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"As guerras começam quando se quer mudar o mundo. A melhor forma de mudá-lo é transformar-se a si mesmo, aprendendo com os erros"

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D.R.

Leia ou releia a entrevista ao mestre budista Yongey Mingyur Rinpoche

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

A confusão é mesmo o primeiro passo para o verdadeiro bem-estar. A garantia é dada por Mingyur Rinpoche, monge e autor de um best-
seller, elogiado por investigadores do cérebro, especialistas em inteligência emocional e em gestão do stresse. Nascido há 42 anos na fronteira 
entre o Nepal e o Tibete, o autor de 
A Alegria de Viver – Revelar o Segredo e a Ciência da Felicidade (segunda edição portuguesa, €17,70, 296 págs., escrito em parceria com o norte-
-americano Eric Swanson) é conhecido mundialmente pela sua simplicidade radical, pelo seu sentido de humor e por estabelecer pontes entre o universo da investigação ocidental e as práticas meditativas no Oriente.

Algum tempo depois de ter recebido a sua ordenação monástica e de ter participado ativamente em encontros e diálogos com neurocientistas do Laboratório Waisman de Imagiologia Cerebral e Comportamental, da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos da América, a convite de Dalai Lama, o monge celibatário trocou a sua vida no mosteiro por um prolongado retiro nómada. Saiu de Bodhgaya, na Índia, o local onde Buda Sidarta encontrou a iluminação. Foram quatro anos de errância e de aprendizagem. Desde então, viaja pelo mundo e partilha a sabedoria antiga do Tibete com a intenção de alargá-la a outros contextos – de hospitais a escolas, e até a prisões, passando ainda pela formação em programas de liderança.

Conselheiro do Mind & Life Institute, sediado nos Estados Unidos da América, o mestre budista tibetano vai estar em Portugal, num encontro organizado pela Fundação Kangyur Rinpoche. Entre os dias 5 e 8 de julho, na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, ele dará a conhecer a essência e a prática da meditação, e o seu impacto no cérebro e na vida quotidiana.

Como lida com imprevistos 
e contrariedades?

Desde cedo que me treinei e preparei para o que vier, sem controlar o processo. O que fazer quando as coisas correm menos bem? Não dar importância a isso. Deixar passar. Isso não significa baixar os braços. Podemos usar o conhecimento e as nossas capacidades, fazendo o melhor possível numa situação, sem deixar que a mente fique demasiado centrada nos resultados.

Sentiu impaciência enquanto tentávamos estabelecer novo contacto, via Skype, para esta entrevista?

Senti, mas sei que é algo que faz parte e não me deixei influenciar nem aborrecer por causa disso. Sabe, eu fui uma criança tímida e introvertida. Por volta dos 7 anos comecei a ter ataques de pânico. Procurava libertar-me deles, subindo a montanha, fazendo caminhadas e apanhando frutos silvestres. O pior era quando descia: o pânico voltava, como se fosse a minha sombra. Pedi ao meu pai para me ensinar a meditar. Ele disse-me: “Não fujas do pânico, aceita-o e usa-o para desenvolver a tua autoconsciência.”

Foi assim que superou as crises 
de pânico?

Eu era preguiçoso e ficava entediado ao fim de cinco ou quinze minutos. Pensei que se me aplicasse não teria pânico! Tinha 17 anos quando me ocorreu fazer um retiro de três anos. No primeiro mês, tudo correu bem, mas a preguiça voltou [risos] e as crises também. Nos dois anos que ainda faltavam para o fim do retiro, consegui aceitar aquilo sem resistir nem esperar nada. O pânico perdeu poder sobre mim. A base da minha ansiedade estava em não reconhecer 
a verdadeira natureza da minha mente. Se não fossem estas crises, eu não tinha tido oportunidade de explorar 
a questão “quem sou eu”.

Buda disse que a vida é sofrimento. O oposto da alegria. Como explica isso?

