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Pinguins da Antártida ameaçados por bactérias... humanas

Sociedade

D.R.

Cientistas encontraram provas de que bactérias que afetam os humanos estão também a afetar as aves marinhas da Antártida e alertam que as consequências para a vida selvagem no continente podem ser devastadoras

Os cientistas pensavam que os animais da Antártida se mantinham isolados de bactérias prejudiciais ligadas ao Homem, mas um novo estudo, publicado no Science of the Total Environment, prova o contrário.

Até aqui, apenas tinham sido detetados casos isolados de transmissão de bactérias tipicamente encontradas em humanos para animais, num processo de zoonose inversa, na região, mas, agora, um grupo de investigadores de Barcelona encontrou, pela primeira vez, provas concretas de infeção com patógenos humanos de aves marinhas da Antártida.

"É a primeira vez que um estudo com uma dimensão tão grande, em termos de geografia e de espécies de aves, foi levado a cabo no oceano mais a sul, mostra provas razoavelmente sólidas de zoonose inversa na Artártida", escreveu Jacob González-Solís, do Departamento de Zoologia e Antropologia Biológica da Universidade de Barcelona, num email enviado à CNN.

    Entre as aves afetadas por bactérias comuns nos humanos, como a campylobacter e a salmonella, encontram-se pinguins, petréis e algumas espécies de aves predadoras e gaivotas.

    Para a investigação, a equipa recolheu amostras de fezes de mais de 600 aves marinhas adultas, entre 2008 e 2011. Entre as bactérias da família campylobacter foi detetado um tipo que é causa comum de intoxicação alimentar na Europa e nos Estados Unidos, incluindo alguns genótipos que nunca ou raramente tinha sido encontrados em aves selvagens. Noutros casos, foram encontrados sinais de estirpes comuns a gaivotas, por exemplo, mas, neste caso, resistentes a antibióticos de uso humano e veterinário comum.

    Embora estas bactérias não estejam associadas a taxas de mortalidade elevadas em animais, a sua deteção mostra que outras, potencialmente mais perigosas, podem chegar ao continente, sublinha Marta Cerdà-Cuéllar, que liderou a investigação.

    "Se estes patógenos conseguiram chegar, outros também chegarão", resume a investigadora do Instituto de Investigação AgroAlimentar e Tecnologia de Barcelona. As consequências, esses, poderão ser devastadoras. "Isto significa que, mais cedo ou mais tarde, a atividade humana vai introduzir patógenos na fauna da Antártida que podem provocar mortes em massa e até mesmo extinções locais", explica González-Solís.

    O número de visitantes da Antártida tem vindo a aumentar nos últimos anos. Em 2016/2017, foram quase 45 mil os turistas a visitar a região e os investigadores acreditam que este crescimento pode estar na origem do achado. Mas em cima da mesa estão também outras possibilidades, incluindo o contacto entre a fauna antártica e sub-antártica com aves domésticas de comunidades como as Falklands.