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"Sei bem como se podem mandar amostras para concursos. Às vezes o que lá está dentro não é exatamente igual ao que vai para o mercado"

Entrevistas VISÃO

José Carlos Carvalho

Em entrevista à VISÃO, o enólogo e produtor de vinhos João Portugal Ramos defende que "o concurso faz-se todos os dias, quando um consumidor abre uma garrafa nossa, gosta e repete"

Tivesse herdado a veia arquitetónica da família e não se estariam a comemorar os 25 anos do grupo João Portugal Ramos, onde o enólogo já tem dois dos seus cinco filhos a trabalhar. Falámos com ele numa manhã de sol, num momento de (relativo) descanso, antes da partida para a sua 37ª vindima. Com vista para o mar, percorremos os seus 600 hectares de vinha distribuídos pelo Alentejo (onde passa a maior parte do tempo), Douro (numa parceria com José Maria Soares Franco), Tejo, Verdes e Beiras e falámos dos 6 milhões de litros de vinho que produz e vende para os quatro cantos do mundo. E ainda do que gosta de beber, claro.

O vinho tinto bebe-se à temperatura ambiente ou frio, como se prega agora?

(Pausa prolongada, sorriso) O vinho deve beber-se à temperatura que nos souber melhor. Há alturas em que nos sabe melhor mais frio, às vezes sabe melhor à temperatura ambiente. Na dúvida, bebe-se mais para o frio.

Mas branco com gelo já é uma heresia, não?

É melhor beber vinho branco com gelo do que não beber vinho. Cada um tem os seus gostos.
Também é liberal em relação às comidas ou carne é com tinto, peixe com branco e por aí fora?
Hoje são tantos os perfis diferentes de vinhos que conseguimos encontrar um bom branco para comer com uma carne e, no limite, um bom tinto que se adapte melhor a um peixe. Não sou nada fundamentalista. Gosto de beber brancos na altura de beber brancos e tintos quando me apetece.

E rosés?

Menos. O rosé tem menos momentos de consumo. Os brancos e os tintos encurralam-no. Conseguem-se arranjar brancos e tintos que façam o papel do rosé.

Há consumidores (europeus? Americanos? Chineses?) mais sensíveis aos vinhos portugueses ou isso é uma coisa que se educa?

Pergunta difícil! (Silêncio). Há uma grande diferença entre o que é um vinho português ou um vinho feito por portugueses para o consumo mundial. Para nós, enólogos, é a noção de terroir que define as características de um país e de uma região. Mas o produtor tenta adaptar os vinhos ao gosto do consumidor. Acho que temos de adaptar o vinho ao gosto do consumidor porque é ele quem manda, mas nunca descurando aquilo que a terra dá nem adulterando a génese que é uma videira num determinado ambiente.

Faz vinho propositadamente para um mercado, como acontece com algumas marcas de roupa?

Continuo a fazer ao meu gosto, mas para tentar penetrar em alguns mercados, tenho de me adaptar um bocadinho. Mas não são os vinhos que me agrada fazer nem consumir.

Quais são as suas apostas, em termos de mercado externo?

O grande potencial está no mercado dos Estados Unidos. São muitos, ainda consomem pouco e estão abertos a qualquer produto, desde que seja bom e tenha um bom preço. A América é um país que produz muito e importa muito, que está a despertar para a cultura do vinho, tem poder de compra e um consumo que está nos 
3 ou 4 litros per capita (nós estamos nos 40 e tal).

E a China?

São ambos grandes mercados. 
É agradável vender uns contentores para a China, mas temos sempre a sensação de que é um mercado muito volátil, sem fidelização. Acho que a China, quando produzir vinho e achar que produz bem, não há de querer mais vinho nenhum. Os americanos vão estar sempre abertos ao diálogo.

O branco demorou mais a afirmar-
-se. É mais difícil de fazer, não teve tanto investimento, não se deu tanto em Portugal...?

