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"Quando as pessoas têm uma crença, não é o discurso racional nem os estudos científicos que vão demovê-las"

Entrevistas VISÃO

João Villalobos, consultor de comunicação e autor do livro Terapias, Energias e Algumas Fantasias

José Carlos Carvalho

Leia ou releia a entrevista a João Villalobos, consultor de comunicação e autor do livro Terapias, Energias e Algumas Fantasias

A meditação faz-se quando um homem quiser. Na “prateleira dos frescos do supermercado onde provavelmente adquiriu este livro”, escreve João Villalobos, 51 anos. Fixe o olhar numa “maçã Starking ou Golden”. “Semicerre os olhos e concentre-se na sua respiração. Inspire profundamente visualizando na sua mente o ar que entra pelo nariz. (...) Repita este exercício até se fartar ou ser expulso do lugar por estar a bloquear o acesso aos iogurtes.”

O livro chama-se Terapias, Energias e Algumas Fantasias (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 
72 páginas), uma viagem que o consultor de comunicação faz ao mundo das medicinas alternativas 
– e o ponto de partida para uma conversa sobre reiki, leituras da aura e... Bom, algumas fantasias.

Estas terapias holísticas, energéticas, ou o que se quiser chamar, são as novas religiões, novas superstições ou novas ciências? Vêm com o propósito 
de ocupar que lugar?

Houve um recrudescimento do fenómeno em Portugal, na segunda metade dos anos 90, e aí a abordagem foi mais religiosa: houve uma aproximação à religião, ou a práticas religiosas, como o budismo. Passados uns anos, o discurso tem mudado, com uma aproximação muito maior a termos e a ambientes da Medicina. Os praticantes apresentam-nas como terapias complementares, embora 
a maior parte das pessoas ainda use 
o termo “terapias alternativas”.

Porquê essa insistência na complementaridade? Porque não confiar a 100% nessas práticas 
– isso não denota falta de fé?

Quando têm problemas de saúde graves, as pessoas procuram tudo, seja para a saúde física seja para o estado psicológico. E tudo pode contribuir para a solução.

Procuram tudo para encontrar paz de espírito?

Estas práticas dão um efetivo relaxamento. Proporcionam uma grande diminuição do stresse, quando mais não seja porque estamos estendidos numa marquesa a ouvir música relaxante.

É esse efeito de relaxamento que explica o estudo do Hospital de Santo António, segundo o qual os doentes que receberam reiki tiveram mais melhorias do que 
os outros?

Quem faz reiki procura oferecer nos hospitais uma prática que complemente e dê tranquilidade a quem a procura. Não estou a opinar sobre o estudo. Daí que o contraponto no livro seja feito pelos divulgadores de ciência David Marçal e Carlos Fiolhais, que desancam o estudo do ponto de vista científico.

Estas terapias estão a conseguir ocupar o espaço da Medicina?

Neste momento, temos uma exposição sobre medicina natural na Biblioteca Nacional. Também recentemente tivemos as notícias sobre o aumento de praticantes da medicina tradicional chinesa. Há muito mais pessoas a recorrer a este tipo de coisas, mas muitas delas não o dizem.

Por vergonha?

Em alguns casos, porque ainda não é visto como aceitável que pessoas com um determinado tipo de vida mais convencional recorram a estas práticas.

O aumento de praticantes e crentes nestas terapias energéticas é feito efetivamente em complementaridade? Ou as pessoas deixam de ir ao médico?

Diria que quem pode ver refletido esse efeito serão talvez os psicólogos e os psicoterapeutas.

No caso dos médicos, se as pessoas têm um problema evidentemente físico, não me parece.

Não é suposto as pessoas substituírem uma coisa pela outra.

Parte do sucesso destas terapias advém do discurso do otimismo: 
se quisermos muito, conseguimos.

Sem dúvida. E também porque as pessoas não têm um tratamento humanizado nos hospitais, quer pela pressão exercida sobre os hospitais quer pela forma como em geral a classe médica age. Não há um tratamento tão individualizado e tão empático. E obviamente isso também tem alguns efeitos.

A medicina é fria e nem sempre 
nos diz o que queremos ouvir, enquanto estas terapias...

Podemos ver a coisa dessa maneira. Embora haja pessoas que podem recorrer a estas medicinas complementares e ouvirem coisas que não querem ouvir, relativamente a causas ou a hábitos que têm e são prejudiciais. E, tal como um médico, também um terapeuta destes com bom senso diria a alguém para deixar de fumar.

Estes movimentos adotam, muitas vezes, entidades superiores vagas. Os chakras, os humores, a alma, 
as energias, os elementos. 
Isto acontece porque quanto mais vago for o conceito mais difícil 
é negá-lo?

Acho que é mais fácil a crença do que a fé. A fé, no sentido religioso, é absoluta. A crença... Podemos acreditar numas coisas e noutras não. Podemos acreditar em conceitos como os chakras e não noutras coisas. No caso do reiki: podemos acreditar que o reiki equilibra os chakras e não acreditar que consegue curar no espaço e no tempo.

Que sustentação há para acreditar numa coisa e não noutra?

Quem pratica estas terapias acredita em ambas. Mas quem recorre a elas pode ser apenas para resolver esse equilíbrio dos chakras.

Mas, do ponto de vista da sustentação científica, tão válidos são os chakras como a crença de que o reiki cura.

Diria que esta área funciona um bocadinho como um hipermercado terapêutico. As pessoas passam no corredor e, de acordo com o que sentem ser a sua necessidade, vão colocando as coisas dentro do carrinho.

Não é uma escolha racional, portanto. É o que nos apetece 
no momento.

