chamei todos os praxadores e perguntei: se vocês fazem coisas tão boas, porque não libertam um pouco disso nesta altura de receber os novos alunos? Hoje há grupos a recolher alimentos, outros 
a dar explicações a jovens carenciados. Até os alunos de teatro criaram performances para apresentar em instituições de solidariedade social. Provocar um sorriso em pessoas que 
já não têm muita esperança de vida tem um valor incalculável.

Isso quer dizer que eles foram recetivos?
Sim, claro. Foram até muito proativos. No outro dia, estive numa sessão com alunos de Serviço Social, em que eles fizeram uma sessão sobre casos de violência no namoro. Fiquei chocado. Casos escondidos, que eles reportaram num formato de texto e que deixaram as pessoas a pensar. Temos de dar mais relevância a esses bons exemplos, ainda mais porque considero que as universidades se mudam pelo exemplo. Qual acha que foi a reação quando o primeiro jovem ou professor entrou na universidade de bicicleta? Há sempre resistência.

Acredita que as universidades deviam todas criar o seu campus?
Cada uma deve procurar o formato que mais lhe convier. No nosso caso, temos a vida mais facilitada, porque temos um espaço com 120 hectares, que é considerado o maior jardim botânico da Península Ibérica. Estamos a falar de milhares de árvores catalogadas. Além da eficiência energética, vamos ainda passar para a biomassa e descarbonizar o campus, reduzindo a circulação automóvel. Além disso, quero fomentar a pedonalização. Não podemos aceitar que, numa organização, eu conheça o seu email mas não o seu olhar. É inaceitável que não se vá a pé ao gabinete ao lado. Além de que é muito mais frutuoso que as pessoas falem, conversem…

Cria menos entropia…
Já se pensa inclusive, em alguns países, que a partir das cinco da tarde não deve existir trânsito de email... A questão é que o campus tem de ser amigável. E lá está, dar o exemplo. Se há uma reunião num determinado local, vou lá. Não fico no gabinete a receber pessoas. É preferível ir aos sítios, conhecer os problemas. Ali há uma grande proximidade entre professor-aluno também porque almoçamos todos no mesmo sítio. Isto cria um espaço mais amigo e com boas consequências do ponto de vista pedagógico: eles tiram dúvidas logo ali, no espaço do bar ou no jardim. Além disso, deslocalizámos os serviços da área de influência da reitoria, que não existem para servir o reitor, mas toda a comunidade académica, passando para o centro do campus.

A bem do Interior, devia ser reduzido o acesso às universidades dos grandes centros?
Neste momento, o País já tem uma noção que não tinha há uns anos: vivemos a duas velocidades. E isto não é uma guerra entre o Interior e o Litoral. Já há muitas pessoas disponíveis para viver noutros locais. Aquele mito das nove horas de distância, como cantavam os Xutos & Pontapés, já lá vai. Mas há outras assimetrias, desigualdades sociais…

Atrair estudantes para o Interior poderia alterar esse cenário? Hoje, são 11 por cento. Como se chega aos 25% de que gostaria?
Mais importante do que cortar o acesso no Litoral, é pensarmos de que forma podemos atrair os que não entram para o sistema. Isso é que é importante. Já toda a gente percebeu que o futuro da Europa passa pelo conhecimento. A prova disso é que, no próximo quadro comunitário, se prevê um aumento das verbas para a inovação.

Há aqui também uma questão de orçamento?
Estão sempre a falar-nos das propinas e dos precários. É evidente que são questões que temos de resolver, até porque neste momento há um envelhecimento da Academia e temos de introduzir sangue novo. Mas os indicadores mostram que há um grave subfinanciamento: na minha instituição, o plafond que vem do Orçamento do Estado é gasto a pagar ordenados.

E os estudantes internacionais: confirma-se que são uma mais-valia?
Há aqui uma enorme oportunidade para esses estudantes. Claro que Lisboa e o Porto têm um maior atrativo, mas também há bons exemplos em outros locais. Estes alunos apresentam a vantagem de pagar uma propina superior à nacional. Mas não só: o estudante internacional, ao conhecer a realidade portuguesa, gera outro tipo de receita: acaba por viver cá, depois a família vem cá visitar, e isso gera ainda outros efeitos, que não temos forma de medir, que são os negócios que hão de surgir no futuro, a partir das redes que fizeram cá. Hoje, é uma atividade exportadora. Além disso, Portugal é o país mais seguro da Europa, sabemos receber bem, somos um país global desde o tempo dos Descobrimentos. Estudar em Portugal é mais barato do que no resto da Europa. Além de que o tempo é bom. Acho que se está a fazer bem muitas coisas, mas pode fazer-se melhor. Devia divulgar-se Portugal como destino para estudantes, devíamos levar também o ensino às feiras internacionais.

Medicina: faltam médicos? Faz falta mais uma universidade?
Sem dúvida. E também vejo com bons olhos que Portugal possa ser um local onde se formem médicos para o estrangeiro. Mas há, como é público, uma enorme procura destes profissionais em algumas zonas do País. Bom, eu não gosto muito de falar em Interior. É como a praxe. Muitas vezes usamos uma linguagem desmotivadora. É preciso integrar os estudantes. É preciso contrariar a desertificação do País.

Então, em vez de Interior, diria…
Gosto muito da expressão “território desafiante” ou, então, “de menor pressão demográfica”. Há cargas negativas que se constroem, e não há dois países, um contra o outro. Portugal, ainda por cima, é dos países mais coesos. Temos alguns desequilíbrios regionais, mas apenas do ponto de vista demográfico. E, além das universidades, os politécnicos também têm feito muito por essa coesão. Trabalham de uma forma muito ligada ao território.