É de tudo um pouco. É mais simples fazer um bom tinto do que um bom branco. Mas a tecnologia veio mostrar que temos um país extraordinário até para a produção de brancos. Eu bebo muito branco. E consigo arranjar muitos mais brancos para adaptar a quase todo o tipo de refeições do que tinto. Sou capaz de beber um branco com carne, mas custa-me beber um tinto com peixe grelhado.

Anda há quase 40 anos nisto e o seu grupo faz em setembro 25 anos. Numa lógica de balanço... o que é que o distingue?

Talvez tenha sido a minha geração que deu o grande pontapé de saída para o reconhecimento do papel do enólogo no setor dos vinhos. 
O enólogo tinha um papel de segunda; hoje é impensável entrar neste negócio sem ter um enólogo a participar nas decisões importantes da empresa, a definir estratégias. Porque há dois caminhos: ou é a enologia a comandar o negócio ou é o negócio a comandar a enologia. Eu sou dos que acha que deve ser a enologia a comandar o negócio.

Portanto, prefere fazer grandes vinhos para umas poucas carteiras do que vinhos de grande consumo a um preço acessível?

Prefiro vender aquilo onde damos o nosso melhor e com o que nos identificamos mais. Mas tenho de olhar para o mercado...

Os grandes produtores, em Portugal, têm um cariz muito regional. Mas a JPR conseguiu vingar em cinco regiões. Qual é o segredo?

Tudo nasceu no Alentejo e é onde eu estou. No resto, vi o que aconteceu com outras empresas e fiz parcerias. No Douro, com o José Maria Soares Franco, que é o enólogo com mais experiência na região. Quando lá vou é de férias, porque é ele o responsável pelo projeto. Segui o mesmo princípio nos Verdes. São as três regiões onde estamos mais bem implantados. Depois, temos uma pequena operação na Foz do Arouce, na quinta dos meus sogros, e no Tejo.

Falta-lhe alguma coisa?

Fiz muito em pouco tempo e estamos numa fase de arrumar a casa. É tempo de integrar a geração dos meus filhos, um passo muito importante para mim, mas que me preocupa. No ano passado comprámos a CRF, que faz 125 anos em 2018. Fico satisfeito por devolver a Portugal uma empresa histórica, que estava em mãos estrangeiras, mas é uma responsabilidade acrescida.

Está a arrumar a casa... para se reformar? Tem quase 40 anos de serviço.

(Risos) Ao serviço da Pátria! As reformas abruptas não dão bom resultado. Há de haver uma desaceleração gradual, porque a vida assim o conta. Vou-me afastando, mas estando presente.

Os franceses estão a transplantar a Touriga Nacional?

A Touriga Nacional até para a Austrália foi. O problema deste negócio é que o raio da vinha se dá em todo o lado. Depois, é engraçado: a casta adapta-
-se ao ambiente e transforma-se, dá origem a outro vinho. Alvarinho também foi um pouco para todo o lado.

Não nos estão a canibalizar?

Não. É bom sinal, é o reconhecimento das castas portuguesas.

Touriga Nacional não devia, então, passar a chamar-se Touriga Portuguesa?

(Risos) Nunca tinha pensado nisso. Há países que se afirmaram pela diferenciação de terroir, outros por uma casta emblemática que se adaptou melhor ao país. Portugal tem a Touriga Nacional. É a mais badalada e a que se adapta melhor a todas as regiões do País. Mas além da Touriga Nacional, há a Touriga Franca, que antes era chamada Touriga Francesa. Também quisemos abolir o termo “Francesa”...

Temos mesmo bons vinhos ou é o nosso ego a falar?

Temos muito bons vinhos. Numa prova cega com vinhos espanhóis e italianos, os portugueses não sei se ganham, mas ficam de certeza ao mesmo nível.

E isso já é reconhecido internacionalmente?

Hoje os críticos já dão 90 pontos a um vinho português com facilidade. Há uns anos era impensável. Olhe a lista da Wine Spectator há três anos: três vinhos portugueses nos primeiros quatro. Portanto, começa a ser, mas demora mais do que desejávamos.

Porquê? O que falta?

