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Ana Billnness, assistente social: “Não somos nenhuns bichos que tiram os filhos às famílias”  

Sociedade

Dedicada à proteção de menores, quantas vezes a portuguesa Ana Billness vai para casa de coração apertado

D.R.

Radicada no Reino Unido há mais de 20 anos, a portuguesa ao serviço de uma agência que faz mediação entre crianças em risco retiradas às famílias e quem é candidato a adotar insiste que essa é sempre a última opção

Nem sempre é fácil, tantas vezes volta do trabalho com o coração apertado. Mas nada disso a deita abaixo. Ana Billness, 43 anos, há 21 no Reino Unido, é uma assistente social com esse papel muito ingrato de ter de avaliar se há negligência grave nas famílias com crianças que foram sinalizadas pelo sistema de proteção de menores - e recomendar, ou não, a sua entrega para adoção.

“É uma realidade muito distante da nossa. Mas vêm milhares de pessoas para o Reino Unido à procura de melhores condições de vida e muitas precisam de ajuda para se organizarem no dia a dia. Só que nem sempre o aceitam, obrigando-nos a outro tipo de intervenção”, lamenta Ana, a assumir que, em cima da mesa, estão histórias de vida com muitos episódios de consumo de álcool e droga, o que rouba a esses pais o dinheiro, o tempo e a paciência para uma rotina normal. “Eles gostam dos filhos, só que os vícios acabam por ser mais fortes...”

Foi na fase final do curso que uma experiência em Eramus naquele país mudou o rumo da sua vida. Apaixonada por um inglês, e com uma profissão muito requisitada, acabou por ser fácil mudar-se para lá. Na bagagem, levava já um estágio na APPACDM, a associação que acompanha meninos com Síndroma de Down, além de uma experiência de voluntariado numa instituição que dava apoio a prostitutas e aos filhos delas, tantas vezes negligenciados, tantas vezes expostos a situações pouco adequadas à sua idade.

“Connosco aqueles miúdos tinham novamente oportunidade de serem crianças, tal era a falta de carinho e atenção. Às vezes as mães esqueciam-se deles em casa e tínhamos de os ir buscar”, recorda Ana, lembrando que ali se ofereciam todo o tipo de competência sociais, mesmo as mais básicas - como aprender a cozinhar.

Essa experiência deu-lhe uma enorme vontade de trabalhar com crianças e, aliando o útil ao agradável, iniciou a sua vivência além fronteiras. Hoje, está a 50 quilómetros de Londres, em Milton keynes, cidade construída depois da II Guerra Mundial para alojar as famílias cujas casas tinham sido bombardeadas. O marido arranjou facilmente lugar numa instituição de apoio a jovens em risco, e Ana como intermediária entre as crianças retiradas às famílias e as candidatas a adotá-las.

D.R.

Silêncio. Muitas vezes, duranta esta chamada Skype para o Reino Unido, sentem-se interrupções no discurso de Ana – e é fácil adivinhar que não é só por haver problemas na ligação ou alguma vergonha de não se lembrar de imediato das palavras em português. É até fácil perceber que será por a conversa lhe trazer à memória alguns desses meninos – e não devemos estar muito longe da verdade já que Ana acaba a confessar que, por mais estranho que parece, muitos lhe foram agradecer.

“Digo e repito que a adoção é sempre o último recurso. Nem se julgue que tiramos crianças sem razões. Além disso, depois da recomendação dos técnicos que acompanham os casos, há sempre uma validação do tribunal”, sublinha Ana, replicando que "também há vezes em que deviam ser retirados e não o são”.

E esses são os que voltam a entrar no sistema de acompanhamento mais tarde. “Depois, uma pessoa quando pega outra vez naqueles relatórios e nem acredita como é que foi possível deixar tudo aquilo arrastar-se tanto...”.

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Ainda há tempos teve entre mãos um caso desses. Era uma família estrangeira, recém-instalada no Reino Unido, cujo comportamento chamou a atenção de quem estava por perto: os maus-tratos sobre os filhos eram diários e encaravam a prática com a máxima naturalidade.

O próprio relacionamento entre marido e mulher encaixava perfeitamente na descrição de um caso grave de violência doméstica. Havia ainda registo de abuso de droga e álcool e o homem era regularmente detido e acusado de roubo. A dado momento, ele resolve sair do país. A mulher, essa, haveria de engravidar novamente (do irmão do ex-marido...!) e só então aceitou receber apoio para aprender a tomar conta do bebé. Até que reincidiu nos consumos. A retirada foi recomendada, mas o tribunal voltou a dar-lhe outra oportunidade.

Nada que descanse muito Ana: “Se calhar, daqui a uns tempos, voltamos a ter notícias desse miúdo e do que nascer entretanto. E depois é sempre pior. Muitas vezes, o abuso no consumo de álcool na gravidez tem efeitos físicos e mentais. Sabemos logo que são miúdos que vão crescer com muitas, muitas dificuldades.”

Um desabafo acompanhado de uma recusa da imagem estereotipada atribuída a quem faz este trabalho. “Não somos nenhuns bichos que tiram os filhos às famílias. Mantenho que a adoção é sempre o último recurso. Sempre. Nem somos negligentes. Quando uma criança desaparece ou morre também nos apontam o dedo. Mas muitas dessas vezes a recomendação para intervir não foi aprovada em tribunal.

Além disso, insiste, antes de se decidir entregar qualquer criança a outras pessoas, averigua-se sempre se há família próxima que possa assumir esse papel de cuidador – que pode até ser algo temporário. “Muitas destas crianças só ficam tristes por não terem sido tão bem tratadas até então”, garante Ana.

Em 2005, chegou a pensar em regressar a Portugal – mas a verdade é que por ali há muita procura de assistentes sociais e os processos são relativamente rápidos, com prazos de poucos meses que têm obrigatoriamente de ser cumpridos. “São vidas de crianças que estão em causa, daí que essa celeridade seja importante, porque evita chegarmos a pontos de não retorno, com sentimentos de impotência à mistura. Sabemos que a nossa intervenção pode fazer a diferença. Toda a diferença.”

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