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11 razões por que não deve perder uma oportunidade de ir a Malta (os cenários da Guerra dos Tronos são só uma)

Sociedade

Jason Hawkes

No pequeno arquipélago do Mediterrâneo, vive-se entre a monumentalidade de Valeta, a tradição piscatória de Marsaxlokk e os cenários naturais que deram vida à ‘‘Guerra dos Tronos’’. Onze razões por que não deve perder estas paisagens de tirar o fôlego, em terra e no mar

Beleza cinematográfica

Em Dwejra, na ilha de Gozo, o arco de pedra em forma de janela já não existe – uma tempestade fê-lo ruir em 2017, deitando ao mar a Janela Azul, um dos muitos cenários malteses onde foi gravada a primeira temporada da Guerra dos Tronos. Esta fatalidade para os fãs da série, mas também para quem visita a região, não impede que a paisagem escarpada continue a ser um dos sítios mais procurados e fotografados em todo o arquipélago. Entre palácios, praças e paisagens naturais, há mais de uma dezena de localizações para visitar, seguindo os passos das personagens da Guerra dos Tronos, num passeio que pode ser feito autonomamente ou integrado numa visita guiada. Mas este não é um fenómeno único nem sequer novo, pois a ligação de Malta ao cinema e à televisão vem de longe. Há mais de três décadas que a paisagem natural e a arquitetura monumental servem de cenário a filmes e séries, como Troia, Gladiador, O Conde de Monte Cristo e Perto do Mar, a produção de Angelina Jolie que, durante a rodagem, fechou ao público a baía de Mgarr Il-Xini, na ilha de Gozo. Numa visita ao arquipélago, vale a pena seguir os passos destes enredos e perceber que ao vivo tudo tem mais encanto.

O fundo do mar

Quem mergulha nas águas amenas e cristalinas de Malta está a fazê-lo numa das paisagens subaquáticas mais procuradas do mundo. Um pouco por toda ilha existem várias escolas que disponibilizam programas para todos os níveis de mergulhadores, desde os iniciados aos profissionais. Há mais de 200 locais assinalados ao longo da costa de Malta, Gozo e Comino, cada um com o seu grau de dificuldade. Nas profundezas revelam-se verdadeiros tesouros, navios e aviões naufragados, como o HMS Maori, em Valeta, o navio-tanque libanês Um El Faroud, na zona de Wied iz-Zurrieq, o P-31, na costa de Comino ou o avião bombardeiro Bristol Blenheim, localizado a 15 minutos de viagem da baía de Marsaskala – recifes artificiais de vida marinha que também ajudam a interpretar a história da ilha mais bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial. Mas nem as bombas estragaram a diversidade geológica que se encontra nesta zona do Mediterrâneo, como rochas, grutas e cavernas de rara beleza, como o Blue Hole, com 25 metros de profundidade e ligação ao mar aberto. As águas cristalinas permitem observar tudo a grande profundidade, nomeadamente corais, atuns, barracudas, polvos e peixes-escorpião.

Wolfgang Poelzer

Banhos de sol

É à quantidade de recortes da costa maltesa, com uma extensão de cerca de 200 quilómetros, que se deve a existência de lugares incríveis para ir a banhos. Embora nem todos tenham areal. Uma das características desta ilha são as baías e enseadas escondidas, lagoas de difícil acesso e várias praias, umas de areia dourada e outras de rocha, cada uma com o seu encanto. Na impossibilidade de parar em todas, sugere-se uma viagem até à Saint Peter’s Pool, perto de Marsaxlokk. Nesta piscina natural, sem marés nem ondulação para atrapalhar, as rochas brancas que lhe servem de abrigo são também, para alguns visitantes, uma maneira divertida de saltar para a água. Na época alta (entre maio e outubro) é muito procurada por locais e turistas. Entre as praias com areal, a de Mellieha Bay, em Ghadira, a maior de Malta, é uma boa opção para quem gosta de aproveitar o sol em família e praticar desportos náuticos. Caso fique alojado no Norte da ilha, a Paradise Bay, perto de Cirkewwa, tem cafés e esplanadas, areal para estender a toalha e vista para Gozo e Comino.

Izzet Keribar

Comino, um paraíso natural

À ilha mais pequena do arquipélago maltês só se chega de barco e, se a ideia é pernoitar, aconselha-se reserva prévia no único hotel existente. A partir de Cirkewwa, apanhando uma das embarcações turísticas que fazem a curta travessia, chega-se em pouco mais de 20 minutos. A viagem é insuficiente para absorver toda a beleza natural desta formação rochosa, com pouco mais de dois quilómetros quadrados e onde apenas residem três pessoas, todas da mesma família. O melhor é saltar do barco e iniciar um passeio pela ilha para explorar as baías, visitar a grande torre de vigia de Santa Maria e dar um mergulho na Lagoa Azul, o ex-líbris de Comino. Esta praia de águas azuis transparentes e pouco profundas é uma das mais bonitas de Malta.

