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"Uma pedrada no charco" chamada SIC

Sociedade

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O aparecimento da SIC há precisamente 20 anos foi "uma pedrada no charco", decisiva na reformatação da televisão, da informação televisiva, e do serviço público de televisão em Portugal, considera um painel de especialistas ouvidos pela Lusa

"O início da década de 90 marca uma mudança do paradigma do jornalismo em Portugal. Há 20 anos tínhamos o início do Público, da TSF, do Independente. A SIC aparece no caldo desta afirmação da comunicação social como contrapoder, sendo histórica a sua influência no jornalismo televisivo, que vai afetar primeiro a RTP, e depois a TVI", sublinha Felisbela Lopes, docente de Ciências da Comunicação na Universidade do Minho e autora do livro "20 anos de televisão privada em Portugal".

O nascimento da SIC em 06 de outubro de 1992 representou "uma gigantesca pedrada no charco", na opinião de José Azeredo Lopes, ex-presidente da Entidade para a Comunicação Social (ERC).

"Primeiro, porque pela primeira vez o espaço televisivo deixava de ser um exclusivo do serviço público; em segundo lugar, porque rapidamente se percebeu que, para construir o seu espaço próprio no mercado, a SIC iria recorrer a produtos televisivos que a RTP - então, bem mais conservadora - até aí não tinha tido vontade de utilizar; terceiro, porque ia haver concorrência, com os efeitos em cascata que essa nova realidade implicava; quarto, e não menos importante, porque se criavam finalmente condições para, por exemplo, um pluralismo informativo", sintetiza Azeredo Lopes.

A SIC vem trazer "maior pluralismo na informação", assinala também Joaquim Vieira, presidente do Observatório de Imprensa. "A RTP, responsável pelo serviço público de televisão, foi influenciada a fazer melhor, com menos meios e com meios mais ágeis. Tentou também ir atrás do gosto popular, até porque as audiências passaram a ser determinantes, pelo menos, para a RTP1", assinala o jornalista.

Ora, esta tentação por "ir atrás do gosto popular", estimulada pela vertigem das audiências, é o maior pecado que Manuel Falcão imputa à RTP. O diretor geral da agência Nova Expressão e ex-diretor de programas da RTP2 considera que, "infelizmente, a RTP, em vez do caminho da complementaridade, seguiu e incentivou o caminho da concorrência. Entrou na guerra de audiências e na contraprogramação e esse foi o princípio do fim do serviço público de televisão".

Nessa época, sublinha ainda Falcão, a RTP "inflacionou preços no futebol, promoveu a informação-espetáculo, tudo para manter audiências e tentar travar o crescimento das televisões privadas. E o mais curioso é que tudo isso foi muito bem feito e obteve resultados durante uns anos. Deixou marcas no código genético da estação e deturpou o que era o entendimento do serviço público".

José Azeredo Lopes pensa que "as coisas estão mais claras" hoje, no que diz respeito ao serviço público de televisão. Porém, receia que "este ponto de equilíbrio seja muito depressa posto em causa (mais uma vez), e pelas piores razões: o mercado publicitário vai-se comprimindo a níveis inimagináveis; a incerteza sobre o destino da RTP vai tolhendo decisões e estratégias que não sejam de curtíssimo prazo".

"E para compor o 'bouquet', não estou nada certo de que as coisas melhorem a curto ou médio prazo", diz ainda Azeredo Lopes. "Pode perfeitamente suceder que, com uma oferta muito maior do que há vinte anos, caminhemos para um universo do audiovisual menos diversificado, de menor qualidade, e com uma informação exangue pela falta de meios", vaticina o especialista.