Conto-lhe a história de um empresário que conheci. Insatisfeito com a sua vida profissional, foi a uma livraria e deparou com um livro que começava assim: “A vida é sofrimento.” Ele rejubilou com aquilo. “Que alívio, não sou o único a sentir isto.” Aceitar que a vida é feita de altos e baixos torna-a menos má e isso até pode ser bom, sem o medo e a expectativa 
a interporem-se no caminho.

No Oriente, a aceitação é a chave para resolver todos os problemas?

Nem tudo corre sempre bem nos Himalaias! Lembro-me de crescer a olhar para imagens do Ocidente e pensar: “Ena, que maravilha, as pessoas devem ser muito felizes aqui!” Em 1998, viajei pela primeira vez aos Estados Unidos da América. Dei-me conta de que havia uma barra de ferro em volta de uma torre de vidro e perguntei para que servia. Explicaram-me que era uma medida de segurança, para que as pessoas não se atirassem dali abaixo. Logo ali ficou claro para mim que nos países desenvolvidos também se sofre. 
O dinheiro, a fama ou o poder não contribuem para se alterar o estado de satisfação com a vida. Mesmo se ganhar a lotaria, tende-se a voltar ao estado de insatisfação. Estas questões tornam-se secundárias com a prática da meditação.

O que mostram as pesquisas feitas por neurocientistas sobre 
o que se passa na mente enquanto meditamos?

Nas experiências realizadas em laboratório e que envolveram o uso de técnicas de imagiologia cerebral, concluiu-se que os praticantes de meditação geriam melhor situações que pareciam ameaçadoras ou perigosas. Colocaram a mão dos participantes numa caixa com água e disseram-lhes que, no espaço de 10 segundos, a água ia aquecer e produzir uma sensação de escaldão. No grupo dos que não meditavam, a resposta mais comum foi a de uma mente agitada e propensa à ruminação, mesmo após a experiência. Os outros não se preocuparam em vão, mantendo a atenção no aqui e no agora. Quando está em constante ruído, a mente impede-nos de ver a realidade com clareza. Ao se meditar regularmente, ganha-se um estado de liberdade que se desenvolve graças à neuroplasticidade cerebral. Por exemplo, uma pessoa não quer estar preocupada, mas a preocupação vem, sem que consiga controlar isso, ou não quer estar zangada, mas a zanga vem na mesma. Quem medita não se deixa perturbar.

Qual o primeiro passo para se aprender a meditar?

Qualquer tipo de foco é bom para começar. A respiração, por exemplo. Inspirar e expirar, inspirar e expirar. Enquanto faz isso, vêm imagens, vozes, pensamentos e, ancorada na respiração, uma pessoa vai deixá-los vir. Depois, pode escolher outro foco como, por exemplo, o som. Enquanto se entrega à audição, vai dar-se conta de pensamentos, emoções, mas não se perderá no meio delas. Se vier o medo, observe o medo, se vier o pânico, a mesma coisa. É como estar a ver um rio sem estar dentro dele. A meditação formal, em retiro, sem telefone e sem televisão ou outras distrações, pode ser tão poderosa quanto aquela que se integra nas rotinas diárias, e o segredo é sempre o mesmo: “Tenta outra vez.”

O estado de pânico costuma originar hiperventilação. Centrar 
a atenção na respiração pode agravar esse estado?

Sim, razão pela qual faz sentido focar a atenção no exterior e não na respiração: olhar para uma flor, concentrar-se num som, etc. Importa treinar o ato de estar desperto, presente, dar-se conta do que pensa, sente ou vê. Olhar o céu, ver as nuvens a ir e a vir, sabendo que o espaço em que elas se movem está sempre lá. Com o espaço interno é a mesma coisa, está sempre lá.

Qual é a natureza da mente? Está no cérebro, no corpo ou fora dele?

Não importa! A essência da mente manifesta-se através da capacidade de se observar o pensamento, de se sentir a emoção e ganhar um espaço de abertura interna, que não é palpável, não se consegue tocar, mas que existe.

Por que razão a meditação funciona para uns e não para outros?

