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Os espartilhos estão de volta, mas mesmo a versão século XXI tem riscos sérios para a saúde

Sociedade

Longe vai a década de 60, em que se queimavam sutiãs pela libertação da mulher. O espartilho, símbolo da opressão de outros tempos, regressou às passerelles

Catarina Ferreira Gonçalves

“Aperta mais!” Quem não se recorda desta célebre cena de E Tudo o Vento Levou, protagonizada por Vivian Leigh?

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Silver Screen Collection

Kim Kardashian, uma das socialites mais reconhecidas da América, exibiu na Met Gala, em maio, um dos looks mais falados do evento. Com um vestido de Thierry Mugler, Kim conseguiu a atenção dos média pelo tamanho mínimo da sua cintura, entre outros atributos. No vídeo de preparação para o evento, publicado pela Vogue, Kardashian surge a ser confinada, com o auxílio de três homens, ao espartilho produzido à medida pelo designer Mr. Pearl, apaixonado por estas peças desde criança e hoje um dos principais nomes associados à sua produção e ao seu uso.

Para aguentar a severidade imposta pela roupa, Kim teve aulas de respiração, de forma a garantir que as restrições impostas ao corpo não lhe conferissem o destino da atriz Elle Fanning, que acabou por desmaiar durante o Festival de Cannes, também em maio, enquanto usava um espartilho concebido pela Chanel. Antes de pisar a passadeira da Met Gala, Kim saiu de pé de uma carrinha – assim veio ao longo de todo o percurso – pronta a aguentar horas afunilada, com grande dificuldade para se sentar e sem conseguir ir à casa de banho.

O conforto nunca foi motivo para que, desde o século XVI, se usasse um espartilho. Maria João Martins, historiadora de moda, explica que as mulheres das classes altas vestiam-no por obrigação, debaixo de roupas vistosas, para garantir que correspondiam à expectativa masculina de valorização dos seus atributos, numa postura correta e altiva.

No século XIX, quando a crescente industrialização permitiu que o espartilho chegasse a outras classes, adelgaçar a cintura já entrava nas contas de quem o usava diariamente. À entrada para o século XX, a peça acaba por cair em desuso, muito além da chegada do sutiã e doutras cintas: “Na I Guerra Mundial a silhueta muda. As mulheres precisam de mais liberdade de movimento e a medicina começa a explorar os malefícios associados à prática”, afirma Maria João Martins. Também a indústria da moda começou a descartá-lo, em parte graças a Paul Poiret, estilista francês, que começou a desenhar mulheres sem espartilho, como incentivo a libertarem-se dele.

Deformação corporal

Marta Fonseca, especialista de Medicina Geral e Familiar no Hospital CUF Infante Santo, em Lisboa, não deixa de realçar que a prática “tem vindo a ganhar adeptas e há alguns riscos associados”, mesmo que agora os materiais sejam mais maleáveis, quando comparados com barbas de baleia, metal e osso que chegaram a ser usados, no passado, para compor os espartilhos. Tudo depende do uso e da restrição que é imposta: “O nível de compressão é a palavra-chave”, diz.

O espartilho molda, efetivamente, o corpo humano, tanto que, em épocas anteriores, já eram observáveis alterações nos esqueletos por apresentarem uma “configuração diferente, principalmente da caixa torácica”. Ao “uso regular crónico”, como descreve, a médica associa alterações nos pulmões e consequente diminuição da função pulmonar, alterações na função muscular na zona das costas e atrofia muscular “por levar a perda de suporte”. A especialista acrescenta também complicações gastrointestinais, uma vez que “a restrição da zona da cintura pode condicionar o funcionamento do estômago e do intestino”. A compressão que é feita nos órgãos também pode chegar a afetar o fígado e provocar alterações na circulação por “haver menor retorno venoso ao coração”.

Para Marta Fonseca, esta tentativa “contranatura” de dar ao corpo uma configuração que não é habitual pode ainda resultar em fraturas, tal como aconteceu a Nicole Kidman, que partiu uma costela enquanto tentava entrar num espartilho durante as gravações do filme Moulin Rouge, em 2014.

Nuno Abelho é um estilista português familiarizado com a peça e utiliza-a nas suas coleções, inspirado numa vertente levemente histórica. No entanto, por conhecer as restrições que anteriormente um espartilho impunha, tem como prioridade o respeito pelo corpo da mulher. “Não faço espartilhos muito rigorosos, uso materiais derivados dele para dar forma e estrutura mais ao vestido do que à mulher, até porque a silhueta tem mudado bastante”, explica. O estilista vê o espartilho como os saltos altos: limitadores do movimento. “Uma mulher confinada num espartilho e em saltos está dominada”, esclarece. No entanto, considera que a peça, como é usada hoje, “já não tem o carácter opressivo e limitador que anteriormente carregava”, até porque, a seu ver, quem o usa não tem grande perceção do lado social da roupa que veste: “A parte estética das peças está muito mais presente do que a carga simbólica.”

Maria João Martins considera que a utilização destas peças é uma forma de investir na erotização feminina, algo que sempre lhe esteve associado, mesmo indiretamente, mas reforça que “hoje já há uma certa necessidade de desinvestir nessa figura erótica, também graças aos movimentos feministas”, reforça. A mulher do século XIX era obrigada a esta prática, acentuando o “seu papel decorativo na sociedade”. A maior diferença entre um espartilho do século XVI e um do século XXIé, mais do que os materiais, a vertente opcional que carrega: “Nunca foi tão possível cada um expressar-se como quer”, conclui a historiadora.

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