Falta o consumidor agarrar na garrafa; falta apagar a imagem de muitos anos a vender vinhos menos bons e baratos. É uma questão de tempo.

Vem de uma família de arquitetos e já tem dois filhos no negócio. Isto do vinho educa-se?

Desde miúdo que via vinha, o meu avô a sair para ver as uvas... Aos 14 já era eu que escolhia o vinho, lá em casa. Os meus filhos foram criados em Estremoz e assistiram a tudo. Dou-
-lhes a cheirar o vinho desde os 10 e a provar desde os 12.

Tem algum vinho, um sonho por concretizar?

Tinha e concretizei: fiz um Porto Vintage.

E um Madeira, não?

Adoro um bom vinho Madeira!

Mas não tem tanta projeção. Porquê?

Durante muito tempo, o grande volume do Madeira ia para França, para cozinhar. Conheço pouco, mas há vinho Madeira extraordinário. Os bons Madeiras velhos são das bebidas que mais aprecio.

Está de férias... come uvas?

Costumo dizer que comer uvas é beber vinho em pílulas (risos). Mas não é uma fruta que coma muito.

Uma pessoa revela-se pelo vinho que bebe?

(Silêncio) Acho que sim. Penso muitas vezes porque é que na mesa ao lado se está a beber aquele vinho. Mas sabe, a partir de um certo patamar de vinho, o preço associado está dependente de como foi promovido, a imprensa, as pontuações que dizem que teve e não da qualidade.

Manda muitos vinhos para concurso?

Mando o menos possível. É uma farsa. As pessoas quando veem uma medalha de ouro não sabem se é um concurso conceituado.

Mas tem muitos prémios.

Em 17 anos na Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz devo ter tido mais de mil prémios. Mas é uma coisa que não me diz nada. Acho que o concurso se faz todos os dias, quando um consumidor abre uma garrafa nossa, gosta e repete. Sei muito bem como se podem mandar amostras para concursos. Às vezes, o que lá está dentro não é exatamente igual ao que vai para o mercado.

Qual é o seu vinho preferido?

Um grande Bordéus. É um vinho que nos transporta para um lugar, faz-
-nos sentir a região. A minha casta favorita é o Cabernet Sauvignon e o de Bordéus é o melhor.

E cá dentro?

É difícil dizer... seria ou o O. Leocura, do Douro, ou o Marquês de Borba Reserva, do Alentejo. Também gosto de uma boa garrafa de Colares velho. E é engraçado, só consigo beber vinho de Colares em Colares. Os vinhos às vezes têm de ser bebidos no seu sítio.

Com que vinho celebrou os seus 50 anos?

(Risos) Quando fiz 50, fui para o Brasil e pedi ao meu importador para mandar uma série de vinhos bons para o resort para onde ia com a família – Marquês de Borba, Vila Santa... Quando chegámos lá, eles tinham trocado os vinhos. Beberam o meu vinho bom e deixaram-nos o vinho de serviço! Portanto não é um bom exemplo, mas no casamento da minha filha mais velha foi um Marquês de Borba Reserva 2009 em magno.

E o primeiro neto?

Estava em Londres. Bebi Sauvignon Blanc da Nova Zelândia, um vinho que bebo muito quando estou fora.

Qual é a sua garrafa mas antiga?

Tenho algumas de 53, o meu ano de nascimento, alguns Colares dos anos 40, uma de Vega Sicília de 63.

E seus?

Tenho uma garrafa duplo magno. Foi talvez o vinho que, em novo, me tenha enchido mais as medidas, tenha sido mais diferente – um vinho que fiz para o José Maria Almodôvar, o responsável por eu ter ido para o Alentejo, em 1980. O vinho era um José Maria Almodôvar, de Moura, 1982.

E seus do princípio ao fim, do grupo João Portugal Ramos?

Extremos 2012 ou 2011, O. Leocura 2011... o ano 2011 foi um ano que ficará para a história como um ano extraordinário. O 2015 está lá quase, mas 2011 foi o melhor ano da minha vida. Tudo correu bem.

(Entrevista publicada na VISÃO 1277, de 24 de agosto de 2017)