A ruralidade de Gozo

É no porto de Mgarr Il-Xini, onde atraca o ferry vindo de Cirkewwa, em Malta, que se tiram as primeiras impressões de Gozo, a segunda maior ilha do arquipélago maltês. Nas duas colinas viradas ao mar percebe-se o contraste: de um lado, edifícios de apartamentos, do outro, as igrejas de Nossa Senhora de Lourdes e de Ghajnsielem, monumentos imponentes que dão uma pista para o que ainda há para ver. A primeira paragem deve ser feita em Vitória, para uma visita à imponente cidadela que espreita lá no alto, como nova, depois de mais de uma década de obras de reabilitação. Contemple-se as vistas de 360o sobre a ilha, mas também a antiga prisão e a catedral de estilo barroco dedicada a Santa Maria. Com mais de 350 anos, as salinas de Qbajjar, esculpidas na pedra, são uma das atrações naturais, assim como o desfiladeiro de Wied il-Għasri, perto de Zebbug, e a região costeira de Dwejra, com a sua pequena baía interior e o que resta da Janela Azul (cenário da Guerra dos Tronos). Uma subida à gruta de Tal-Mixta, em Nadur, com vista deslumbrante sobre a praia de Ramla Bay, completa o roteiro.

O ponto mais alto da ilha

Na costa oeste de Malta, a vista a partir de Dingli Cliffs é de tirar o fôlego. Este é o ponto mais alto da ilha: 250 metros acima do nível do mar. Apesar da fotogenia e da beleza natural do lugar, não convém arriscar no passeio pelas arribas abertas sem qualquer proteção. O lugar mais seguro para observar a paisagem e fotografar – vê-se a pequena ilha de Filfla (reserva natural de aves migratórias e lagartos) e campos de cultivo – é a pequena varanda de madeira construída nas traseiras da Igreja de Santa de Madalena, a única construção existente. Apesar de parecer um sítio remoto, numa curta caminhada encontram-se os Jardins de Buskett, a maior área verde de Malta (30 hectares), propícia a passeios a pé e piqueniques, que rodeia o histórico Palácio Verdala, construído em 1588, e hoje utilizado como residência de verão do Presidente maltês.

Depois de o sol se pôr

Em Paceville, Saint Julian’s, não há lugar para a monotonia. Este é o coração da vida noturna de Malta, onde se sente o ritmo da ilha e a fusão de culturas que a habita. Entre bares com néon colorido, discotecas, restaurantes da moda e esplanadas repletas de gente, sente-se o fulgor escondido durante o dia. Quando o sol se põe, turistas e locais saem à rua. Bebem Kinnie e Cisk, respetivamente um refrigerante com sabor a laranja amarga e a cerveja tradicional da ilha. A esplanada do Cuba, na baía de Spínola, onde ainda se veem as embarcações tradicionais, é das mais procuradas, mas existem muitas outras alternativas, embora sem o mesmo charme. Aqui, a cozinha internacional ganha à tradicional e em restaurantes como o KuYa Asian Pub, de Gabriel Ferris, onde se comem baos (pãezinhos recheados cozidos a vapor), caldos ramen e gyozas, os clientes fazem fila à porta. A pé e numa curta distância, percorrem-se as avenidas principais, com centros comerciais e lojas de marcas de luxo, a contrastar com pequenos comércios, cabeleireiros, centros de massagem e supermercados, que ali se mantêm. Há casinos e hotéis de cinco estrelas, marinas como a de Portomaso, com os seus pontos de amarração preenchidos de iates de dimensões generosas. E numa miscelânea de línguas, à semelhança da maltesa, ouve-se falar italiano, mandarim, francês, russo e inglês, idioma que muitos estudantes estrangeiros vêm aprender ou aperfeiçoar (é a segunda língua oficial do país), como se estivéssemos a viajar pelo mundo sem nunca ter saído deste pedaço de terra no Mediterrâneo.

