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Falta de camas nos hospitais continua a atormentar a comunidade médica

Sociedade

Marcos Borga

O período entre dezembro e maio é sempre complicado para os hospitais portugueses, devido à sobrelotação de doentes nos hospitais. E o problema tende a piorar, assegura o Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna

“Este problema tem anos e só se vai agravar cada vez mais com o passar do tempo.” O pessimismo de João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), é suportado por um inquérito recente, de fevereiro, feito aos Serviços de Medicina Interna, para conhecer em concreto o número de camas extra e de doentes com internamento concluído que tinham à sua responsabilidade nesse dia.

“Chegámos à conclusão que 76% dos Serviços de Medicina Interna do País tinha um universo de 4 866 camas, com uma lotação de 100%. Mas a parte surpreendente, é que, além dessas, ainda existiam nesses serviços 2 142 camas extra. Isto representa um aumento de 44% de pacientes que terão de ser vistos pelos médicos.”

Desses doentes, 1 140 estavam internados noutros serviços do hospital, 841 no Serviço de Urgência e 161 nos próprios Serviços de Medicina Interna. “Em casos normais, nos serviços de cirurgia, nas urgências, existem os enfermeiros desses serviços; mas no caso dos internistas são eles próprios que têm de os ver. Ou seja, têm mais 44% de trabalho. Isto é disruptivo para o trabalho do médico”, garante o Presidente da SPMI.

Outro número que alarmou João Araújo Correia foi “o grande número” de doentes internados nos Serviços de Urgência. “É um número brutal. São doentes que ficam três ou quatro dias no serviço de urgência à espera de vaga. Este foi um fator que levou à demissão de chefes e equipas de urgência que muitas vezes se viam confrontados com mais de cem doentes em passagens de turno, algo que é completamente fora de controlo.”

Este problema não só compromete a vida dos pacientes como torna o trabalho dos profissionais um pesadelo: "Tal como existe para os serviços cirúrgicos o SIGISC (Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia), deveria existir um serviço para ajudar os pacientes e garantir que os médicos são pagos para estarem mais tempo a ver doentes e a fazer cirurgias. Dessa forma, é possível garantir que os pacientes sejam tratados com qualidade e segurança, como têm direito.”

O médico critica uma das sugestões para resolver este problema: “Há doentes que muitas vezes ficam internados no hospital e não são candidatos a irem para hospitalização domiciliar - são demasiado velhos e doentes. Quem pode ficar em casa são pessoas com doenças agudas, tratáveis, mas com um grau de gravidade suficientemente baixo para poderem ser acompanhados em casa. Não é o caso destes doentes.”

João Araújo Correia deixa algumas soluções para este problema: “Primeiro, evitar que os doentes não graves não vão para os serviços de urgência. Tem de existir um circuito, como acontece em qualquer país da Europa, em que vão ao centro de saúde e não ao serviço de urgência.”

“Depois, os serviços têm de adotar o número de camas necessárias para responder às necessidades de cada hospital. Se do ponto de vista demográfico, estamos a ficar cada vez mais velhos e doentes, não podemos diminuir camas. Não há volta a dar.”

No passado 2 de abril, o presidente da SPMI e outros representantes da sociedade reuniaram com a secretária de Estado da Saúde, em que apresentaram soluções para este problema: “Demos algumas sugestões, porque se a situação atual não mudar vai continuar a piorar. Não é aumentando os serviços de urgência até à exaustão, quer em espaços físicos, quer em equipa, que se vai resolver o problema.”

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