Muitas pessoas acreditam que meditar é não pensar em nada, ou bloquear pensamentos e emoções, quando é, simplesmente, não se deixar aprisionar por eles. As preferências têm que ver com os tipos de personalidade, mais ligados ao corpo, à voz ou à mente. A personalidade ligada ao corpo vai dar mais atenção às cores, às formas e ao ambiente, por exemplo. Na visão oriental, temos a ideia do desapego que contrasta com o modelo ocidental, materialista, de ter e de conquistar, de ser o primeiro. São dois extremos, e o equilíbrio está entre eles. É preciso perceber a técnica e o potencial ilimitado que todos temos para estar presentes e despertos. Começa-se por se treinar durante quatro ou cinco minutos diários, pelo menos durante 21 dias. Se sobreviver a essas três semanas, terá criado um hábito novo.
O guru Sogyal Rinpoche, autor do clássico O Livro Tibetano da Vida e da Morte, e que elogia o seu livro, tem sido publicamente apontado por abusos sexuais. O que pode dizer acerca disto?
No budismo tibetano não há os gurus e os outros, todos temos potencial para evoluir. Somos humanos, cometemos erros e temos de aprender com eles para não os repetirmos.

Como foi largar o mosteiro e cultivar uma vida nómada durante quatro anos?

Desde criança que sentia o apelo de andar livre pelas montanhas. Numa noite, deixei tudo para trás e aventurei-me nos Himalaias. Foi um pouco como chegar aos 18 anos e fazer-me à estrada, testar-me e conhecer a minha verdadeira natureza. No princípio, foi difícil: mendigava para comer, fiquei com diarreia, vomitei durante dias. Larguei o papel de professor que ensinava num mosteiro, e tudo isso. Ao quinto dia, o meu corpo entrou em paralisia, deixei de ouvir, mas a minha mente ficou mais clara. O que quer que estivesse 
a viver naquele momento, só podia estar presente.

Teve alguma revelação a partir dessa experiência?

Senti uma abertura e uma tomada de consciência que não é traduzível em palavras. Limitei-me a descansar durante 6 horas e, na manhã seguinte, olhei em volta: as árvores estavam lindas e eu estava vivo, a respirar, sentindo-me grato. Tentei ir buscar água e desmaiei. Levaram-me ao hospital. Aprendi muito nesses anos. Se amarmos o mundo, ele amar-nos-á de volta.

A neurociência e a física quântica podem mudar o mundo?

Os neurocientistas sabem hoje muito mais sobre o funcionamento do cérebro e dos mecanismos percetivos, indissociáveis do que se passa na natureza. Estamos mais próximos da verdade, e isso permite-nos ser mais generosos e compassivos. O que a física quântica diz é que tudo está em constante mudança e passa por altos e baixos, tal como a própria vida, com muitas variáveis que dependem umas das outras. Ao compreendermos esta interconexão, temos de partir do ponto em que precisamos de confiar, mais do que nunca, uns nos outros.

O que diria aos líderes mundiais, olhando para as assimetrias e os conflitos mundiais?

As guerras começam quando se quer mudar o mundo. A melhor forma de mudá-lo é transformar-se a si mesmo, aprendendo com os erros e perdoando-se no seu processo. Se o fizermos, o mundo pode ser um lugar melhor. Todos temos a capacidade de cultivar a esperança, mas sem expectativas. E de cultivar o desapego, que nada tem que ver com desistência. Deixar ir não é desistir!

Faz-lhe sentido a crise 
da meia-idade?

Não a sinto! Eu estudo, ensino e partilho o conhecimento. Meditar mudou-me a vida desde a minha infância, e eu só posso estar grato por isso e pelo que estou a fazer agora.

Como se mantém em forma?

Viajo bastante e medito pela manhã, já que o resto do dia está normalmente ocupado. Faço retiros para mim, com a duração de um a três meses por ano. Comecei a escrever um novo livro sobre o deixar ir, a morte e o morrer. O tema da morte intimida as pessoas e tem muito que ver com o medo que ganha força quando o negamos. Se caminharmos com ele, isso faz toda 
a diferença.