Wendy Rauw Photography

A vila de Marsaxlokk

Embalados pelo suave movimento da água, os coloridos dghajsa, embarcações tradicionais de pesca, parecem bailar no porto de Marsaxlokk. A imagem pitoresca fica gravada na memória de quem passa por esta vila piscatória da costa sul, conhecida pelas casas de portas e janelas coloridas e pelo mercado de peixe, que se realiza todos os domingos e é motivo de atração para turistas e locais. O lado mais genuíno e tradicional da ilha descobre-se enquanto percorremos a Avenida Xatt is-Sajjieda, num ziguezague entre as esplanadas, as bancas do mercado ao ar livre, onde se compram souvenirs e produtos tradicionais como o nougat, e os pescadores que no período de descanso vão preparando lentamente as suas redes. Esta pequena baía de águas calmas está rodeada de restaurantes que servem peixe fresco e marisco. Faça-se uma pausa para almoçar e apreciar o que de mais genuíno e tradicional existe na ilha, antes de rumar à Caverna Azul, um conjunto de seis grutas escondidas nas rochas escarpadas, cada uma com águas mais azuis do que as outras, a apenas dez quilómetros de distância. As embarcações tradicionais que fazem este passeio esperam os turistas no pequeno porto de Wied iz-Zurrieq, para percursos de 20 minutos.

Distrito de Cottonera

A Fortaleza de Santo Ângelo, aberta ao público desde 2016, destaca-se na frente marítima do distrito de Cottonera, formado pelas três cidades fortificadas de Birgu, também conhecida por Vittoriosa, Senglea e Cospicua. Quando foi construído pela Ordem de Malta, sobre as ruínas de um castelo normando, era sua função guardar o Grande Porto de Malta, considerado um dos mais bonitos e grandiosos do mundo. Uma viagem de dghajsa (barco tradicional) é a melhor maneira de descobrir os recantos deste porto encantado onde é fácil imaginarmo-nos numa viagem ao passado. Hoje, não é de estranhar se formos embalados pelas esteiras dos grandes iates que aqui procuram abrigo. Este contraste é o que faz da frente marítima e da cidade de Vittoriosa, com as suas construções de pedra calcária, todas elas ornamentadas por varandas fechadas de madeira – à semelhança das que se encontram na Andaluzia, numa clara influência árabe –, um dos locais mais aprazíveis para passear em Malta. No Museu Marítimo é possível viajar no tempo à mesa, numa visita-jantar, promovida e desenvolvida por Liam Gauci, diretor do espaço museológico, que apresenta receitas do século XVIII, pratos que à época chegavam à mesa do grão-mestre português Manuel Pinto da Fonseca.

Mdina, a cidade silenciosa

Não é por acaso que as ruelas ziguezagueantes de Mdina, as suas praças e os seus palácios nobres são cenário para filmes e séries. A beleza da cidade, a primeira capital no tempo em que a Ordem de Malta governava a ilha, resulta de uma mistura de arquiteturas, medieval e barroca, das suas muralhas e monumentos, como a Catedral de São Paulo, de visita obrigatória. Percorrer Mdina de dia é uma viagem no tempo, mas à noite, com a iluminação difusa das ruas, tudo ganha outro encanto. Fazer uma pausa no Café Fontanella, instalado no jardim de uma das casas de Mdina, faz parte do roteiro turístico, assim como uma passagem por Rabat, nos arredores da cidade, onde podem visitar-se as Catacumbas de Santa Ágata e de São Paulo. Apelidada de cidade silenciosa, porque muitos habitantes se mudaram quando Valeta foi construída, é essa característica que a torna única. Quando os turistas se vão embora, é no silêncio que se descobre a verdadeira Mdina.

Martin Novak

A capital, Valeta
A melhor maneira de conhecer Valeta é a andar a pé, para cima e para baixo, sem nos deixarmos amedrontar por uma inclinação mais acentuada. De rua em rua, numa esquadria que não aborrece, antes surpreende. Repare-se nas varandas coloridas de madeira e nas figuras religiosas, que os malteses tanto prezam, colocadas nas fachadas das suas casas. A qualquer momento somos surpreendidos pela arquitetura, com palácios chamados de auberge, outrora residência de membros da Ordem de Malta, ou por edifícios como a Casa Rocca Piccola, onde ainda hoje habitam famílias aristocratas como a do 9º Marquês de Piro. Mas a capital também tem sabido renovar-se: agora, quem entra pela Porta da Cidade vê o edifício do novo Parlamento, da autoria de Renzo Piano. Também se pode visitar o Muza, o novo museu da cidade, e o renovado mercado de Is-Suq Tal-Belt, inspirado no de São Miguel, em Madrid. Há mais sítios incontornáveis, como a Co-Catedral de São João, para admirar os Caravaggios, e os Upper Barrakka Gardens, um miradouro para o Grande Porto, onde todos os dias há uma salva de tiros ao meio-dia e às quatro da tarde. A visita a Valeta não fica completa sem passar pela Republic Street, que atravessa a cidade de um lado ao outro, e entrar no Caffe Cordina, fundado em 1837. E, claro, uma passagem pela Straight Street, outrora de má fama, mas transformada agora num recanto animado, com restaurantes e bares.

A VISÃO viajou a convite da Autoridade do Turismo de Malta

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