Tal como a maior parte das outras escolhas. É por recomendação, por curiosidade, porque se conhece um amigo que pratica.

No livro, conta a história de Isabel R., uma terapeuta holística que se queixa de que os clientes diminuíram.

Sim. A Isabel não surge com o nome verdadeiro, porque este não é o tipo de discurso que é suposto os praticantes de terapias alternativas terem. 
Há muita necessidade de falarem como se estivessem num estado de perfeito equilíbrio... Porque se aquilo que se vende é equilíbrio, 
e se partirmos do princípio de que o universo retorna o que nós lhe damos... Mas o testemunho decorre de outras coisas: da grande concorrência, do próprio processo de formação, que vai aumentando o número de praticantes, o que faz com que cada um tenha menos pacientes e os preços baixem.

Ainda assim, não era natural que aumentassem, se os resultados fossem mesmo bons? Se eu fosse 
a um terapeuta destes e isso resultasse, não parava de lá ir, e passava a palavra a todos os meus amigos e familiares.

Mas a recomendação nesta área não é a mesma coisa do que indicar um bom dentista. As pessoas têm muita resistência a dizer que recorrem a isto.

A vergonha preocupa-as mais 
do que o bem-estar das pessoas 
de quem gostam?

Não é por aí. No caso deste testemunho, é alguém que gostaria 
de se dedicar em exclusividade, 
mas que pelas circunstâncias pode ter de votar-se a outra atividade.

É possível desconvencer 
os defensores destas práticas 
com argumentos racionais?

É complicado. Há uma carta do Niels Bohr para o Heisenberg [dois físicos da primeira metade do século XX] em que ele dizia precisamente que o discurso da ciência é demasiado fechado, comparado com o da religião. E podemos substituir religião por estas terapias. Quando as pessoas têm uma crença, não é o discurso racional ou estatístico nem os estudos científicos que vão demovê-las. 
As crenças destas são baseadas na experiência, em vivências, e essas muito dificilmente serão desmentidas.

Por mais que sejam explicadas pelo efeito placebo [efeito psicológico 
de uma terapia ou medicamento], por exemplo?

Mesmo que sejam explicadas 
pelo efeito placebo. As experiências, pelo menos da forma como as pessoas as vivem, contrariam o discurso 
do efeito placebo. Ou então entram numa interpretação: o que significa o efeito placebo? Funciona? Então, é eficaz. Chamemos-lhe o que quisermos.

Há um documento assinado por oito bispos americanos contra o reiki, com o argumento de que não tem sustentação científica...

Mas também porque abriria a porta a espíritos malignos. Embora eles se foquem mais no argumento da não comprovação, acabam também por dizer que energeticamente é uma prática que pode...

Ou seja, não é verosímil para 
as coisas boas. Mas para as más...

Sim. É um bocado paradoxal. Há ali também um objetivo de preservar 
os fiéis num determinado caminho.

Os bispos estão preocupados 
com a concorrência?

Sim. Para lá disso, aquele comentário que fazem dos riscos do ponto de vista espiritual... A Igreja Católica mantém a figura do padre exorcista. Portanto, a Igreja acredita nos efeitos negativos das entidades maléficas.

Estas seitas religiosas ou holísticas inventam-se, adaptam-se 
e reinventam-se a si próprias conforme vão evoluindo?

Sim, completamente. Tem havido várias adaptações do discurso, e daí termos chegado à utilização de termos como quântica. Agora há várias terapias complementares que utilizam a palavra quântica, porque as pessoas associam o quântico às partículas: por um lado, à energia; por outro, a coisas que apreendem como verdade, sem aprenderem a sua base científica.

Nunca vivemos numa era com tanta informação e, no entanto, crescem teorias não fundamentadas. 
Tem isto que ver com o facto de a informação ser mais democratizada do que nunca, em que toda a gente a produz, sem que haja nenhum filtro a separar a boa da má informação? Estamos a recuar na racionalidade?

Sim. Temos o remoinho da internet, onde muitas pessoas, pesquisando por palavras-chave, chegam a um repositório em que há de tudo.

E as pessoas também não vão à procura de informação, da verdade: procuram quem concorde com elas.

Isso acontece muito com o ser humano. Eu tinha um avô hipocondríaco, que massacrava os médicos, um a um, até encontrar aquele que concordava com ele. Todos temos tendência para privilegiar aqueles que concordam connosco.

Foi a várias leituras da aura...

Fui a seis ou sete.

Falaram sempre das suas vidas passadas.

Sim. Uma das componentes da leitura da aura é o relato de vidas passadas que dá lições para a vida presente. Depois é a fase de limpeza energética.

Nada disso é comprovado nem comprovável.

Pois.

As pessoas não põem isso em causa por não ser comprovável?

Achei curioso os exemplos mencionarem comportamentos que estavam, de facto, relacionados com o meu presente. Mais uma vez, voltamos à questão da experiência própria.

Mas essas coisas que fazem sentido para nós são generalidades adaptáveis a muita gente.

Quando chegamos a estes temas, temos de abandonar a vontade da verificação. Querermos que estas terapias sejam verificáveis além da experiência é impossível. E portanto voltamos à questão da crença. Se eu tenho uma experiência que me leva a continuar essa prática, é porque vejo nisso efeitos positivos. Se tentarmos escolher com base em elementos racionais e científicos, acontece-nos com a crença o mesmo que com a fé. Se desejamos ser católicos praticantes ou budistas com base na razão, não vamos lá.

É mais fácil convencer um cético 
ou desconvencer um crente?

O ceticismo é um estado mais fechado.